domingo, 3 de maio de 2026

Frio na barriga

 

Frio na barriga

 

Depois de urinar, Evaristo sentou-se no vaso. Por estar escuro, ele temeu bater o joelho nalguma quina. Se se deitou sem hematoma, sua cachola rangia. É que encafifavam-no aqueles números: 3,0,8.

Contou para Angelina. Já que cismou, olhou. Pela segunda noite, o celular marcava três horas e oito minutos.

Angelina fechou a lancheira da filha. Depois de dizer que aquilo era uma coisinha qualquer, ela lhe beijou a careca.

Manú entrou na cozinha sem os tênis. A mãe, com o nó de lacinho, ajustou os tênis nos pezinhos da menina.

A filha foi ao pai, pediu com as mãos que se inclinasse e, assim que ela terminou de cochichar-lhe, ele sorriu.

Angelina colocou uma pera na lancheira. Disse para o Evaristo não esquecer os boletos. Ela cheirou e deu dois beijinhos no rabo de cavalo da Manú. Da cozinha, deu para ouvir o barulho do chuveiro.

No carro, o pai contou que foi fazer xixi de noite. A menina continuou olhando o celular. Evaristo falou que algum mistério o estava testando. Manú olhou-o até que ele a olhasse.

Evaristo falou que estava frio, chovia e sequer o sem-fim piava. Ele quis fumar. Abriu o armarinho do banheiro, não havia maço algum. Daí, pisando descalço o chão gelado, Evaristo arrepiou-se. Tinha que olhar as horas. E viu que era a segunda vez que acordara às 3:08.

— O senhor se mijou na hora que viu que a hora era repetida?

Evaristo se mijou. E declinou da confissão.

— Pai, o senhor vai contar tudo?

O homem parou o carro no acostamento. Acendeu um cigarro. Tirou sujeirinhas do polegar direito. Ajeitou o retrovisor com a mão esquerda.

— Manú, a mamãe ainda não pode ficar sabendo.

— Não sou bebê, pai. Tenho quatro anos.

Evaristo disse que apostou na loteria. Jogou as dezenas que achou com o três, o zero e o oito; e com o um da terceira vez, já que acordou às 3:18. Ele fez tudo sozinho: apostou, ganhou e abriu uma poupança para cada uma.

— Jura pela mamãe, pai?

— Eu não vou jurar, porque um pai não mente pra filha, Manú.

Com as mãozinhas, ela fez para ele se inclinar. E cochichou.

O homem jogou a guimba. Ligou o motor.

— Mas isso é muito caro, Manú.

Demorou um instante até se decidir por levá-la ao parquinho.

Manú não desceu do carro.

— Você tem que ir brincar na escolinha.

Evaristo abriu a porta. Manú cruzou os braços.

— Eu tenho que ir trabalhar, filha. As pessoas vão desconfiar se eu nem avisar que estou doente.

A menina fingiu que chorava. O pai fechou a porta.

A funcionária veio perguntar se estava tudo bem. O homem contou que de repente deu dor de barriga na menina. Manú choramingava. A funcionária disse que o pai devia levar a garota ao postinho atrás da escola.

— Viu, papai? Agora que a moça falou que está tudo bem, o senhor não vai ter que inventar nenhuma desculpa pra gente ir poder saltar de paraquedas.

Pra chuparem um corneto antes do salto, Manú pediu pro Evaristo falar pra Angelina que ninguém esconde dor de barriga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de maio de 2026.

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