A
convocação
“Não falei?”
Só depois que Dona Cremilda bebeu o
golinho de café é que lhe entreguei as cem pratas.
Eu duvidei. E o nosso dez jogará a Copa
do Mundo.
“Não tem ninguém com o talento dele”.
Não tem. Nem o 10 da Celeste nem o
Cérebro dos Hermanos, não tem ninguém que seja réplica desse, daquele ou de
qualquer jogador que traga nas costas esta distinção: Camisa 10.
A camisa mais pesada de qualquer seleção
de futebol precisa que o atleta que a enverga saiba lidar com a carga.
Para que a botinada não o avarie, flutue
em campo. Quando notar que virá o carrinho do perna de pau, deixe que ele
capote pela lateral afora. Se o cabeça de bagre xinga, passa a mão e peida
adoidado na sua presença, é sua testada no contrapé do goleiro que resultará na
entusiasmada vibração dos torcedores.
“Nunca duvidei que Deus é mesmo
brasileiro, meu amigo.”
Dona Cremilda, esse país é que é divino,
maravilhoso, o paraíso a dar chapéu, rolinho e bicicleta em quem desafie o amor
que Deus tem pela gente.
Se chegamos ao penta, conquistaremos o
hexa.
“Basta ter fé. Honrar a camisa. Ainda
que a câmera não mostre no telão, a boca cante direitinho o Hino da Pátria.”
Louvados sejam, calos de chuteiras.
E eu imagino o craque esquadrinhando a
cancha. Intuindo em que lugar a bola estará no próximo segundo. Inventando a
melhor posição quando os adversários sequer a suponham provável.
“O fora de série desequilibra.”
E penso no Camisa 10.
Minutos antes de a equipe vir para a
partida, espero que ele tome a iniciativa de complementar as falas do técnico.
Não apenas enfatize que o conjunto será eficaz quando trabalhar pela vitória.
“Meu amigo, o melhor sempre tem que
estar no time”.
Durante o almoço, a gente quer que o jogador
mais talentoso não cometa o erro de reforçar qual a função de cada um. Faria
bom papel se engolir o macarrão sem tagarelar.
“E o mais importante. O líder é aquele
que, milésimos de segundo antes que o grupo sinta que é o momento de cada um
tomar parte do círculo, ele é quem abre os braços pra roda ser formada.”
Levantará o caneco aquele que, no
ônibus, a caminho do estádio, não desafinar no samba?
“O Nosso 10 é muito experiente. Já que
será a sua despedida dos mundiais, ele vai trazer o hexa.”
Ter desligado o celular, será o seu gol
de placa?
“Quando as bolsas de apostas tratam
nosso escrete como azarão, aí, sim, é a nossa hora!”
— Quer apostar que a seleção cai nas
oitavas?
— Com a canarinha campeã, virei pegar
milzinho de você, OK?
— Se trouxer o chororô, topa comer
pipoca?
— Fechado!
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 19 de maio de 2026.
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