quinta-feira, 7 de maio de 2026

A mangueira

 

A mangueira

 

No dia 06/05/2026, às 14h45, Cláudio escreveu:

Há uma tortura que me dá nos fins de semana prolongados, quando o calendário abre uma janela generosa e a vida, em vez de simplificar, apresenta uma bifurcação cruel.

Se viajo, gasto o dinheiro que levei três meses guardando com a disciplina austera de quem anota despesas numa planilha cor-de-rosa.

Imagino a passagem, o hotel com cheiro de ar-condicionado velho, a liberdade provisória de ser ninguém numa cidade estranha — e então imagino também a fatura chegando em seguida, pontual e impiedosa como um cobrador de alma.

O prazer já nasce endividado.

Se fico, o quintal me olha. Não é uma metáfora: ele me encara pela janela da cozinha. Enquanto tomo café. Olha-me com aquela grama crescida torta, o vaso tombado desde a chuva de abril, a mangueira enrolada de qualquer jeito — sobre si mesma — como uma cobra que desistiu de ter forma.

Nesse cenário, relaxar é uma ficção que o quintal não aceita. Cada minuto sentado no sofá com um livro é atravessado pela consciência de que há um mundo bagunçado a doze passos de mim.

Até a luva e a vassoura contam com minha culpa. Assim, sem ruído, o feriadão rói-me.

Não viajei, não sosseguei, não limpei o quintal. Entre a decisão e o arrependimento, deliberando com a seriedade de quem salva a pátria, os patriotas e o pão na chapa.

No fim, restou-me a honestidade: não prometi nada.

Às 20h59, Cláudio anotou:

“Às vezes me pergunto se a desordem é minha ou se simplesmente parei de corrigi-la.”

No dia seguinte, às 7h 33, Cláudio voltou ao texto da véspera:

Me dá uma graça genuína nos feriadões, quando o calendário abre uma janela generosa e a vida, em vez de simplificar, bifurca-me.

E sem placa.

Se viajo, gasto o dinheiro que levei três meses poupando.

Imagino a passagem, o hotel com cheiro de ar-condicionado velho, a liberdade ilusória de ser ninguém numa cidade onde as pessoas  nem se ocupam do fim do mundo — e então imagino a fatura chegando em seguida: é meu prazer, reinventar-me na função de inadimplente.

E não viajo. Deixo o quintal me olhar: a grama alta; o vaso tombado desde a chuva de abril; a mangueira serpentando junto ao muro.

Tudo me comove. E eu só não quero me mover.

E então, mangueira?

Uma linha abaixo do texto, às 7h48, Cláudio escreveu:

“Talvez seja disso que se trate sempre: não do destino, mas do que nos abandona.”

Dez minutos depois, Cláudio enviou o texto ao robozinho inteligente que o faz matutar.

Sobre o humor, o xará foi taxativo:

“Ninguém escreve crônica existencial sobre mangueira.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de maio de 2026.

 

 

 

PS – O título, os itálicos (com algumas alterações de minha lavra) e as aspas são de Claude.

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