No
dia 06/05/2026, às 14h45, Cláudio escreveu:
Há
uma tortura que me dá nos fins de semana prolongados, quando o calendário abre
uma janela generosa e a vida, em vez de simplificar, apresenta uma bifurcação
cruel.
Se
viajo, gasto o dinheiro que levei três meses guardando com a disciplina austera
de quem anota despesas numa planilha cor-de-rosa.
Imagino
a passagem, o hotel com cheiro de ar-condicionado velho, a liberdade provisória
de ser ninguém numa cidade estranha — e então imagino também a fatura chegando
em seguida, pontual e impiedosa como um cobrador de alma.
O
prazer já nasce endividado.
Se
fico, o quintal me olha. Não é uma metáfora: ele me encara pela janela da
cozinha. Enquanto tomo café. Olha-me com aquela grama crescida torta, o vaso
tombado desde a chuva de abril, a mangueira enrolada de qualquer jeito — sobre
si mesma — como uma cobra que desistiu de ter forma.
Nesse
cenário, relaxar é uma ficção que o quintal não aceita. Cada minuto sentado no
sofá com um livro é atravessado pela consciência de que há um mundo bagunçado a
doze passos de mim.
Até
a luva e a vassoura contam com minha culpa. Assim, sem ruído, o feriadão rói-me.
Não
viajei, não sosseguei, não limpei o quintal. Entre a decisão e o
arrependimento, deliberando com a seriedade de quem salva a pátria, os
patriotas e o pão na chapa.
No
fim, restou-me a honestidade: não prometi nada.
Às
20h59, Cláudio anotou:
“Às
vezes me pergunto se a desordem é minha ou se simplesmente parei de corrigi-la.”
No
dia seguinte, às 7h 33, Cláudio voltou ao texto da véspera:
Me
dá uma graça genuína nos feriadões, quando o calendário abre uma janela
generosa e a vida, em vez de simplificar, bifurca-me.
E
sem placa.
Se
viajo, gasto o dinheiro que levei três meses poupando.
Imagino
a passagem, o hotel com cheiro de ar-condicionado velho, a liberdade ilusória
de ser ninguém numa cidade onde as pessoas nem se ocupam do fim do mundo — e então
imagino a fatura chegando em seguida: é meu prazer, reinventar-me na função de inadimplente.
E
não viajo. Deixo o quintal me olhar: a grama alta; o vaso tombado desde a chuva
de abril; a mangueira serpentando junto ao muro.
Tudo
me comove. E eu só não quero me mover.
E
então, mangueira?
Uma
linha abaixo do texto, às 7h48, Cláudio escreveu:
“Talvez
seja disso que se trate sempre: não do destino, mas do que nos abandona.”
Dez
minutos depois, Cláudio enviou o texto ao robozinho inteligente que o faz matutar.
Sobre
o humor, o xará foi taxativo:
“Ninguém
escreve crônica existencial sobre mangueira.”
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de maio de 2026.
PS
– O título, os itálicos (com algumas alterações de minha lavra) e as aspas são
de Claude.
Nenhum comentário:
Postar um comentário