terça-feira, 2 de junho de 2026

Os bem-te-vis

 

Os bem-te-vis

 

De episódio em episódio, me escapou a madrugada. Os bem-te-vis armaram a sua rede desde o sopé do Morro da Figueira, de árvore em árvore, até a parabólica de casa.

Abri a janela.

A aurora lambeu meu rosto com os dez graus previsíveis do outono. Não me apoquentei por nem lembrar qual o seriado que achei ter visto. Eu também me evadi da madrugada.

Não dá trabalho algum cochilar no sofá, basta manter o som da tevê naquela altura narcotizante — nem muito alta para injuriar os parentes fantasmas nem baixinha o bastante que mal dê pra ratificar as idiotices que saltam de uma personagem a outra.

Com o mal jeito de uma noitada inútil, vim pro computador decidido a trabalhar.

Achei o arquivo. Quero terminar de revisá-lo antes do almoço.

De ajuste em ajuste, a manhã me escapole. São onze horas e vinte e sete minutos. Com regências pronominais bem calibradas e adjetivos cortados, o texto de medíocre passou a razoável.

Quando o estômago ronca, é hora de parar.

Aprendi com tonturas que o chão fica sob os pés quando a barriga digere o que se come. O corpo prevalece.

Nesta luta contra a dispersão, eu perco. E uma vírgula se aproveita da garfada de arroz para se intrometer nos processos químicos do meu estômago.

E a mente concentra seus dendritos na tarefa de disseminar voltas e mais voltas ao redor de uma elipse.

Se eu percebesse o que está eclipsado, haveria contradição.

Volto ao texto. Nem cheguei a largá-lo fora do prato, e o pego frio. Como quem quis urinar sem nem água ter bebido, retomo-o a seco.

Corto uma frase. E outra.

Releio o parágrafo. Reescrevo a frase suprimida. Consigo fazer isso porque estou concentrado. As palavras não usaram as sinapses para voarem, se esconderem.

A consequência, desloco-a. Antecipo-a à causa, e acho outra coisa, o sorriso. O sorrisinho, esse sim sabe o quanto é divertido me confundir quando a coisa aperta.

Nem sinto se afrouxo. Só sei que sentado eu fico.

Me diverte brincar enquanto trabalho. Jogo, porque aprendo a jogar durante a peleja. E a brincadeira me faz esquecer que estou distraído para o mundo.

O rapaz que registra o consumo de energia elétrica teve que tocar mais de uma vez. Nem sei quantas foram.

Ruborizo, a ele relato o que fazia:

— Estava lá nos fundos. Sabe, estava com a máquina ligada. Hoje é dia de lavar roupa. Me desculpe se demorei.

O meu rosto delata o que acontece comigo quando não lavo roupa coisíssima nenhuma: eu só escrevia.

Coisíssima alguma que é só escrever. A vírgula que não se deixa digerir nas minhas entranhas me faz respirar de boca aberta. E a boca seca me leva ao copo d’água. E não é a água que me devolve ao texto, é a sensação de ter voltado a salivar.

Leio novamente o que tenho que ler.

Se aprovado, salvo o arquivo. Se pressinto que falta algo, vou voltar a ele. Se voltarei, desligo o computador sem lamento algum.

E a janela precisa ser fechada. E os bem-te-vis já estão fugindo do frio da noite que vai subindo pelo sopé do Morro da Figueira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de junho de 2026.

domingo, 31 de maio de 2026

Uruca

 

Uruca

 

Rapaz, na ordem natural das coisas, sexta é minha folga. Então, eu estava vindo pra cá. Sem pressa nenhuma. Vinha vindo. Na certeza de que uma coisa boa ia me acontecer no caminho, eu vinha.

Foi quando, logo do ladinho de casa, um cachorro muito brincalhão pegou de virar sombra minha. Foi engraçado o bicho vir comigo. Sem nem mesmo ser conhecido meu, ele veio.

Tanto achei graça que fiz carinho nele que nem liguei que tivesse pulga. Nem pus interesse de averiguar se ele se coçava por carrapato estar sugando o sangue pela sua carne, coitado.

Rapaz, sabe que eu senti um cheiro danado de mijo assim que pisei fora de casa? Descartei que o danadinho tivesse mijado. E se não foi ele, foi algum pinguço.

Olha que fedia. Coisa mesmo de bebum. E fedia muito.

Se ressalto, é que dou fé que o bicho era de rua, de virar latão, de mijar em poste, em lixeira. Vim de olho, no pé firme, atento com buraco. Eu continuei vindo. Principalmente, se havia mijo, haveria merda mole no caminho. Então, ajuizei isso: o mijo e a merda tinham dono, e queria que não fosse arte do cachorrinho.

Observando o vira-lata — ainda na minha cola —, tive na ideia que o pulguento empesteado tinha era fome. O esqueleto era de bicho que sabia ser sobrevivente da própria miséria. Tinha mais osso aparecendo que pele.

Deu dó de ver tanta alegria. O rabicho não sossegava. Era alegre de dar pena. E tão magro. Rapaz, tão algo feio de ver.

Punha na gente o sentimento de ter dele a compaixão que a gente quer quando precisa.

Sozinho na rua, o bicho devia de estar sofrendo. Uma figura de levar uma vida vadia, de bicho sem eira nem beira.

Rapaz, só de imaginar o pobrezinho sem ter o que comer, na chuva, sem ter onde ficar de fora do vento. Melhor, não.

O vira-lata veio vindo, rapaz, mais sorrindo que brincalhão.

Tive pena da sua figura que me pareceu esquelética. Zanzando o tempo todo. Lambendo água empoçada. Lambendo lama. Sem sequer poder usar a gordura da carne feito capa.

Foi quando, logo quase no cruzamento, ele deu mostras das coisas ordinárias da sua natureza de fera.

Ele pulou. Pulou. Querendo abocanhar a batata, ele pulou.

Sorte que o cara estava mais no alto. Que baita susto! O coitado do rapaz pintava a fachada de uma lanchonete nova.

Reparando no disparate: a nova era velha. Daí me ocorreu que era o mesmo dono tramando, com a demão na fachada, querendo mostrar que a lanchonete era outra. Rapaz, que não era nova nem velha, era a mesma que era outra, pelo azo de ser dada a festanças.

Só que não vou mentir, eu ri.

É que os latidos e os palavrões misturados, rapaz, foram motivo ao incontido de nem eu controlar nem baba nem gargalhada, nada.

No apuro de se safar, largou pincel, num cisco ele subiu pro telhado. No divertido da coisa, rapaz, foi do outro lado da rua que a gente achou de pôr graça naquele: FRANGO À PUR


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de maio de 2026.

 

 

 

PS — No dia 08/01/2023, às 08:29, publiquei URUCA, cuja versão continua disponível neste blogue. Todavia, os ilustres governantes do mundo resolveram alertar: “terroristas são sempre os outros”. Assim sendo, hoje eu publico outra versão de URUCA.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

O pito

 

O pito

 

Pra ver o que tinha dentro da caixa, Marcela pegou uma caneta. E a ponta fina fez as vezes de estilete.

— Tá rindo por quê?

A menina pôs o chapéu na cabeça, e riu-se mais ainda.

— O mais engraçado, Celina, é a sua mãe ter mandado restaurar o que ela nem vai usar.

— Era da vovó?

— Era.

— E esses raminhos são o quê?

E a menina entregou para o pai assim que ele, com um gesto, fez para ela aproximar-se.

— Hum... Tem um raminho de cevada, um de trigo e esse aqui, ó, o mais bonito, filha, é o joio.

— A vovó dava uma de grã-fina, é?

— A senhora sua avó, Dona Magdalena, era mesmo grã-fina. Ela usava chapéu declamando Augusto dos Anjos nos saraus ou jogando truco nos churrascos da gente.

— Vovó era moderninha!

— Quê? Usar chapéu é sinal de modernidade?

— Tô de zoeira, pai.

— Antes que a mamãe encrenque com a gente, ponha de volta.

Ela guardou o chapéu na caixa.

— Engraçado, papai. Eu nunca vi o senhor nem de boné.

— Mas teve um tempo que eu tinha uma boina.

— O senhor de boina? Fala sério.

— É verdade, Celina. Fiquei um ano servindo em Itu. Com dezoito anos, rasparam a minha cabeça lá na Infantaria.

— Nossa! O senhor teve que ficar careca por um ano?

— Passou rápido. Nas folgas, eu saía de boina.

— Nas folgas?

— Sem drama, menina.

— Dona Magdalena bebericando capuccino no gamão e o senhor tomando chuva na careca?

— Que mundo cruel, hein, filha?

— Cruéis são vocês. Vêm já pegar umas sacolas.

Como Ana Maria não parou, o pai voltou-se pro celular e a filha foi bisbilhotar o que tanto a mãe tinha comprado.

— Cadê o meu danone?

— Esqueci.

— Nem trouxe o xampu que eu pedi. E eu pedi tanto, mãe.

— A cestinha encheu. E só a laranja pesou dois quilos.

— A senhora devia ligar. Cabelo desgrenhado não fica bem numa neta da Dona Magdalena, que era uma madame chiquérrima.

— Nem bem a caixa foi entregue, Celina!

Ana Maria tirou da caixa todo o papel de seda.

— Não entregaram a piteira.

— O que é piteira?

— Celina, meu amor, sua avó era mulher do seu tempo. Ela sabia que elegante era ter uma piteira pra combinar com chapéu e luvas.

— O papai tinha boina pra combinar com a careca.

Honório passou a mão pelo cocuruto.

— Agora, Celina... Sou calvo.

Pra cobrar a restituição do objeto, Ana Maria ligou para a loja.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de maio de 2026.

terça-feira, 26 de maio de 2026

À beira de um ataque de riso

 

À beira de um ataque de riso

 

Encontrei Domingos. Atrás dele na fila, elogiei quem toca sanfona como se soubesse. De pronto, virou-se. E sorrimos.

— Que diabo de médico que garranchou essa receita. Vê pra mim se você entende a letra desse querubim caído.

O remédio era um tarja preta para os nervos.

Pedi licença. Fotografei o papel. O celular montou a sequência de letrinhas. Repeti o que a tela mostrava em negrito:

— Como atua direta e exclusivamente no sistema nervoso central, tal medicamento visa à diminuição da atividade elétrica excessiva dos neurônios.

Ele tomou o telefone da minha mão.

— Sonolência severa é efeito colateral. Danou-se.

Perguntei o porquê dessa danação.

Ele emendou que tinha a necessidade urgente de dormir bem, que o dia seguinte era o que muito o deixava mexido, que a cisma quando vem

— Vem logo pondo a cabeça da gente que já nem entenda mais o que lê. Dá tremedeira. Tudo que a mão precisa pegar, ela solta.

— A gente. Qualquer um. Veja, Domingos. É perfeitamente natural que a pessoa fique nervosa com o que ela acredita ser importante pra ela. Só que a calma ajuda mais a gente.

Domingos pegou o meu celular.

— Da última vez, foi só tomar uma tacinha... Santíssima! Faltou ar. O olho ficou escuro. Me levaram de ambulância. Lavaram o bucho. E só fui ser liberado no outro dia.

A cada frase dita, ele pressionou o telefone contra o peito:

— Está tudo aqui. Fala no perigo da depressão respiratória grave. Pode virar overdose. Eu cair em coma. Danou-se mesmo.

Domingos cismou. Estava certo de que iriam visitá-lo.

— Amanhã vou comprar gelo. Depois, vou comprar vinho. Branco, tinto e espumante. Não quero que falte o que mais gostarem.

Ele sabia que a sanfona roncaria os foles.

— A tarde toda. A noite inteira. Até quando a polícia deixasse, ora.

Domingos compraria amendoim e batatinha pronta.

— Como sempre surge um engraçadinho que gosta de reclamar, vai ter pipoca também.

As pizzas?

— Já deixei carregando os dois celulares. Porque sempre dá fome quando a gente se lembra de que não comeu o que sustente.

Pelo coraçãozinho de frango e pelo carvão, teria de ir ao açougue do cunhado. Pela gastança, o marido da sua irmã sorriria...

— Como não conheço pé-de-serra sem zabumba nem triângulo, o Aristeu e a Clotilde vão aparecer.

Domingos levantará às quatro, e não às cinco. E já mandou trocar a bateria do rádio-relógio.

Há pouco, ele foi cortar o cabelo e fez a barba e as unhas.

— Com lenço de pele de oncinha no gogó, vou ficar todo bonitoso. E banho vou tomar logo dois: ao me levantar e antes do almoço.

Só os chatos de sempre é que vão arranjar senões.

— Desculpe, meu chapa. Já que festa surpresa tem que acontecer sem que a gente saiba, não vou convidar você.

— A gente entende, Domingos.

E nos abraçamos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de maio de 2026.

domingo, 24 de maio de 2026

Marx e os ferinos

 

Marx e os ferinos

 

Como me assanham as intrigas, leio as folhas políticas com olhos de gentil homem. E a você, nobre ser humano que lê aquelas páginas ainda se espaventando com o que depreende do lido, digo-lhe que os pelos eriçados do meu peito me incitam a: dar pitacos sobre a estreia do filme O Azarão.

Sendo menos impreciso, pegou-me a comichão de tecer palavras a respeito do prazer que gerará entre os proselitistas — sejam eles a favor, sejam os do contra.

Com argumentos sóbrios, quero discorrer sobre as circunstâncias em que se dará a chegada da película aos cinemas, mas, olhando os jasmins do jardim, lembrei-me do dia em que Marx, pulando na minha perna, foi iracundo ao latir: resolva.

Como sói acontecer, tratei de respirar fundo e abri a janela. E Nina a pulou. E em seguida, veio o Tales.

Como haveria de acontecer, foi aquele perereco.

O pior é que nenhum dos gatos era meu. Todavia, o palco onde se deu a briga, sim, era meu. Parei de trabalhar. Meti-me no imbróglio.

E a confusão virou crônica. Eu a publiquei no dia 02/05/2021 e ela tinha o seguinte título: O filme da minha vida.

O texto publicado era este:

Com um baita tigre-de-bengala no meu encalço, a escolha óbvia é me atirar no rio. Caramba. A fera nada melhor que eu. E que situação terrível a minha, pois meu nado cachorrinho é horrível. Sério. O bicho deve estar a ponto de me abocanhar pelos pés. E o pavor é tanto que nem olho. Engulo tanta água. Cacilda!

Com a coragem aguda de mentir, esse afogamento crônico me fez agir como o último caçador azarado. Com tantas bestas dando sopa, saí do sonho de alma lavada, e mãos abanando.

Por meus botões!

Só que tais conselheiros nem sempre sacam o tanto que eu gosto de reclamar à esperança o muito que me falta.

Dando brevidade ao lampejo, veja bem, reajo como?

Ajoelho-me. A cabeça trama contra mim. Não rezo nem rezarei.

E quanto mais ponho fé que organizo as ideias, mais eu canalizo a energia para o onírico.

E lá estou eu: no papel de esportista nato.

Ao tiro de largada, conservo sensíveis meus calcanhares. Olho em linha reta. A cem metros, vejo a fita. Vindos pelo ar, escuto aplausos.

Segundos após essa cena ficar inteligível, pigarreio.

Posto que o bloco está solto, os tênis fustigam, canta o sabiá a um milésimo do disparo e as arquibancadas estão vazias, o que eu sinto é isso mesmo: alergia a ouro.

Com meu olhar sereno, perscruto tudo.

Com a coroa de louros exalando sensatez, inebria-me dissimular o desarranjo. Estrago a montagem porque sei fazer do fracasso a base do meu sucesso.

O jogo é outro: entrego a redação à professora.

Posso negar a alegria de estar no alto do pódio. Posso desdenhar quaisquer pódios — olímpicos ou chinfrins. Contudo, quando a inveja tira o valor do vulgo, passo a aquecer meus músculos como se fosse escrever algo imperativo.

Cubro a cara com um sorriso. Sei ser convincente.

Por quê? Ora, garoto não tem rugas simpáticas quando sorri.

Esse sorriso atira-me num cenário novo e veste-me outro figurino: senhor das margens, sou quem pratica artes de rio.

Com um fraco para tibiezas, tiro do bagre um salmão. E eu felicito o rio onde piranhas não pululam. Desejando fartura aos pescadores, aceno: sigam atrás de comida, e tenham quilos para vender.

Deixo-me fisgar pelo embalo. Bebo uma cachaça. E as tilápias vão desviando da canoa. E lambo os beiços; haverá brasa, logo mais.

De volta ao chão da folha, sincronizo sons e imagens.

Sem vocação para pregar jejuns a um faquir, defendo o meu pão. Como um ator que se alimenta das câmeras: cadê a fita do filme?

Não faço fita nem ponho laço no presente, o que ocorreu foi isso: defendi a gatinha espevitada das garras do gatão mal-humorado.

E lá estava eu — lavando as unhadas na destra.

Pena que sabão seja tão somente detergente, pois eu queria que minha canhota fosse inábil o bastante pra digitar com maior seriedade a derradeira palavra aos ferinos:

 

SIM

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de maio de 2026.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Otimismo redobrado

 

Otimismo redobrado

 

De minha parte, a atendente não teria motivos para irritar-se. Já os demais na sala, bem, isso é com eles.

Todos eles.

Sem exceção, porque a espera pela realização do exame tinha que ser ali, em meio àquelas pessoas.

E estavam desconfortáveis aquelas mulheres e os senhores, todos nós, porque eu também esperava.

E havia o atraso regular de meia hora ou mais, a depender de quem veio meia hora antes, em atendimento ao recomendado.

Quando feito o pedido de agendamento via telefone, a atendente faz questão de lembrar as recomendações: chegue com trinta minutos de antecedência, não esqueça de trazer toalha, vista roupa esportiva e, por favor, preencha a ficha com letra legível.

Meia hora antes, as mãos não estão suadas. Portanto, escreve-se com a letra que normalmente é um garranchinho simpático.

Simpático também é o cartazinho na parede.

É porque, abaixo da placa de plástico onde está escrito SILÊNCIO, afixaram com durex um sulfite em cuja impressão há uma figurinha infantil com um dedo sobre a boca e acima dessa cabecinha laranjinha fofurinha tascaram isso que me regala uma alegria supimpa:

 

FAÇA SILÊNCIO OU FALE BAIXINHO

 

Quem afixou o pedido ilustrado não sabe de mim que sou um sujeito baixinho que, consequentemente, fala baixinho com a desenvoltura de estar ao rés do chão, por genética.

Papai e mamãe tiveram lá a noite de amor que este bom filho acha que eles fizeram bem, ainda que eu continue baixinho.

Apesar dos ímpetos de conquistador do mundo, eu faço jus a quem debocha de mim quando falo baixinho mesmo quando contrariado, e gritando.

Se aqueles senhores da sala de espera me vissem todo pimpão na esteira, testemunhariam um homem cuja envergadura moral excede a estatura de tampinha, barrigudinho e folgado.

Folgo afirmar que dei de mim o meu melhor.

Se caminhei devagar, é porque a esteira estava posta junto a uma janela, e comprovei o desempenho exemplar dos homens a limpar as janelas do edifício do outro lado da rua.

Quando me aceleraram as passadas ao aumentarem a velocidade do rolamento da dita esteira, resisti.

Fui surpreendido, todavia, pelo computador do médico que assistia meu teste. Sejamos honestos quando houver necessidade de agirmos com a retidão dos puros: não pisquei luzinha vermelha nem apitei.

Apitar não apitei, mas agitei os braços, bati palmas e gritei.

O rato que havia roído a lixeira, o roedor que tinha aberto um buraco deste tamanhico, esse bicho alongou o corpo, afinou-se todo e passou por uma fresta que a mim me espantou pela finura de um dedo.

Senhores que estarão aí quando eu sair, fiz este teste com o dobro de raiva: pela lixeira roída, pelo saco de lixo roído e pela máquina de lavar que ficou sem fazer ruído algum.

E me invejem, senhores, uma vez que o médico foi realmente uma pessoinha bacanérrima:

— Ótimo! Teu coração é de bebê.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de maio de 2026.

terça-feira, 19 de maio de 2026

A convocação

 

A convocação

 

“Não falei?”

Só depois que Dona Cremilda bebeu o golinho de café é que lhe entreguei as cem pratas.

Eu duvidei. E o nosso dez jogará a Copa do Mundo.

“Não tem ninguém com o talento dele”.

Não tem. Nem o 10 da Celeste nem o Cérebro dos Hermanos, não tem ninguém que seja réplica desse, daquele ou de qualquer jogador que traga nas costas esta distinção: Camisa 10.

A camisa mais pesada de qualquer seleção de futebol precisa que o atleta que a enverga saiba lidar com a carga.

Para que a botinada não o avarie, flutue em campo. Quando notar que virá o carrinho do perna de pau, deixe que ele capote pela lateral afora. Se o cabeça de bagre xinga, passa a mão e peida adoidado na sua presença, é sua testada no contrapé do goleiro que resultará na entusiasmada vibração dos torcedores.

“Nunca duvidei que Deus é mesmo brasileiro, meu amigo.”

Dona Cremilda, esse país é que é divino, maravilhoso, o paraíso a dar chapéu, rolinho e bicicleta em quem desafie o amor que Deus tem pela gente.

Se chegamos ao penta, conquistaremos o hexa.

“Basta ter fé. Honrar a camisa. Ainda que a câmera não mostre no telão, a boca cante direitinho o Hino da Pátria.”

Louvados sejam, calos de chuteiras.

E eu imagino o craque esquadrinhando a cancha. Intuindo em que lugar a bola estará no próximo segundo. Inventando a melhor posição quando os adversários sequer a suponham provável.

“O fora de série desequilibra.”

E penso no Camisa 10.

Minutos antes de a equipe vir para a partida, espero que ele tome a iniciativa de complementar as falas do técnico. Não apenas enfatize que o conjunto será eficaz quando trabalhar pela vitória.

“Meu amigo, o melhor sempre tem que estar no time”.

Durante o almoço, a gente quer que o jogador mais talentoso não cometa o erro de reforçar qual a função de cada um. Faria bom papel se engolir o macarrão sem tagarelar.

“E o mais importante. O líder é aquele que, milésimos de segundo antes que o grupo sinta que é o momento de cada um tomar parte do círculo, ele é quem abre os braços pra roda ser formada.”

Levantará o caneco aquele que, no ônibus, a caminho do estádio, não desafinar no samba?

“O Nosso 10 é muito experiente. Já que será a sua despedida dos mundiais, ele vai trazer o hexa.”

Ter desligado o celular, será o seu gol de placa?

“Quando as bolsas de apostas tratam nosso escrete como azarão, aí, sim, é a nossa hora!”

— Quer apostar que a seleção cai nas oitavas?

— Com a canarinha campeã, virei pegar milzinho de você, OK?

— Se trouxer o chororô, topa comer pipoca?

— Fechado!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de maio de 2026.

domingo, 17 de maio de 2026

O mordomo

 

O mordomo

 

Sim, foi o mordomo.

Antes, contudo, de chegarmos ao culpado verdadeiro, façamos o percurso que começa justamente com aquele personagem que nos servirá. Evidentemente, ele passará batido, apontando o ônibus ainda com a porta aberta. A dúvida cairá nos ouvidos de quem nem quer se envolver. Que dúvida?

Lá vai o sujeito.

Ele mantém o passo, apressado. Com contas pra pagar, mentiras pra sustentar, um estressado. Tem coisas mal postas, por resolver. E que mais ninguém meta o bedelho. Porque apto a atar e desatar fatos e fotos, é o vivo interessado a repassar o que foi perguntado.

O outro nem fingia que fotografava pés.

Ambos, em virtude dessa pressa toda, em razão das ansiedades, tinham motivos de sobra para não ouvirem palpites. Eram camaradas que faziam questão de disfarçar a cara enfezada, sim, aquela carinha de gente atrasadíssima.

Portanto, culpemos as bitucas e não o fumante que se livra delas.

O ônibus já foi. O ponto ficou sendo o cinzeiro.

Poderíamos culpar o cronista, porquanto ele faça entrar na crônica um parágrafo inteirinho só pra demonstrar que nada tem de centrado, com uma personalidade tola o bastante pra gracejos pueris.

Sem que o cigarro de um deles tenha sido tragado.

Em outras palavras, vamos agir com condescendência e culpemos a cachola do escriba pelas fumaças pretensamente recreativas.

De passagem, voltemos nossa atenção para a sacola plástica, um típico veículo para transporte de mercadorias.

E a danada está quietinha na boca de um bueiro, só à espera da próxima chuva, que logo virá. Já que ela se dá em exemplo de como barrar o fluxo pluvial, causando estrago, dor de cabeça a quem fuma e gente que perde o ônibus, levando quem responsável a adiantar-se nas sinceras desculpas por transtornos prejuízos.

— Vovô, vou voltar pra casa na canoa?

O ponto também serve pra amarrar bote. Só que o fumante que se apresente para inflá-lo corre esse risco, de desfalecimento.

Destarte, menos pelo baixo custo e pela praticidade no manuseio, culpemos o polietileno pela durabilidade que torna maléfica a química industrial. Em vez de obstruir bocas de lobo, juntem-se milhares para que o bote torne-se um objeto flutuante.

Agora, passemos a sopesar gravemente o temporal.

A enfrentá-lo, empunhando a sua sombrinha com estampa do Bob Esponja, com faixinhas em degradê ─ amarelo, laranja e vermelho ─; reforcemos o ponto: ela mesma é dada a sutilezas.

Pessoa racional, a pedestre de tênis lilás usa a faixa de pedestres. Capaz de engolir a laranjada sem açúcar que o maninho preparou de manhã, de carimbar errada a data do relatório quando o chefe gritou, de sentar-se sozinha no ônibus vazio.

Por conseguinte, ainda que a menor distância entre o ponto x e o y seja uma reta, preferimos zanzar. Pra que as palavras não rasguem cicatrizes no calçado, culpemos a flora estomacal pelo bafo.

Para evitar que bagunceiros tomem a gerência, simplifiquemos, ou melhor, facilite-se a escolha: é sua.

Folgamos escutá-lo, mordomo, ao elencar os bebedores de café: os que fazem cara feia quando está frio; os que cospem de pronto se está pelando; os que pedem água sem gás.

E aqui ninguém desperdiçará seus créditos; e o ouvimos:

─ Quem pegou o ônibus errado?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de maio de 2026.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A irmandade

 

A irmandade

 

Pelo sangue, nenhum laço; pela cara de pau, siameses. Eles juntos sabem como combater caruncho e gorgulhos afins.

Montariam um negócio — uma borracharia. Num site, viram que o futuro é alvissareiro para quem entra no mercado de carros voadores. Pelas figurinhas, eles captaram o fundo: os pneus são caríssimos.

Fúlvio procurou Danilo. E a dupla foi atrás do cara certo.

— Nós dois pensamos. Bebemos só um café. Se a gente quer que o melhor publicitário faça a melhor propaganda, só um nome iluminou a nossa manhã: o seu.

— Cirilo, pagaremos o quanto você pedir.

— Cirilo, estamos prontos pra pagar do jeito que for.

Cirilo procurou na internet informações sobre o modelo mais falado do momento. O veículo não usa pneus.

— Meus amigos, pela consideração, eu topo.

— Quanto você vai cobrar?

— Mil reais.

— Mil? Cê tá loco!?!

— Cirilo, você precisa compreender o que está em jogo. Não vamos chegar nos nossos investidores com essa proposta: o cara mais genial da publicidade fará a nossa campanha por mil reais.

— Campanha? Não é pra bolar só um slogan?

— Campanha, sim, Cirilo. Nós dois queremos que você cuide dos filminhos da TV, dos cortes da internet, dos panfletos de rua, das faixas das fachadas da Faria Lima, dos botões de mochila e do sorriso gentil do Fúlvio.

— Você é o cara que vai iluminar o futuro, Cirilo.

Cirilo passou um café.

— Quero cinquenta mil.

— Cinquenta redondinho vai chamar a atenção.

— Cinquenta e cinco também?

— Cirilo, aceite sessenta. Tá OK?

— Fúlvio, é muito cinco na jogada.

— Pra desconfiarem só depois que tudo estiver feito, Danilo, arrume pra ele sessenta e seis.

— Tem que ser sessenta e um, Fúlvio.

— Caramba! Vocês estão mesmo dispostos a pagar sessenta e um mil reais pelo meu trabalho?

— Cirilo! Você não sacou o quanto te valorizamos, irmão.

— Estamos falando em sessenta e um milhões, irmão.

Sem nenhuma selfie, o pacto foi selado com um cafezinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de maio de 2026.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Um cara evoluído

 

Um cara evoluído

 

A rua é uma reta ligando a Matriz à Capelinha. As pessoas seguem atravessando-a onde bem queiram — basta olhar para cima, pra evitar as bicicletas, e, por causa dos automóveis, tem que olhar pra baixo.

Só lá no final, no cruzamento da Avenida São Sebastião com a Rua Direita, há o semáforo.

Vinte anos atrás, o número de carros era muito menor. Hoje, o alerta precisa ficar ligado quando se está na rua. É recomendável que a gente fique parada enquanto papeia ao celular, ou vão buzinar, vão berrar, e terão de diminuir a velocidade.

Como humanistas, não usamos mais vira-latas para fazer sabão e não adotamos atropelamento como meio para reduzir a população da cidade.

Os automóveis evoluíram. A gente evoluiu.

Aceito que tenha havido tal evolução, pois há cadeirinhas de bebê no banco de trás e não usar cinto de segurança dá multa.

Na falta de um agente de trânsito para flagrar a infração?

Se o motorista fala ao celular quando o farol fica vermelho, cabe ao pedestre mostrar o dedo do meio e exercitar os pulmões saudando a progenitora do tagarela.

Denunciar o agente de trânsito que toma um refri na padoca em vez de fiscalizar o vaivém de carros, ciclistas e pedestres é perder o amigo que leva um engradado de latinhas no próximo churrasco.

— Tá indo ver o jogo no Chicão?

— Tô indo! Só vou usar o banheiro da São Domingos.

— E a cerveja?

— Vou comprar também.

— Beleza! A gente se vê lá.

Beleza! Churrasquinhos também mudaram.

Vai ter clássico. Vão jogar os nossos contra os deles. Vamos ter de vestir o manto sagrado do time do nosso coração.

Creio que o frio veio porque a fé afetou o tempo. As orações fizeram as nuvens chegarem no momento oportuno.

Aleluia!

Bebo a latinha. E seguro a minha língua.

Como o coraçãozinho. E acho melhor ir urinar.

Abro outra latinha. E meu sorriso diz por mim que o voto é secreto.

Celebro o gol do meu time. Sob a japona, o escudo do clube mais amado não deixa de mexer comigo.

Evoluí. Até abraço o adversário ao fim do jogo.

Volto bêbado pra casa. Até atravesso a rua sem forçar que freiem.

Saúdam a minha mãe. Até me surpreendo que a conheçam.

A uma quadra de casa, vejo que o dono da padaria dá um quibe pro moço do cruzamento. Como sujeito evoluído, pago e vou embora.

Já que eu virei essa pessoa bastante evoluída, confesso que adotei as minhas mudanças para me transformar nesse cara que agora faz o que até gostam que ele faça.

Jesus!

Eu precisava ir ao churrasco? Fui pelos amigos.

Eu tinha que ver o jogo? Se bem que o meu time não ganhou...

Eu devia ter falado pro rapaz pôr pimenta no quibe?

Com esse frio, essa garoinha, essa necessidade de manter-me fiel ao amor de Cristo, eu sei que fiz bem em ir à missa das dez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de maio de 2026.

domingo, 10 de maio de 2026

O exibido

 

O exibido

 

Falar do Danilo é falar de uma pessoa sem igual. Não que ele seja alguém que procura se sobressair em tudo o que faz. Pelo contrário, o Danilo é o tipo de gente que se destaca quando a gente é chamada a fazer um balanço de tudo que ele tem feito de bom.

O esforço acaba recompensando porque não há esforço. A gente é que descobre o quanto foi beneficiado pelo bom homem que ele é. Pra gente, é natural ver que ele nem quer ocupar o centro da sala.

Danilo, a gente não olha pro tapete.

Todos os dias a gente pisa sem ver, sem se lembrar da pessoa que o deu. A gente tem o mundo pra ganhar. Então, a gente passa, vai em frente e o tapete continua lá, sempre útil, enfeitando a sala sob o nariz da gente.

É evidente que essa nossa indiferença é errada. A gente se justifica que tem sofrido, que tem trabalhado duro. A gente diz que batalhou pra merecer o pão e a mortadela.

Danilo, onde que a gente come o sanduíche?

Na sala, vendo TV.

Poxa, eu sei, migalhas caem no tapete que você deu pra gente.

E você não cobra da gente que o tapete dado seja limpo depois que os farelos caíram porque não mastigamos de boca fechada. Você nem recrimina os meninos que não tiram os tênis sujos de barro.

Danilo, você sempre encontrará aberta a porta da nossa casa.

Desde aquele aniversário da Samara. Foi naquele churrasco que a gente ganhou o amigo decente que você é.

A minha filha fez bem em convidá-lo, porque a gente nem sabia que podia contar com um fotógrafo tão bom que nem você, Danilo.

A foto que está na sala, você se lembra?

Aquela foto linda da nossa família quem tirou foi você.

A Samara nunca me disse que fez a tatuagem na batata da perna porque você a teria incentivado. Tá na cara que nem preciso dizer que o desenho ficou muito bem na minha menina.

Ora, Danilo, todo mundo gosta do Sansão da Mônica.

Então, não vou implicar com você sobre o que aconteceu já vão lá uns três anos. A minha implicância é de agora, porque eu queria muito que você tivesse vindo comer um pedaço do bolo que a minha patroa pediu naquela confeitaria que só vende bolo.

Marinalva, minha muito amada patroazinha, estava esperando que fosse você a pessoa certa para ter batido a foto no momento em que ela cortava o primeiro pedaço.

Nem vou dizer para quem seria o primeiro pedaço, pois é claro que ele era pra você, Danilo.

Sabe o que acho mais digno na sua pessoa? A camaradagem.

Pra tirar foto de batizado? E foto da picanha do campeonato?

Eu sei que o seu coração só conhece o bem. E eu nunca duvidei de que era você que precisava usar o celular porque o modelo era mesmo sempre novo, e sempre cheio de guere-guere.

Danilo, você é um cara único, pois, afinal, quem mais leria a etiqueta de um tapete pra descobrir que o mimo foi feito em Teerã?

Aliás, Danilo, a única pessoa do meu conhecimento que faz questão de chamar o Irã de Pérsia é você.

Meu amigo, é claro que você já faz parte da família.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de maio de 2026.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

A mangueira

 

A mangueira

 

No dia 06/05/2026, às 14h45, Cláudio escreveu:

Há uma tortura que me dá nos fins de semana prolongados, quando o calendário abre uma janela generosa e a vida, em vez de simplificar, apresenta uma bifurcação cruel.

Se viajo, gasto o dinheiro que levei três meses guardando com a disciplina austera de quem anota despesas numa planilha cor-de-rosa.

Imagino a passagem, o hotel com cheiro de ar-condicionado velho, a liberdade provisória de ser ninguém numa cidade estranha — e então imagino também a fatura chegando em seguida, pontual e impiedosa como um cobrador de alma.

O prazer já nasce endividado.

Se fico, o quintal me olha. Não é uma metáfora: ele me encara pela janela da cozinha. Enquanto tomo café. Olha-me com aquela grama crescida torta, o vaso tombado desde a chuva de abril, a mangueira enrolada de qualquer jeito — sobre si mesma — como uma cobra que desistiu de ter forma.

Nesse cenário, relaxar é uma ficção que o quintal não aceita. Cada minuto sentado no sofá com um livro é atravessado pela consciência de que há um mundo bagunçado a doze passos de mim.

Até a luva e a vassoura contam com minha culpa. Assim, sem ruído, o feriadão rói-me.

Não viajei, não sosseguei, não limpei o quintal. Entre a decisão e o arrependimento, deliberando com a seriedade de quem salva a pátria, os patriotas e o pão na chapa.

No fim, restou-me a honestidade: não prometi nada.

Às 20h59, Cláudio anotou:

“Às vezes me pergunto se a desordem é minha ou se simplesmente parei de corrigi-la.”

No dia seguinte, às 7h 33, Cláudio voltou ao texto da véspera:

Me dá uma graça genuína nos feriadões, quando o calendário abre uma janela generosa e a vida, em vez de simplificar, bifurca-me.

E sem placa.

Se viajo, gasto o dinheiro que levei três meses poupando.

Imagino a passagem, o hotel com cheiro de ar-condicionado velho, a liberdade ilusória de ser ninguém numa cidade onde as pessoas  nem se ocupam do fim do mundo — e então imagino a fatura chegando em seguida: é meu prazer, reinventar-me na função de inadimplente.

E não viajo. Deixo o quintal me olhar: a grama alta; o vaso tombado desde a chuva de abril; a mangueira serpentando junto ao muro.

Tudo me comove. E eu só não quero me mover.

E então, mangueira?

Uma linha abaixo do texto, às 7h48, Cláudio escreveu:

“Talvez seja disso que se trate sempre: não do destino, mas do que nos abandona.”

Dez minutos depois, Cláudio enviou o texto ao robozinho inteligente que o faz matutar.

Sobre o humor, o xará foi taxativo:

“Ninguém escreve crônica existencial sobre mangueira.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de maio de 2026.

 

 

 

PS – O título, os itálicos (com algumas alterações de minha lavra) e as aspas são de Claude.