À
beira de um ataque de riso
Encontrei Domingos. Atrás dele na fila, elogiei
quem toca sanfona como se soubesse. De pronto, virou-se. E sorrimos.
— Que diabo de médico que garranchou essa
receita. Vê pra mim se você entende a letra desse querubim caído.
O remédio era um tarja preta para os
nervos.
Pedi licença. Fotografei o papel. O
celular montou a sequência de letrinhas. Repeti o que a tela mostrava em
negrito:
— Como atua direta e exclusivamente no
sistema nervoso central, tal medicamento visa à diminuição da atividade
elétrica excessiva dos neurônios.
Ele tomou o telefone da minha mão.
— Sonolência severa é efeito colateral. Danou-se.
Perguntei o porquê dessa danação.
Ele emendou que tinha a necessidade
urgente de dormir bem, que o dia seguinte era o que muito o deixava mexido, que
a cisma quando vem
— Vem logo pondo a cabeça da gente que já
nem entenda mais o que lê. Dá tremedeira. Tudo que a mão precisa pegar, ela
solta.
— A gente. Qualquer um. Veja, Domingos.
É perfeitamente natural que a pessoa fique nervosa com o que ela acredita ser
importante pra ela. Só que a calma ajuda mais a gente.
Domingos pegou o meu celular.
— Da última vez, foi só tomar uma tacinha...
Santíssima! Faltou ar. O olho ficou escuro. Me levaram de ambulância. Lavaram o
bucho. E só fui ser liberado no outro dia.
A cada frase dita, ele pressionou o
telefone contra o peito:
— Está tudo aqui. Fala no perigo da
depressão respiratória grave. Pode virar overdose. Eu cair em coma. Danou-se
mesmo.
Domingos cismou. Estava certo de que
iriam visitá-lo.
— Amanhã vou comprar gelo. Depois, vou
comprar vinho. Branco, tinto e espumante. Não quero que falte o que mais
gostarem.
Ele sabia que a sanfona roncaria os
foles.
— A tarde toda. A noite inteira. Até
quando a polícia deixasse, ora.
Domingos compraria amendoim e batatinha
pronta.
— Como sempre surge um engraçadinho que gosta
de reclamar, vai ter pipoca também.
As pizzas?
— Já deixei carregando os dois celulares.
Porque sempre dá fome quando a gente se lembra de que não comeu o que sustente.
Pelo coraçãozinho de frango e pelo
carvão, teria de ir ao açougue do cunhado. Pela gastança, o marido da sua irmã sorriria...
— Como não conheço pé-de-serra sem
zabumba nem triângulo, o Aristeu e a Clotilde vão aparecer.
Domingos levantará às quatro, e não às cinco.
E já mandou trocar a bateria do rádio-relógio.
Há pouco, ele foi cortar o cabelo e fez
a barba e as unhas.
— Com lenço de pele de oncinha no gogó,
vou ficar todo bonitoso. E banho vou tomar logo dois: ao me levantar e antes do
almoço.
Só os chatos de sempre é que vão arranjar
senões.
— Desculpe, meu chapa. Já que festa
surpresa tem que acontecer sem que a gente saiba, não vou convidar você.
— A gente entende, Domingos.
E nos abraçamos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 26 de maio de 2026.
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