terça-feira, 26 de maio de 2026

À beira de um ataque de riso

 

À beira de um ataque de riso

 

Encontrei Domingos. Atrás dele na fila, elogiei quem toca sanfona como se soubesse. De pronto, virou-se. E sorrimos.

— Que diabo de médico que garranchou essa receita. Vê pra mim se você entende a letra desse querubim caído.

O remédio era um tarja preta para os nervos.

Pedi licença. Fotografei o papel. O celular montou a sequência de letrinhas. Repeti o que a tela mostrava em negrito:

— Como atua direta e exclusivamente no sistema nervoso central, tal medicamento visa à diminuição da atividade elétrica excessiva dos neurônios.

Ele tomou o telefone da minha mão.

— Sonolência severa é efeito colateral. Danou-se.

Perguntei o porquê dessa danação.

Ele emendou que tinha a necessidade urgente de dormir bem, que o dia seguinte era o que muito o deixava mexido, que a cisma quando vem

— Vem logo pondo a cabeça da gente que já nem entenda mais o que lê. Dá tremedeira. Tudo que a mão precisa pegar, ela solta.

— A gente. Qualquer um. Veja, Domingos. É perfeitamente natural que a pessoa fique nervosa com o que ela acredita ser importante pra ela. Só que a calma ajuda mais a gente.

Domingos pegou o meu celular.

— Da última vez, foi só tomar uma tacinha... Santíssima! Faltou ar. O olho ficou escuro. Me levaram de ambulância. Lavaram o bucho. E só fui ser liberado no outro dia.

A cada frase dita, ele pressionou o telefone contra o peito:

— Está tudo aqui. Fala no perigo da depressão respiratória grave. Pode virar overdose. Eu cair em coma. Danou-se mesmo.

Domingos cismou. Estava certo de que iriam visitá-lo.

— Amanhã vou comprar gelo. Depois, vou comprar vinho. Branco, tinto e espumante. Não quero que falte o que mais gostarem.

Ele sabia que a sanfona roncaria os foles.

— A tarde toda. A noite inteira. Até quando a polícia deixasse, ora.

Domingos compraria amendoim e batatinha pronta.

— Como sempre surge um engraçadinho que gosta de reclamar, vai ter pipoca também.

As pizzas?

— Já deixei carregando os dois celulares. Porque sempre dá fome quando a gente se lembra de que não comeu o que sustente.

Pelo coraçãozinho de frango e pelo carvão, teria de ir ao açougue do cunhado. Pela gastança, o marido da sua irmã sorriria...

— Como não conheço pé-de-serra sem zabumba nem triângulo, o Aristeu e a Clotilde vão aparecer.

Domingos levantará às quatro, e não às cinco. E já mandou trocar a bateria do rádio-relógio.

Há pouco, ele foi cortar o cabelo e fez a barba e as unhas.

— Com lenço de pele de oncinha no gogó, vou ficar todo bonitoso. E banho vou tomar logo dois: ao me levantar e antes do almoço.

Só os chatos de sempre é que vão arranjar senões.

— Desculpe, meu chapa. Já que festa surpresa tem que acontecer sem que a gente saiba, não vou convidar você.

— A gente entende, Domingos.

E nos abraçamos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de maio de 2026.

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