O
pito
Pra ver o que tinha dentro da caixa,
Marcela pegou uma caneta. E a ponta fina fez as vezes de estilete.
— Tá rindo por quê?
A menina pôs o chapéu na cabeça, e
riu-se mais ainda.
— O mais engraçado, Celina, é a sua mãe
ter mandado restaurar o que ela nem vai usar.
— Era da vovó?
— Era.
— E esses raminhos são o quê?
E a menina entregou para o pai assim que
ele, com um gesto, fez para ela aproximar-se.
— Hum... Tem um raminho de cevada, um de
trigo e esse aqui, ó, o mais bonito, filha, é o joio.
— A vovó dava uma de grã-fina, é?
— A senhora sua avó, Dona Magdalena, era
mesmo grã-fina. Ela usava chapéu declamando Augusto dos Anjos nos saraus ou jogando
truco nos churrascos da gente.
— Vovó era moderninha!
— Quê? Usar chapéu é sinal de
modernidade?
— Tô de zoeira, pai.
— Antes que a mamãe encrenque com a
gente, ponha de volta.
Ela guardou o chapéu na caixa.
— Engraçado, papai. Eu nunca vi o senhor
nem de boné.
— Mas teve um tempo que eu tinha uma
boina.
— O senhor de boina? Fala sério.
— É verdade, Celina. Fiquei um ano
servindo em Itu. Com dezoito anos, rasparam a minha cabeça lá na Infantaria.
— Nossa! O senhor teve que ficar careca
por um ano?
— Passou rápido. Nas folgas, eu saía de
boina.
— Nas folgas?
— Sem drama, menina.
— Dona Magdalena bebericando capuccino
no gamão e o senhor tomando chuva na careca?
— Que mundo cruel, hein, filha?
— Cruéis são vocês. Vêm já pegar umas
sacolas.
Como Ana Maria não parou, o pai
voltou-se pro celular e a filha foi bisbilhotar o que tanto a mãe tinha
comprado.
— Cadê o meu danone?
— Esqueci.
— Nem trouxe o xampu que eu pedi. E eu
pedi tanto, mãe.
— A cestinha encheu. E só a laranja
pesou dois quilos.
— A senhora devia ligar. Cabelo
desgrenhado não fica bem numa neta da Dona Magdalena, que era uma madame chiquérrima.
— Nem bem a caixa foi entregue, Celina!
Ana Maria tirou da caixa todo o papel de
seda.
— Não entregaram a piteira.
— O que é piteira?
— Celina, meu amor, sua avó era mulher do
seu tempo. Ela sabia que elegante era ter uma piteira pra combinar com chapéu e
luvas.
— O papai tinha boina pra combinar com a
careca.
Honório passou a mão pelo cocuruto.
— Agora, Celina... Sou calvo.
Pra cobrar a restituição do objeto, Ana
Maria ligou para a loja.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 28 de maio de 2026.
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