Eu começara a comer uma maçã quando a
campainha soou. Como não sou antissocial nem mão de vaca, passei a mastigar com
todos os dentes, saboreando de tal modo a minha sobremesa que a pessoa que
chegou sem aviso prévio constatasse o quanto me era agradável a sua chegada.
Fui gentil, indiquei a casa de fulano. Falei
de boca cheia; entretanto, para não desperdiçar um teco mínimo da fruta, coloquei
a mão livre na frente da boca. Fui educado, pois é de bom-tom não realçar qualidades
incertas, pois o endereço procurado fala que tipo de negócio o sicrano almeja
empreender.
Se eu acentuasse o quão deletério é o
comportamento dos vizinhos da frente, isso diria de mim que sou um cidadão
atento, mas o tocador de campainha em hora imprópria simplesmente provou-me que
estava certo sobre mim, pois o meu silêncio atestou o quanto é exitoso o culto aos
bons modos que aprendi.
Educaram-me: a castigo merecido,
recompensa admoestatória.
Ensinaram-me: a correções compulsórias,
prazeres reprimidos.
Se a mim bem me compreendo pelas minhas
ações, sou o beltrano que os meus pais prepararam-me a sê-lo, sem que me dobre
o instinto, posto que não me gabo da boa educação que mereço socializar.
Fui útil a quem me procurou e fui
sensato ao avaliar-me, que a tarde siga indiferente a regozijos que sequer poderia
esboçar ao sorrir.
Voltando à louça por lavar, só a mim o
sorriso diz respeito, pois vou trabalhar em prol da minha autoestima, porquanto
vivo domiciliado num lar onde os talheres, os pratos e o copo repousarão,
lavados e limpos, no escorredor.
Mal eu sentara para assistir ao
noticiário da tevê quando o telefone tocou. Como bom-moço que pretendo ser,
atendi ao terceiro toque.
Perguntaram se havia um automóvel cor de
gelo parado à porta da minha residência, impossibilitado de responder com
responsabilidade, pedi que esperassem.
Fui checar e fiz a seguinte descoberta: no
lugar do carro cor de gelo, estacionaram uma carrinha de mudanças.
Tornaram a perguntar se havia um
funcionário de cabeleira ruiva, e isso me fez pedir novamente que aguardassem.
Fui e constatei que não havia um ruivo
entre os funcionários, e isso bastou para afirmarem que o dito cujo de cabeleira
rubra virara cinzas, por combustão espontânea.
Educado, não ri daquela bobagem supostamente
humorística.
Entretanto gentil, desliguei desejoso
que a tarde fosse benfazeja ao interlocutor, embora, para meu desconsolo, o
telefonema dificultou-me de compreender a notícia sobre esse político que, por
hora, está a levar uma tornozeleira eletrônica.
De longe, a tevê mostrou o que me pareceu
uma pantomima, e isso me fez engulhar, pois palhaços revelam o ser humano pusilânime
que não há de se vangloriar deste atavismo.
Regurgitei, assim me vi forçado a bochechar
com o antisséptico ao qual recorro quando tenho rebeladas as entranhas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de julho de 2025.