terça-feira, 22 de julho de 2025

A aparição

 

A aparição

 

Eu começara a comer uma maçã quando a campainha soou. Como não sou antissocial nem mão de vaca, passei a mastigar com todos os dentes, saboreando de tal modo a minha sobremesa que a pessoa que chegou sem aviso prévio constatasse o quanto me era agradável a sua chegada.

Fui gentil, indiquei a casa de fulano. Falei de boca cheia; entretanto, para não desperdiçar um teco mínimo da fruta, coloquei a mão livre na frente da boca. Fui educado, pois é de bom-tom não realçar qualidades incertas, pois o endereço procurado fala que tipo de negócio o sicrano almeja empreender.

Se eu acentuasse o quão deletério é o comportamento dos vizinhos da frente, isso diria de mim que sou um cidadão atento, mas o tocador de campainha em hora imprópria simplesmente provou-me que estava certo sobre mim, pois o meu silêncio atestou o quanto é exitoso o culto aos bons modos que aprendi.

Educaram-me: a castigo merecido, recompensa admoestatória.

Ensinaram-me: a correções compulsórias, prazeres reprimidos.

Se a mim bem me compreendo pelas minhas ações, sou o beltrano que os meus pais prepararam-me a sê-lo, sem que me dobre o instinto, posto que não me gabo da boa educação que mereço socializar.

Fui útil a quem me procurou e fui sensato ao avaliar-me, que a tarde siga indiferente a regozijos que sequer poderia esboçar ao sorrir.

Voltando à louça por lavar, só a mim o sorriso diz respeito, pois vou trabalhar em prol da minha autoestima, porquanto vivo domiciliado num lar onde os talheres, os pratos e o copo repousarão, lavados e limpos, no escorredor.

Mal eu sentara para assistir ao noticiário da tevê quando o telefone tocou. Como bom-moço que pretendo ser, atendi ao terceiro toque.

Perguntaram se havia um automóvel cor de gelo parado à porta da minha residência, impossibilitado de responder com responsabilidade, pedi que esperassem.

Fui checar e fiz a seguinte descoberta: no lugar do carro cor de gelo, estacionaram uma carrinha de mudanças.

Tornaram a perguntar se havia um funcionário de cabeleira ruiva, e isso me fez pedir novamente que aguardassem.

Fui e constatei que não havia um ruivo entre os funcionários, e isso bastou para afirmarem que o dito cujo de cabeleira rubra virara cinzas, por combustão espontânea.

Educado, não ri daquela bobagem supostamente humorística.

Entretanto gentil, desliguei desejoso que a tarde fosse benfazeja ao interlocutor, embora, para meu desconsolo, o telefonema dificultou-me de compreender a notícia sobre esse político que, por hora, está a levar uma tornozeleira eletrônica.

De longe, a tevê mostrou o que me pareceu uma pantomima, e isso me fez engulhar, pois palhaços revelam o ser humano pusilânime que não há de se vangloriar deste atavismo.

Regurgitei, assim me vi forçado a bochechar com o antisséptico ao qual recorro quando tenho rebeladas as entranhas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de julho de 2025.

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