domingo, 13 de julho de 2025

Os anjinhos do papai

 

Os anjinhos do papai

 

Outra madrugada daquelas. Tem feito frio e é normal que faça. Mas, acordei às quinze pras quatro. Desde que a dor de garganta pegou pra valer, estou sem dormir. Não durmo há quarenta e quatro horas. Eu não estou gostando dos pensamentos. Parece que a cabeça quer que eu tenha ideias esquisitas. Deveria ter tomado os meus remédios, pois as horas sem dormir estão fazendo efeito. Eu podia ter enchido a cara, aí o sono me pegaria e daí nem teria percebido esse poder estranho que eu tenho para sucumbir nas coisas ruins.

Outras coisas ruins vão acontecer, estão para acontecer. Eu sei que estou metido nisso, e isso será ruim pra cacete. Não tenho como parar a engrenagem e os pensamentos vão indo por vias sórdidas, isso não é problema meu, é da mente e toda cabeça boa sabe que ninguém fica no controle o tempo todo.

Ouço o baque de quem pulou o muro de casa. Não tenho cachorro no quintal, mas tenho a mim e isso é muito pior.

Já tenho pena de quem está vindo. Não sou nada fácil, não paro no meio do que estou fazendo. Se me dispus a fazer o que seja, não paro fácil. Se não estou bêbado nem chapado, sou problema a quem acha que finjo que estou medicado. Tenho tomado os barbitúricos, eu só não tomei hoje por causa desta sinistra dor de garganta.

Ouço, o cara mexe na maçaneta. Tomara que abra de vez, que isso de esperar enerva e não fico bem quando bate a ansiedade.

Tenho que minhas garras estão afiadas, e o bote será fatal. Não vai ter luta nem rolaremos no chão. Não gosto de chão frio, e eu já apaguei no chão da cozinha um montão de vezes.

O cara deve ser novo no pedaço. Vai pagar por não saber quem eu sou, pois eu sou pacato, um cara bacana que gosta de papear, alguém que não gosta de problemas, um cara que toma remédios pra não virar problema para as pessoas. Então, quem mexe na maçaneta nem devia ter vindo me roubar, pois serei a pessoa sensata que vai precisar dar jeito na coisa.

Não gosto de rotular ninguém, mas o sujeito vir roubar uma pessoa que não faz mal a ninguém, isso o torna um babaca e eu não gosto de babaca. Porque gente assim se acha esperta, capaz de se safar, mas sou o cara certo para dar o corretivo que ela nem espera receber.

Quem é esperto teria vigiado a casa, teria observado a minha rotina, teria se inteirado por qual motivo as janelas de casa não têm grades, e o babaca não fez nada disso, ele sequer deu o melhor de si.

Querer roubar a minha casa não é problema meu, mas dar um jeito no cara é um problema de fácil solução: levarei o corpo pelo rio.

Quando o cadáver der na margem, vai ter investigação, acharão as respostas e acabarão por descobrir o que houve.

E eu deitarei de bruços, porei as mãos às costas, não darei um pio, serei dócil, pacato como sempre, não direi pra que time eu torço ou se estou devendo no bar, assoviarei uma vez e eu terei a minha apoteose: hão de brilhar os meus pitbulls criados a leitinho de mandioca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de julho de 2025.

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