Quando vi as roupas na vitrine, parei. Como
costumo ser desligado, perguntei à vendedora se vendiam cuecas. Sim, a loja
vendia. Pra não entrar à toa, pedi pelo modelo, pela marca e pelo tamanho. Sem
sorrir, a funcionária disse que vendiam, sim.
Vi penhoares nas araras, pedi que
mostrasse pijamas. Ela mostrou alguns, eu compraria um de algodão, mangas curtas
e shortinho. Voltei a sorrir, mas não me justifiquei, que bicicletas o estampavam.
Em instante algum a funcionária me deu
mole, até porque não sorri para seduzi-la ou usei o sorriso como confissão da besteirinha,
que vou sonhar com o prazer de pedalar, a passear ao léu.
Como paguei à vista e em espécie, achei que
podiam dar desconto. Fiz bem, pois economizei seis por cento. Agradecido pelo
abatimento, sorri, mas a caixa se despediu formal, sem acabrunhamento.
Apressadinho, carregadinho de sacolinhas,
fui pelo declivezinho da Quinze pra Rua da Bica.
Santo fraternalmente sensível, São Pedro
não me pôs na roda nem me esquartejou, apenas me concentrou nas pessoas que, cinco
metros adiante, desciam do ônibus.
Surpresa com minha palhaçada, no cerca-galinha
às dez da matina, a moça que subia desviou-se, que só consegui não cair porque
a mão esquerda, espalmada no poste da esquina, salvou-me do vexame.
São Pedro, São Pedro, não lhe bastava o
vento friíssimo, ao senhor não bastavam os nove graus, tinha que me levar a
pisar no buraquinho do meio-fio, São Pedro, São Pedro, tinha também que tornar
um sabão o asfalto com uma finíssima garoinha?
Doidinho para mandar pros quintos
qualquer unzinho que inquirisse se eu estava bem, à moça que escapou do
encontrão só consegui dizer o óbvio, que não foi nada, que eu só torci o pé.
Com o pé torcido, o tornozelo latejando
e uma vontade de rir porque precisava urgentemente desapegar-me desse sentimento
de ser outro pobre-diabo que não tinha de me achar vítima do azar, pois estava
indo pedir esclarecimentos, que eu tinha direito de reclamar.
Fui cobrar providências, uma vez que o
wi-fi não voltou à velocidade que tenho contratada. Realcei que o novo aparelho
tornou dificultoso o ajuste do serviço. Só não relatei que o técnico julgou
certo compartilhar o seu descontentamento com a empresa.
Louvado seja, meu santo São Pedro, pois
agradeci que agendaram a visita técnica pra dali a uma semana, pois compreendi
a necessidade de dar um tempo para que fossem por aí o vento frio, os nove
graus e a garoinha que deixava o asfalto um sabão.
Como o mundo é vasto e a vastidão é
fascinante, meu solidário São Pedro, louvo-o por sua misericórdia, uma vez que
o senhor fez amenas a dor no peito do meu pé esquerdo e a dor crônica no tendão
de Aquiles da perna direita.
Louvado seja, santo danadinho, meu
propofol sem tequila, uma vez que, feito bicicleta sem freios, desatinei-me naquele
garoto de coração vertiginoso.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de julho de 2025.
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