Segundo o que registra o trambolho na
praça, a prova da existência do inverno são os dez graus. Já as blusas
comprovam que o meu corpo sente que, nesta quadra do ano, a Terra roda mais
longe do Sol. Agora, ao juntarmos a temperatura baixa e a impotência pra ocultar
o desastre que é a minha tentativa de ligação à moda, leitor, sem redobrar
esforço, você há de reparar o quanto estou cosmicamente ridículo.
De pouco vale que não tolere as minhas
parcimônias: se meia de lã e tênis dão proteção ao pé direito, a unha encravada
do dedão do outro pé sabe como me constranger, porque, sem sequer uma meiazinha
de algodão, calço um chinelo de dedo.
Não me dói o dedão, doo-me à altivez, pois olhares certeiros dão no pé exposto ao universo. Todavia, não bato em
retirada, uma vez que eu a compreendo, máquina implacável, percebo o seu jogo,
topo jogá-lo, eu anseio pelo próximo lance.
Não me desespera não ter esperança, que
a sua realidade é a mais pura demonstração: cosmo, você é perfeito, logo não há
motivos para que me disponha a mudá-lo, aprimorá-lo, redesenhá-lo evoluído.
Resfriado, eu é que preciso de cama,
sopa e remedinhos.
Porque o peito carregado precisa de xarope
e a minha sinusite será curada com anti-inflamatório, e, não tendo tais
farmácias em casa, eis-me na praça às dez da manhã.
Se eu estivesse equilibrado, o meu
cérebro não estaria funcionando contra mim: estou parado na praça, o pé
esquerdo enregelado pelo frio da manhã, os olhos cravados nos anúncios que se
revezam, a cachola me dizendo que estou sendo ludibriado, pois são dez os graus
Celsius que o termômetro aponta, sendo que os estou sentindo menores, uns seis
graus, quiçá, com benevolência, uns oito.
O inverno é real; o frio é real ― logo, não
estou caduco.
Mesmo que me ache um fantasma na
máquina, não emperro eixos, polias ou a gravitação universal. Ao fim e ao cabo,
posso tossir, posso expelir catarro, posso xingar a mãe de todos os vírus,
posso isso e algo mais, só que isso, que posso e faço, é em vão.
Pessoa que me lê, leitor ou leitora, estamos
de acordo quando digo que o corpo humano não possui a constituição técnica para
entender o mundo com isenção?
Mesmo que eu esteja com unha encravada,
falto ao bom senso que leva as pessoas a rirem à socapa pela estupidez de eu
exibir na praça um pé inapropriado pra ocasião.
Pessoa amiga, não fico pê da vida nem
pelos dez graus apontados no painel nem por ele não parar de oferecer um SUV,
um duplex com quatro suítes, um cruzeiro all-in para Búzios.
Proliferam os gérmens da incivilidade, uma
vez que tenho apenas um galo pro xarope mucolítico, broncodilatador e barato o
bastante pra não faltarem quireras pro paracetamol com pseudoefedrina.
Detonados os inimigos do bem-estar, acho
a resposta: não votei em quem deu por bem instalar o trambolho que toma o lugar
do banco que havia debaixo do ipê amarelo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de julho de 2025.
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