terça-feira, 1 de julho de 2025

Haja o que houver

 

Haja o que houver

 

Perdoe-me, começarei pelo meu processo de escrita: pego o papel, pego a caneta, sento a bunda na cadeira, rabisco a ideia, ou a palavra, que me fez pegar papel e caneta para registrá-la.

O pedaço de papel pode ser qualquer um e eu possuir apenas uma caneta me exoneram de outras especulações sobre o papel e a caneta, pormenorizo, porém, o ato de escrevinhar.

Escrevinho em pé quando só preciso anotar uma única palavra, por ficar nisso, só no registro da sua forma, sem me dar comichão de bolar uma história, arquitetar circunstâncias, contrariar-me pela perspectiva adotada, imaginar significados pra dita palavra, verificar que acepções o pai dos burros tem abonadas, assim, escolho viajar sentado quando as ansiedades fazem-me conectar veredas, põem-me espantado com abismos, secam-me a boca se não sussurro o ponto final.

Já que ultimamente não tenho sussurrado com facilidade, postergo a admissão de que o esgotamento tem-me angustiado com frequência assaz inquietante.

Poderia a gracinha de considerar o esgotamento como ocorrência puramente física, feito caixa d’água que precisa ficar com o mínimo de água para que seja realizada a sua limpeza.

O esgotamento é físico e mental, porque meu corpo pensa e minha mente tem fadiga, e não há banana com aveia que reenergize a minha disposição pra digitar o ponto final necessário e preciso em muitas das crônicas que escrevi neste trimestre.

Acolhido o juízo que o esgotamento a que me submeto não hei de superá-lo com piaçava e lambidas, debruço-me sobre o teclado, adoço a boca com murmúrios, entrevendo-os como sussurros, porque não os instituo como prenúncios do necessário e preciso ponto final que posso querer quando a crônica me possibilita que o vislumbre próximo.

É isso, as palavras conversam comigo, brincam, jogam, pedem que as trate bem, que não as tome como ídolos, que vulgarize o que houver de vulgarizar, que as diga aprazíveis, desfrutáveis, apetecíveis, que as ponha e disponha como quem as ama, quem as aprecia amantes, que as trata com bombons, licores e conchinha.

A crônica sussurra, mordisca os meus lóbulos, lambe meu pescoço, faz com que eu abra os olhos, faz com que eu a admire no esplendor de sua beleza, e eu me submeto.

Submisso, deixo que a palavra me puxe para a próxima palavra, eu me deixo mergulhar nas águas que a crônica me dá de beber, não me quero um escafandrista, sinto-me amante de pérolas a mergulhar sem tubo de oxigênio e sem óculos, pois a língua serpenteia sobre a areia do fundo, varre, sonda, me entusiasma, me encanta desvelar a palavra necessária e precisa.

Então, o esgotamento é feito de acumulação, acomodação, ajustes, de pequenos tremores a revelar fissuras e a compactar fendas, para que a saliva da minha boca seja uma recompensa efêmera, pois a próxima crônica será outra, será a que tiver de ser.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de julho de 2025.

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