Perdoe-me, começarei pelo meu processo
de escrita: pego o papel, pego a caneta, sento a bunda na cadeira, rabisco a
ideia, ou a palavra, que me fez pegar papel e caneta para registrá-la.
O pedaço de papel pode ser qualquer um e
eu possuir apenas uma caneta me exoneram de outras especulações sobre o papel e
a caneta, pormenorizo, porém, o ato de escrevinhar.
Escrevinho em pé quando só preciso
anotar uma única palavra, por ficar nisso, só no registro da sua forma, sem me
dar comichão de bolar uma história, arquitetar circunstâncias, contrariar-me
pela perspectiva adotada, imaginar significados pra dita palavra, verificar que
acepções o pai dos burros tem abonadas, assim, escolho viajar sentado quando as
ansiedades fazem-me conectar veredas, põem-me espantado com abismos, secam-me a
boca se não sussurro o ponto final.
Já que ultimamente não tenho sussurrado
com facilidade, postergo a admissão de que o esgotamento tem-me angustiado com
frequência assaz inquietante.
Poderia a gracinha de considerar o
esgotamento como ocorrência puramente física, feito caixa d’água que precisa
ficar com o mínimo de água para que seja realizada a sua limpeza.
O esgotamento é físico e mental, porque
meu corpo pensa e minha mente tem fadiga, e não há banana com aveia que
reenergize a minha disposição pra digitar o ponto final necessário e preciso em
muitas das crônicas que escrevi neste trimestre.
Acolhido o juízo que o esgotamento a que
me submeto não hei de superá-lo com piaçava e lambidas, debruço-me sobre o
teclado, adoço a boca com murmúrios, entrevendo-os como sussurros, porque não
os instituo como prenúncios do necessário e preciso ponto final que posso
querer quando a crônica me possibilita que o vislumbre próximo.
É isso, as palavras conversam comigo,
brincam, jogam, pedem que as trate bem, que não as tome como ídolos, que
vulgarize o que houver de vulgarizar, que as diga aprazíveis, desfrutáveis,
apetecíveis, que as ponha e disponha como quem as ama, quem as aprecia amantes,
que as trata com bombons, licores e conchinha.
A crônica sussurra, mordisca os meus
lóbulos, lambe meu pescoço, faz com que eu abra os olhos, faz com que eu a
admire no esplendor de sua beleza, e eu me submeto.
Submisso, deixo que a palavra me puxe
para a próxima palavra, eu me deixo mergulhar nas águas que a crônica me dá de
beber, não me quero um escafandrista, sinto-me amante de pérolas a mergulhar
sem tubo de oxigênio e sem óculos, pois a língua serpenteia sobre a areia do
fundo, varre, sonda, me entusiasma, me encanta desvelar a palavra necessária e
precisa.
Então, o esgotamento é feito de acumulação,
acomodação, ajustes, de pequenos tremores a revelar fissuras e a compactar fendas,
para que a saliva da minha boca seja uma recompensa efêmera, pois a próxima
crônica será outra, será a que tiver de ser.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de julho de 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário