terça-feira, 15 de julho de 2025

Conhecimento do amor

 

Conhecimento do amor

 

Com o ombro recostado no batente, a mulher mais alta bebericava o café que a outra tinha acabado de coar.

― Você tem que acertar comigo, Amália.

― Hoje não tem como pagar você. Paciência por mais um dia, que vou ver se a mãe da Ana Beatriz me paga, porque o baile já foi e nada de eu receber.

― Você é difícil de aprender. Quando aceitou o pedido, deveria ter cobrado a metade.

― A Marinalva é gente honesta. Nunca que eu ia desconfiar que ia levar um cano desses.

― Ainda mais de gente boa, né, Amália?

― Sim, Amanda, é mais doído quando o tombo vem de uma pessoa como a Marinalva, que nunca ninguém disse um senão sobre o caráter dela.

― Se ninguém nunca disse um senão, ela é honestíssima.

A mulher mais velha levantou-se e, depois de só passar uma água, pôs o copo no escorredor.

― Agora eu vou ter que sair, Amanda, porque o Alberto pediu que eu pegasse uma receita com o doutor Siqueira.

― O doutor Siqueira é outro, ele é um crápula que vive dessa sem-vergonhice de passar receita por fora.

― O Alberto tem dormido melhor, só acordando com o despertador, ele já não fica virando na cama nem vai urinar no escuro.

― Benfeitoria que não isenta o doutor Siqueira, Amália, porque ele viaja pra Disney e vocês nem conseguem pagar o dinheiro que ajuda vocês a darem descarga de madrugada.

― Só que não precisa ficar jogando na cara, porque eu vou te pagar amanhã. Eu recebendo pelo vestido, te pago. Amanda, eu juro.

Até aposentar, o pai de Amália e Amanda foi ascensorista no prédio comercial onde funcionavam escritórios de advocacia e contabilidade, além de consultórios de oculistas, dentistas e psicólogos. Sendo que o único psiquiatra no local era o doutor Siqueira, que vinha a ser o dono único daquele edifício de sete andares.

O doutor Siqueira tratava do pai de Amália e Amanda, mas parecia que o estimava. Então gentilmente o doutor Siqueira não cobrava pelas receitas que passava ao pai de Amália e Amanda.

Amália e Amanda sabiam, porque tinham como saber, que o doutor Siqueira era um homem bom, precisamente porque enviava buquês às duas, junto enviava uma caixa de bombons, justamente porque ambas eram casadas, tinham filhos e não iriam provocar escândalo sobre os buquês de rosas e os bombons de licor, pois o doutor Siqueira era um homem aprumado, um defensor de batismo e crisma, era viúvo dessa dona que preferiu que, tão logo o médico passou a frequentar a missa das dez, o jardinzinho do lar fosse destruído por saúvas.

Quando as abluções o põem ébrio pelo que vê no espelho, o doutor Siqueira acha que uma pessoa é mais que um rótulo, mas qualquer um pode iludir-se, pode querer o rosto molhado, pois os outros festejam a identificação, aplaudem-se, ainda que digam que não gostam de rosas e bombons, mesmo que peçam por bombons e rosas, eles outros que achem que o psiquiatra merece o amor cativo, seja o da Amália e o da Amanda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de julho de 2025.

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