domingo, 6 de julho de 2025

O justo não descansa

 

O justo não descansa

 

Com a árvore inteira para chamar de sua, o casal de maritacas teve de nidificar no telhado da minha casinha? Com o abacateiro carregado, as espalhafatosas tinham que tagarelar a manhã todinha? Com o livro no começo, bem no comecinho, comigo impaciente pra seguir preso à página dois, o melhor seria eu fechar o romance?

Foi o que fiz: desci do abacateiro; depus o volume na mesinha; vim pra cadeira, vim balançar na varanda.

Vim num pé, pois a balbúrdia era irritante.

Tanto eu fui esquentando que fixei a ideia de que tinha de dar fim àquilo, porque eu tinha uma espingarda de caça. Bastante importunado pra usar a munição que fosse necessária, eu não me criticaria por ficar disparando até matar as baderneiras.

Uma pessoa boa, gente que pensa que a vida é sagrada, mesmo a que tem bico, voz esganiçada e não saiba o quão é enervante escutar o escarcéu das matracas, faltou ao caçador de mira míope o desfecho, que, ao primeiro tiro, essas bichinhas escafeder-se-iam.

Por ser racional, compreendo que não é bom matar maritacas, pois balas não são sagradas; nem é sensato desperdiçar balas, porque tiros errados são uma grana que podia ser usada para comprar livro.

Livro não é coisa sagrada, é investimento. Quando não compro um gorro de lã, a mensagem é que a leitura aquece-me o coração, a alma, pois um gole de café pode aquecer as mãos que seguram o romance, a manta sobre as pernas pode manter-me bonitinho durante as horas que passo na leitura, mas o valor do objeto que me entretém e diverte não há de ser medido pela dívida em parcelas do meu cartão.

Em dívida com o que não li, peço mais. Quero comprá-los, empilhá-los na escrivaninha, até a pilha pegar poeira e começar a pender, tanto que protejo os livros pondo a pilha no guarda-roupa.

Pra ter espaço pros livros, mais e mais eu doo roupas. Sem hesitar, passo pra frente as bermudas que não usarei. Não bobeio, pois eu sei que as manhãs têm sido geladas e ninguém será imprudente para sair de bermuda antes do almoço, pois depois a temperatura sobe e o sol brilha nas pernocas de fora, um sucesso.

Quando posso ser solidário, eu me sobressaio. Quando mereço ser aplaudido pelo destaque, eu padeço que invejem. Quando reconheço a beleza do que faço, aplaudo quem me calunia e difama e injuria, pois o que alegra o invejoso é incensar, e o sorridente sabe que merece ser aplaudido e sente que lisonjeiro é ser invejado.

Digo isso porque nem antibiótico cura minha veneração pelo doutor Fafá, porque Alberlindo Fagundes vive pra arrecadar fundos.

Sendo justo garantir a liberdade, ele faz jantares pra que candidatos possam aparecer para pedir voto, pois só tendo muitos candidatos para haver diferentes opções, diferentes projetos, nomes diferentes.

Presidindo o partido há mais de quarenta anos, o doutor Fafá sabe que nunca vai desistir de lutar pela democracia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de julho de 2025.

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