Pela simples razão de estar lendo, o
lugar menos indicado para que a prática não sofra intercorrências é a
biblioteca. Luiz Rosa, entretanto, está sentado à última mesa do fundo. As suas
mãos sustentam o livro em inclinação suficiente para que a claridade que entra pela
janela às costas seja útil. Conversas e toques de telefone convencem-no de que a
permanência é um erro, mas o volume tem que ser mostrado.
De segunda a sexta, ele vem, chega mais
ou menos às oito e meia, senta-se à mesmíssima mesa. Por uma hora e meia, segue
seguro de prosseguir com a leitura. Dá-se uma semana para que a sua rotina não
resulte em fracasso, pois a capa precisa ficar exposta.
Pelo óbvio motivo de ter doado aquele
título, Luiz Rosa faz questão de estampar no rosto a contrariedade com Nelson
Rodrigues, uma vez que a obra em tela é O Reacionário.
Porque regras mostram-se válidas quando
quebradas, felizarda é a pessoa que pode contradizer-se com estardalhaço, pois
“o verdadeiro grito parece falso”.
Ou seja, sussurro também perturba o
camarada que espera ler em silêncio, pois a pessoa que elege a biblioteca como
o lugar certo para ler também sabe ficar perturbada, sabe espumar de raiva, até
porque, conforme o Reaça, “o que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro.
Não sei se repararam. Cada um de nós é um Narciso às avessas e, repito, um
Narciso que cospe na própria imagem”.
Sem cuspir no livro que lê, o embuste
mais ululante para Luiz Rosa é ele, uma vez por ano, em julho, no mês do
recesso escolar, vir ler O Reacionário diante dos estudantes que se recusam a
deixar de realizar pesquisas nos computadores.
Como prova de que biblioteca existe para
que diferenças venham à luz sem dedada no olho, Luiz Rosa vem da rua sem ter escarrado,
vem trazendo a leveza necessária para esquecer o bebum mijando no muro lateral
do prédio, vem pelo prazer de começar a ler o Nelson Rodrigues das confissões,
apesar das dancinhas nos celulares.
Luiz Rosa arregala os olhos e, parodiando Nelson, excita-se: “sou uma vítima da estagiária de calcanhar sujo, por que eu
as trato com o máximo de misericórdia”?
Meu Santo! O leitor reforça a imagem que
faz dos estudantes, pois eles, como as estagiárias, são capazes de coisas
alarmantes.
Um deles vem à mesa para dizer que a
pessoa ler um livro chamado O Reacionário é mesmo um camarada nojento, um
sujeito repugnante, um comunista.
Pelo amor a quem o espanta, pois “amar é
dar razão a quem não a tem”, Luiz Rosa engole a saliva e franqueia que é “dos
tais que cultivam, até hoje, um funesto preconceito contra o telegrama”.
Por saber lidar com celular, o aluno não
entende, e o Luiz Rosa tira proveito da incompreensão, porque, ao receber um, “imagino
que uma calamidade vai desabar sobre minha cabeça. E vamos e venhamos ― o
telegrama, até que se prove a sua intranscendência, é uma janela aberta para o
infinito”.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de julho de 2025.
Obs. - Todas as aspas são de Nelson Rodrigues.
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