quinta-feira, 10 de julho de 2025

Pedágio

 

Pedágio

 

Pela simples razão de estar lendo, o lugar menos indicado para que a prática não sofra intercorrências é a biblioteca. Luiz Rosa, entretanto, está sentado à última mesa do fundo. As suas mãos sustentam o livro em inclinação suficiente para que a claridade que entra pela janela às costas seja útil. Conversas e toques de telefone convencem-no de que a permanência é um erro, mas o volume tem que ser mostrado.

De segunda a sexta, ele vem, chega mais ou menos às oito e meia, senta-se à mesmíssima mesa. Por uma hora e meia, segue seguro de prosseguir com a leitura. Dá-se uma semana para que a sua rotina não resulte em fracasso, pois a capa precisa ficar exposta.

Pelo óbvio motivo de ter doado aquele título, Luiz Rosa faz questão de estampar no rosto a contrariedade com Nelson Rodrigues, uma vez que a obra em tela é O Reacionário.

Porque regras mostram-se válidas quando quebradas, felizarda é a pessoa que pode contradizer-se com estardalhaço, pois “o verdadeiro grito parece falso”.

Ou seja, sussurro também perturba o camarada que espera ler em silêncio, pois a pessoa que elege a biblioteca como o lugar certo para ler também sabe ficar perturbada, sabe espumar de raiva, até porque, conforme o Reaça, “o que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro. Não sei se repararam. Cada um de nós é um Narciso às avessas e, repito, um Narciso que cospe na própria imagem”.

Sem cuspir no livro que lê, o embuste mais ululante para Luiz Rosa é ele, uma vez por ano, em julho, no mês do recesso escolar, vir ler O Reacionário diante dos estudantes que se recusam a deixar de realizar pesquisas nos computadores.

Como prova de que biblioteca existe para que diferenças venham à luz sem dedada no olho, Luiz Rosa vem da rua sem ter escarrado, vem trazendo a leveza necessária para esquecer o bebum mijando no muro lateral do prédio, vem pelo prazer de começar a ler o Nelson Rodrigues das confissões, apesar das dancinhas nos celulares.

Luiz Rosa arregala os olhos e, parodiando Nelson, excita-se: “sou uma vítima da estagiária de calcanhar sujo, por que eu as trato com o máximo de misericórdia”?

Meu Santo! O leitor reforça a imagem que faz dos estudantes, pois eles, como as estagiárias, são capazes de coisas alarmantes.

Um deles vem à mesa para dizer que a pessoa ler um livro chamado O Reacionário é mesmo um camarada nojento, um sujeito repugnante, um comunista.

Pelo amor a quem o espanta, pois “amar é dar razão a quem não a tem”, Luiz Rosa engole a saliva e franqueia que é “dos tais que cultivam, até hoje, um funesto preconceito contra o telegrama”.

Por saber lidar com celular, o aluno não entende, e o Luiz Rosa tira proveito da incompreensão, porque, ao receber um, “imagino que uma calamidade vai desabar sobre minha cabeça. E vamos e venhamos ― o telegrama, até que se prove a sua intranscendência, é uma janela aberta para o infinito”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de julho de 2025.


Obs. - Todas as aspas são de Nelson Rodrigues.


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