terça-feira, 8 de julho de 2025

Contrapé

 

Contrapé

 

Interessante a mim, neste momento de calmaria na vizinhança, é a observação de que a realidade finge cochilar, dando o recado que viver menos afobado é vivenciar sonhos que não viram pesadelos.

Embora não pareça urgente sair da cama, já que me sinto o vizinho tranquilo que sempre quis ter ao lado, certo de que não possuo a mente capaz de reverter o curso do sol, pisei o chão com o pé direito.

Pisei-o com o pé errado e pisar errado é trazer para mim o azar que não desejo irradiá-lo, mas alguns dos afazeres do dia precisam que me relacione com outras pessoas.

Uma vez que comecei o dia com o pé aziago, as demais pessoas, que talvez pressintam a razão de serem vitimadas pelas desventuras quando perto de mim, elas continuam afáveis, tentam ser agradáveis, querem vender-me o que precisam vender.

Para ter o dia chancelado como exitoso, os outros, porque pisaram o chão com o pé que ajudaria a atrair as energias de gentes positivas, talvez tenham que refazer os cálculos, atribuindo ao acaso a carga que as tenha afetado negativamente.

Por que considero relevante a possibilidade de não ser eu a causa provável do desequilíbrio de terceiros?

Desconsidero, porque meu pé direito não tem esta potência.

Se fosse realmente um sujeito de patada atômica, eu teria vingado como jogador, teria vencido campeonatos, teria na sala uma prateleira com troféus, teria virado o medalhão que dá pontapés iniciais a muitos amistosos, seria lembrado pelas vitórias dramáticas que só um craque para tê-las protagonizado, eu deveria ter sido batizado Rivelino.

Todavia, ensinou-me a vida que tenho dois pés direitos: o de carne e osso que chuta as chapinhas das calçadas e o do pessimismo que a mim me ampara quando titubeio.

Entretanto, falho quando preciso atrair a energia benfazeja de gente que nem se dá conta do quanto tem sorte por viver a vida sem dar bola para superstições.

Os dias têm a pachorra de testar-me com uma escada no meio do caminho, um gato preto cruzando a rua, uma sexta-feira treze.

Em todo caso, faço o que creio ser possível para afastar desgraças: não abro guarda-chuva dentro de casa e não uso chinelos virados para captar as minhas insônias.

Agora que tanta gente atribui a mim os seus infortúnios, mesmo que admita que eu nunca quebrei espelho e sequer recordo ter presenciado que outra pessoa haja quebrado espelho algum, prefiro culpar-me pelo pé direito.

Preciso culpar-me por ter virado o chinelo assim que tentei evitar o erro de pisar com o pé errado, pois o corpo tentou contrariar-me, e pisei querendo recuar.

Agora compreendo por que tanta gente não tem como evitar a ideia de que sou eu a razão dos meus infortúnios, porque não vou negar que pisei recusando-me a pisar com o pé direito, seja de qual pé esteja me referindo, já que ambos fazem de mim um otimista.

De tão otimista, confesso que me sinto péssimo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de julho de 2025.

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