Dos meus irmãos, o Adamastor é quem mais
me dá motivos para admirá-lo. E minha admiração por ele chega a me pasmar
quando vejo que ele faz o que faz sem se esforçar em parecer espontâneo.
Até quando faz careta ao tomar
laranjada, porque nem nota que faz o que faz por ser uma pessoa verdadeiramente
boa, o Adamastor é um sujeito que precisa de açúcar, mesmo que a laranjada esteja
adoçada, ele põe mais uma colher.
Seria óbvia minha confissão, que eu invejo
a honestidade com que o Adamastor encara a vida, pois ele é mesmo um sujeito cujas
atitudes mostram o quanto põe cuidado ao falar, até porque, se não relutasse, me
enrascaria com o que eu falo; se deveria ser responsabilizado pelas pequenas
loucuras, sim é claro que eu devia.
Confesso que não me agrada ser
responsabilizado por deslizes que me tornam um pequeno bobo, ainda que eu lhe
tenha dado de presente de aniversário uma camisa havaiana, com tucanos e
flores, muitíssimo colorida, como se houvesse inveja nisso de querê-lo cafona.
Teve o Natal quando quiseram socar minha
cara porque lhe dei um doberman, mas só as minhas irmãs gritaram, deram fim no
cachorro e pediram, com empurrões, que eu sumisse.
Segundo elas, eu deveria ter previsto
que um doberman provocaria pânico, mas, caramba, já se passaram décadas desde o
ataque. Com as suas mais profundas cicatrizes disfarçadas pela barba, ele é homem
maduro, é pessoa controlada, que toma seus ansiolíticos.
Ele sabe que faço o que faço porque não faço
por mal, mesmo que lhe dê camisas havaianas que eu acho horrorosas.
Por amar as filhas, ele não mistura
vinho com o passado.
Adamastor é prudente; quando o mundo segue
como pode, não se lamenta, faz o que faz para se arrepender o menos que possa.
Ele percebe o que vê, parece que sabe
quando vou desabar; então, o verdadeiro Adamastor conta com que me encharque de
cachaça, que eu brinque com fogo e prove para todo mundo que sou um estabanado,
um desastrado, um celerado que precisa de gente como ele, gente que pede prudência,
sendo o irmão amoroso que acode, alivia dores, cura minhas gasturas, fazendo
com que me sinta invejoso, me sinta o verme que se recusa a desabrochar, me transformar
em libélula.
Sou um camarada no escuro, mas basta uma
vela pra iluminar.
Todo mundo diz o que o Adamastor não
diz, que a minha desgraça é eu próprio me prejudicar como se fosse meu destino ficar
reclamando que o mundo me impede de ganhar dinheiro, que eu deveria confessar
que ter estabilidade é que me fará bem menos ranzinza.
O Adamastor faz com que as pessoas acreditem
que o trabalho de cada um é achar aquela alma que o complete, porque a verdade é
que almas gêmeas realmente existem.
Pela lógica: porque a inveja tem origem
na cama, a culpa é minha; me falta quem abra os meus olhos; que eu poderia parar
de dormir com essa gente que nem me fala que camisa havaiana nem é pijama.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de julho de 2025.
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