quinta-feira, 17 de julho de 2025

Lógica impecável

 

Lógica impecável

 

Dos meus irmãos, o Adamastor é quem mais me dá motivos para admirá-lo. E minha admiração por ele chega a me pasmar quando vejo que ele faz o que faz sem se esforçar em parecer espontâneo.

Até quando faz careta ao tomar laranjada, porque nem nota que faz o que faz por ser uma pessoa verdadeiramente boa, o Adamastor é um sujeito que precisa de açúcar, mesmo que a laranjada esteja adoçada, ele põe mais uma colher.

Seria óbvia minha confissão, que eu invejo a honestidade com que o Adamastor encara a vida, pois ele é mesmo um sujeito cujas atitudes mostram o quanto põe cuidado ao falar, até porque, se não relutasse, me enrascaria com o que eu falo; se deveria ser responsabilizado pelas pequenas loucuras, sim é claro que eu devia.

Confesso que não me agrada ser responsabilizado por deslizes que me tornam um pequeno bobo, ainda que eu lhe tenha dado de presente de aniversário uma camisa havaiana, com tucanos e flores, muitíssimo colorida, como se houvesse inveja nisso de querê-lo cafona.

Teve o Natal quando quiseram socar minha cara porque lhe dei um doberman, mas só as minhas irmãs gritaram, deram fim no cachorro e pediram, com empurrões, que eu sumisse.

Segundo elas, eu deveria ter previsto que um doberman provocaria pânico, mas, caramba, já se passaram décadas desde o ataque. Com as suas mais profundas cicatrizes disfarçadas pela barba, ele é homem maduro, é pessoa controlada, que toma seus ansiolíticos.

Ele sabe que faço o que faço porque não faço por mal, mesmo que lhe dê camisas havaianas que eu acho horrorosas.

Por amar as filhas, ele não mistura vinho com o passado.

Adamastor é prudente; quando o mundo segue como pode, não se lamenta, faz o que faz para se arrepender o menos que possa.

Ele percebe o que vê, parece que sabe quando vou desabar; então, o verdadeiro Adamastor conta com que me encharque de cachaça, que eu brinque com fogo e prove para todo mundo que sou um estabanado, um desastrado, um celerado que precisa de gente como ele, gente que pede prudência, sendo o irmão amoroso que acode, alivia dores, cura minhas gasturas, fazendo com que me sinta invejoso, me sinta o verme que se recusa a desabrochar, me transformar em libélula.

Sou um camarada no escuro, mas basta uma vela pra iluminar.

Todo mundo diz o que o Adamastor não diz, que a minha desgraça é eu próprio me prejudicar como se fosse meu destino ficar reclamando que o mundo me impede de ganhar dinheiro, que eu deveria confessar que ter estabilidade é que me fará bem menos ranzinza.

O Adamastor faz com que as pessoas acreditem que o trabalho de cada um é achar aquela alma que o complete, porque a verdade é que almas gêmeas realmente existem.

Pela lógica: porque a inveja tem origem na cama, a culpa é minha; me falta quem abra os meus olhos; que eu poderia parar de dormir com essa gente que nem me fala que camisa havaiana nem é pijama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de julho de 2025.

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