Depois
de urinar, Evaristo sentou-se no vaso. Por estar escuro, ele temeu bater o
joelho nalguma quina. Se se deitou sem hematoma, sua cachola rangia. É que encafifavam-no
aqueles números: 3,0,8.
Contou
para Angelina. Já que cismou, olhou. Pela segunda noite, o celular marcava três
horas e oito minutos.
Angelina
fechou a lancheira da filha. Depois de dizer que aquilo era uma coisinha
qualquer, ela lhe beijou a careca.
Manú
entrou na cozinha sem os tênis. A mãe, com o nó de lacinho, ajustou os tênis
nos pezinhos da menina.
A
filha foi ao pai, pediu com as mãos que se inclinasse e, assim que ela terminou
de cochichar-lhe, ele sorriu.
Angelina
colocou uma pera na lancheira. Disse para o Evaristo não esquecer os boletos.
Ela cheirou e deu dois beijinhos no rabo de cavalo da Manú. Da cozinha, deu
para ouvir o barulho do chuveiro.
No
carro, o pai contou que foi fazer xixi de noite. A menina continuou olhando o
celular. Evaristo falou que algum mistério o estava testando. Manú olhou-o até
que ele a olhasse.
Evaristo
falou que estava frio, chovia e sequer o sem-fim piava. Ele quis fumar. Abriu o
armarinho do banheiro, não havia maço algum. Daí, pisando descalço o chão
gelado, Evaristo arrepiou-se. Tinha que olhar as horas. E viu que era a segunda
vez que acordara às 3:08.
—
O senhor se mijou na hora que viu que a hora era repetida?
Evaristo
se mijou. E declinou da confissão.
—
Pai, o senhor vai contar tudo?
O
homem parou o carro no acostamento. Acendeu um cigarro. Tirou sujeirinhas do
polegar direito. Ajeitou o retrovisor com a mão esquerda.
—
Manú, a mamãe ainda não pode ficar sabendo.
—
Não sou bebê, pai. Tenho quatro anos.
Evaristo
disse que apostou na loteria. Jogou as dezenas que achou com o três, o zero e o
oito; e com o um da terceira vez, já que acordou às 3:18. Ele fez tudo sozinho:
apostou, ganhou e abriu uma poupança para cada uma.
—
Jura pela mamãe, pai?
—
Eu não vou jurar, porque um pai não mente pra filha, Manú.
Com
as mãozinhas, ela fez para ele se inclinar. E cochichou.
O
homem jogou a guimba. Ligou o motor.
—
Mas isso é muito caro, Manú.
Demorou
um instante até se decidir por levá-la ao parquinho.
Manú
não desceu do carro.
—
Você tem que ir brincar na escolinha.
Evaristo
abriu a porta. Manú cruzou os braços.
—
Eu tenho que ir trabalhar, filha. As pessoas vão desconfiar se eu nem avisar
que estou doente.
A
menina fingiu que chorava. O pai fechou a porta.
A
funcionária veio perguntar se estava tudo bem. O homem contou que de repente deu
dor de barriga na menina. Manú choramingava. A funcionária disse que o pai devia
levar a garota ao postinho atrás da escola.
—
Viu, papai? Agora que a moça falou que está tudo bem, o senhor não vai ter que
inventar nenhuma desculpa pra gente ir poder saltar de paraquedas.
Pra
chuparem um corneto antes do salto, Manú pediu pro Evaristo falar pra Angelina que
ninguém esconde dor de barriga.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de maio de 2026.