domingo, 26 de abril de 2026

O demônio do lampião

 

O demônio do lampião

 

Vim com a alma que estava no corpo. Para evitar que imbecil viesse me falar o que nem ele quer ouvir, vesti uma camiseta branca. Com a Mafalda dizendo: “O problema da grande família humana é que todos querem ser o pai”.

Ou o sujeito é analfabeto ou é um filho problemático. Ele se iluminou com aqueles olhinhos me sorrindo:

— Mamãe, me permita uma palavrinha...

Se um cão se revelaria, foi um chihuahua que abanou o rabinho.

E o balanço do rabicho acertou a cadência, falando a mim. Logo a mim que não tinha para onde correr, já que estava na fila e na fila teria de permanecer, por compromisso cívico.

Não ria de mim pelo que eu vou lhe contar.

Foi da boca da própria pessoa que eu ouvi que ela era a mulher que ouviu que o mundo podia ser um lugar gostoso para se viver.

Ela disse que um andarilho tinha uma história que a faria rir. Daí ele disse que a gente pode ser feliz sem acabrunhamentos. Desde que se faça o possível para não ficar exposto, o tempo todo, à alegria nem às chacotas.

Sim, foi-lhe dito que a alegria é uma arma poderosa — deixa a gente se sentindo leve quando a alegria do outro não machuca.

Não vou lhe ferir o ouvido caso queira ir em frente, só que o esforço pra rir será recompensado. E essa promessa que fizeram a mim, eu a repasso a você.

Por gentileza, confie em mim — disse o mendigo à mulher —, agora pense na pessoa que dorme de janela aberta. Ela não dá motivos para fazerem vídeos. Nem quando são comprobatórios de que a felicidade sem fim retrata alguém cujo comportamento é esquizoide.

Upa-lelê!

Só que o maluco não sou eu.

Eu sei que, usada sem moderação, a alegria que fere vira pedrada. Essa pedra lhe acertará a testa quando estiver tirando uma pestana ou assustará quando o espelho for feito em cacos.

Quando a alegria vira um problema, é preciso encontrar a piada que faça rir sem necessidade de explicações.

Foi aí que a mulher parou de sorrir. Olhou-me nos olhos e falou que o andarilho que vendia mel disse o que tinha pra contar.

Ele ainda disse que o causo era pra parecer verdadeiro. Tinha que passar uma verdade que tivesse a força de um pito. Quando precisam tomar bronca, adultos têm que ser sacudidos.

E a mulher disse que o cara chapado de mel contou direitinho...

Só que ele não disse em que cidade aconteceu. Se foi no meio do mato ou na beira da piscina. O sentido muda quando se tem um casal comendo pizza ou há uma família indo pro litoral.

Ô historinha cheia de furos! — eis você, ressabiado comigo e com a crônica. Sem chalaça, ambos lhe damos razão. Sigamos.

A mulher tinha que pular para os finalmentes. Daí que sorri, já com vontade de ir cuidar da vida. E você me interpela:

— O que a historieta dizia?

Era isso: um andarilho achou um lampião. Aberto o registro, em vez de gás pra manga, a luz não se fez. E no ar, cresceu uma sombra. E a fumaça tinha um cheiro doce, de chocolate. O fantasma flutuava. Como não roubou nem comprou, já que o caminho o fez ser o novo dono, ele não duvidou: tinha três desejos pra fazer à aparição.

Como tinha a sensação de que era senhor de um demônio do bem, o homem matutava. E o seu primeiro pedido fora aceito: ele perdeu o medo de falar em público.

Temendo virar uma besta ridícula que nem sabe como controlar a matraca, o segundo pedido veio socorrê-lo: ele não terá dificuldade de posar de gente segura que domina o brilho da lucidez.

Desaparecido o pânico pela verborragia, ele nem precisou formular o pedido derradeiro: na sua gargalhada, reluziam todos os dentes.

Agora, chegamos. Sem lhe cobrar um sorriso, digo que a tal mulher me falou que abriu os olhos e, dando com a ponta do dedo no relógio, ela viu que segurou a fila só por cinco segundos.

Eis a belezura desta história: saindo da cabine indevassável com a leveza de um sorrisão, apenas os mesários que apostaram em todas as possibilidades acertariam em quem foi que ela votou.

Sem chacota! Não cabe a mim dizer se o eleito do seu coração foi o mendigo, o homem do mel ou o demônio do andarilho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de abril de 2026.


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