O
demônio do lampião
Vim com a alma que estava no corpo. Para
evitar que imbecil viesse me falar o que nem ele quer ouvir, vesti uma camiseta
branca. Com a Mafalda dizendo: “O problema da grande família humana é que todos
querem ser o pai”.
Ou o sujeito é analfabeto ou é um filho
problemático. Ele se iluminou com aqueles olhinhos me sorrindo:
— Mamãe, me permita uma palavrinha...
Se um cão se revelaria, foi um chihuahua
que abanou o rabinho.
E o balanço do rabicho acertou a
cadência, falando a mim. Logo a mim que não tinha para onde correr, já que
estava na fila e na fila teria de permanecer, por compromisso cívico.
Não ria de mim pelo que eu vou lhe
contar.
Foi da boca da própria pessoa que eu
ouvi que ela era a mulher que ouviu que o mundo podia ser um lugar gostoso para
se viver.
Ela disse que um andarilho tinha uma
história que a faria rir. Daí ele disse que a gente pode ser feliz sem acabrunhamentos.
Desde que se faça o possível para não ficar exposto, o tempo todo, à alegria nem
às chacotas.
Sim, foi-lhe dito que a alegria é uma
arma poderosa — deixa a gente se sentindo leve quando a alegria do outro não
machuca.
Não vou lhe ferir o ouvido caso queira ir
em frente, só que o esforço pra rir será recompensado. E essa promessa que
fizeram a mim, eu a repasso a você.
Por gentileza, confie em mim — disse o
mendigo à mulher —, agora pense na pessoa que dorme de janela aberta. Ela não dá
motivos para fazerem vídeos. Nem quando são comprobatórios de que a felicidade sem
fim retrata alguém cujo comportamento é esquizoide.
Upa-lelê!
Só que o maluco não sou eu.
Eu sei que, usada sem moderação, a
alegria que fere vira pedrada. Essa pedra lhe acertará a testa quando estiver tirando
uma pestana ou assustará quando o espelho for feito em cacos.
Quando a alegria vira um problema, é
preciso encontrar a piada que faça rir sem necessidade de explicações.
Foi aí que a mulher parou de sorrir. Olhou-me
nos olhos e falou que o andarilho que vendia mel disse o que tinha pra contar.
Ele ainda disse que o causo era pra
parecer verdadeiro. Tinha que passar uma verdade que tivesse a força de um
pito. Quando precisam tomar bronca, adultos têm que ser sacudidos.
E a mulher disse que o cara chapado de
mel contou direitinho...
Só que ele não disse em que cidade
aconteceu. Se foi no meio do mato ou na beira da piscina. O sentido muda quando
se tem um casal comendo pizza ou há uma família indo pro litoral.
Ô historinha cheia de furos! — eis você,
ressabiado comigo e com a crônica. Sem chalaça, ambos lhe damos razão. Sigamos.
A mulher tinha que pular para os
finalmentes. Daí que sorri, já com vontade de ir cuidar da vida. E você me
interpela:
— O que a historieta dizia?
Era isso: um andarilho achou um lampião.
Aberto o registro, em vez de gás pra manga, a luz não se fez. E no ar, cresceu
uma sombra. E a fumaça tinha um cheiro doce, de chocolate. O fantasma flutuava.
Como não roubou nem comprou, já que o caminho o fez ser o novo dono, ele não
duvidou: tinha três desejos pra fazer à aparição.
Como tinha a sensação de que era senhor
de um demônio do bem, o homem matutava. E o seu primeiro pedido fora aceito: ele
perdeu o medo de falar em público.
Temendo virar uma besta ridícula que nem
sabe como controlar a matraca, o segundo pedido veio socorrê-lo: ele não terá
dificuldade de posar de gente segura que domina o brilho da lucidez.
Desaparecido o pânico pela verborragia, ele
nem precisou formular o pedido derradeiro: na sua gargalhada, reluziam todos os
dentes.
Agora, chegamos. Sem lhe cobrar um
sorriso, digo que a tal mulher me falou que abriu os olhos e, dando com a ponta
do dedo no relógio, ela viu que segurou a fila só por cinco segundos.
Eis a belezura desta história: saindo da
cabine indevassável com a leveza de um sorrisão, apenas os mesários que apostaram
em todas as possibilidades acertariam em quem foi que ela votou.
Sem chacota! Não cabe a mim dizer se o eleito
do seu coração foi o mendigo, o homem do mel ou o demônio do andarilho.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 26 de abril de 2026.
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