domingo, 12 de abril de 2026

O doberman e o ET

 

O doberman e o ET

 

Um homem tomou lugar na fila, falava ao celular. O reconhecimento da voz fez com que outro homem, o que estava mais à frente, já à boca do caixa, se virasse para cumprimentá-lo.

Já que, no supermercado, estão em casa:

“Tá frio. Tá gostoso esse frio. Só que não é como antigamente. Isso não é, porque na década de setenta geava desde final de abril. Agora a geada malemá cai em julho. E olhe lá. E tem gente que não gosta do tempinho bom pra tomar vinho quente. E comer pinhão. Isso, pinhão é bão de todo jeito. É bem bão. Deixa eu ir, que tô atrasado. Não atrasa pra feijoada, hein? Eu sempre chego antes. Então, tá. Inté, amigo. Inté, prezado. Lembrança lá em casa. Abração.”

Com o cronista atrás na fila, o sujeito do celular virou-se:

— Nossa! Nem te reconheci.

Só depois de bater no meu braço com o telefone é que tomei pé da cena: o Alcebíades, o cara que já foi, e o Guilherme eram as pessoas que conversavam a um metro e meio de mim.

O cronista os conhece desde o ensino fundamental.

Alcebíades sempre precisa de dinheiro. Ele não se contenta que os matos estejam capinados, ele vende enxadas. Quando o capilé entra, ele urina no chafariz. Há quem diga que o viu roubando as moedas, só para jogar no caça-níqueis do boteco atrás da igreja.

Guilherme é o oposto: nunca deixa governantes falando sozinhos. Como trabalha com comunicação, ele lutou pela instalação do telão na frente da câmara. E jura que nunca será candidato.

— Se minha foto aparecer na urna, é alucinação de bêbado!

Guilherme vê que o cronista tem pinhão na cestinha.

— Eu como pinhão só no inverno.

Como peso de musculação, o cronista brinca com o saco.

— Graças a Deus que o inverno não dura o ano inteiro. Vou falar a verdade. Não sei me controlar quando como pinhão.

— Caramba, cara. Se é pra confessar: eu adoro pinhão.

Já em casa, o cronista ri. Ele odeia pinhão. Trouxe logo seis quilos! A quem pertencerá aquele doberman que salta a cada pinhão que lhe é atirado?

Que a natureza tenha o seu curso, isso não importa ao Guilherme. Toda quarta-feira ele vai comer feijoada. Sempre com o parceiro.

Guilherme e Alcebíades têm esse ritual: jogar porrinha depois que palitam os dentes.

Tomando caipirinha, Guilherme espera. Como nunca foi de ter um relógio com a hora certa, aqueles quinze minutos sempre o autorizam a reclamar de todo mundo.

Na juventude, ele estudou que as uvas viram vinho quando pisadas. Para quem não ganha a vida produzindo vinho, tanto faz que haja areia assoreando parreiras. Na ponta do lápis, importante é o pinhão.

Mais cedo, a caminho da igreja, Alcebíades deu com o cronista:

— Os ventos vão e vêm há milhões de anos. Só que a gente precisa andar a pé. Faz bem você que nem carro tem.

Com as duas patas no chão, este ET rói o osso:

— Com mil truques na cachola, meu chapa, eu voo pela Via-Láctea. E cão algum escaparia de ser abduzido. Aliás, cadê o Brutus?

Pessoa que acende vela antes da chuva, Alcebíades não foi comer feijoada com o amigo. E rezou nove ave-marias e dez pais-nossos.

Ajoelhado, de olhos no Crucificado, Alcebíades assevera:

— É escandaloso, Senhor! É verdadeiramente escandaloso a tevê ter mostrado aquele pinguinzinho zanzando em Cananeia.

Com o doberman babando, o padre fecha a nave-mãe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de abril de 2026.

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