Um
homem tomou lugar na fila, falava ao celular. O reconhecimento da voz fez com
que outro homem, o que estava mais à frente, já à boca do caixa, se virasse
para cumprimentá-lo.
Já
que, no supermercado, estão em casa:
“Tá
frio. Tá gostoso esse frio. Só que não é como antigamente. Isso não é, porque
na década de setenta geava desde final de abril. Agora a geada malemá cai em
julho. E olhe lá. E tem gente que não gosta do tempinho bom pra tomar vinho
quente. E comer pinhão. Isso, pinhão é bão de todo jeito. É bem bão. Deixa eu
ir, que tô atrasado. Não atrasa pra feijoada, hein? Eu sempre chego antes.
Então, tá. Inté, amigo. Inté, prezado. Lembrança lá em casa. Abração.”
Com
o cronista atrás na fila, o sujeito do celular virou-se:
—
Nossa! Nem te reconheci.
Só
depois de bater no meu braço com o telefone é que tomei pé da cena: o Alcebíades,
o cara que já foi, e o Guilherme eram as pessoas que conversavam a um metro e
meio de mim.
O
cronista os conhece desde o ensino fundamental.
Alcebíades
sempre precisa de dinheiro. Ele não se contenta que os matos estejam capinados,
ele vende enxadas. Quando o capilé entra, ele urina no chafariz. Há quem diga
que o viu roubando as moedas, só para jogar no caça-níqueis do boteco atrás da
igreja.
Guilherme
é o oposto: nunca deixa governantes falando sozinhos. Como trabalha com
comunicação, ele lutou pela instalação do telão na frente da câmara. E jura que
nunca será candidato.
—
Se minha foto aparecer na urna, é alucinação de bêbado!
Guilherme
vê que o cronista tem pinhão na cestinha.
—
Eu como pinhão só no inverno.
Como
peso de musculação, o cronista brinca com o saco.
—
Graças a Deus que o inverno não dura o ano inteiro. Vou falar a verdade. Não
sei me controlar quando como pinhão.
—
Caramba, cara. Se é pra confessar: eu adoro pinhão.
Já
em casa, o cronista ri. Ele odeia pinhão. Trouxe logo seis quilos! A quem
pertencerá aquele doberman que salta a cada pinhão que lhe é atirado?
Que
a natureza tenha o seu curso, isso não importa ao Guilherme. Toda quarta-feira
ele vai comer feijoada. Sempre com o parceiro.
Guilherme
e Alcebíades têm esse ritual: jogar porrinha depois que palitam os dentes.
Tomando
caipirinha, Guilherme espera. Como nunca foi de ter um relógio com a hora certa,
aqueles quinze minutos sempre o autorizam a reclamar de todo mundo.
Na
juventude, ele estudou que as uvas viram vinho quando pisadas. Para quem não
ganha a vida produzindo vinho, tanto faz que haja areia assoreando parreiras. Na
ponta do lápis, importante é o pinhão.
Mais
cedo, a caminho da igreja, Alcebíades deu com o cronista:
—
Os ventos vão e vêm há milhões de anos. Só que a gente precisa andar a pé. Faz
bem você que nem carro tem.
Com
as duas patas no chão, este ET rói o osso:
—
Com mil truques na cachola, meu chapa, eu voo pela Via-Láctea. E cão algum escaparia
de ser abduzido. Aliás, cadê o Brutus?
Pessoa
que acende vela antes da chuva, Alcebíades não foi comer feijoada com o amigo.
E rezou nove ave-marias e dez pais-nossos.
Ajoelhado,
de olhos no Crucificado, Alcebíades assevera:
—
É escandaloso, Senhor! É verdadeiramente escandaloso a tevê ter mostrado aquele
pinguinzinho zanzando em Cananeia.
Com
o doberman babando, o padre fecha a nave-mãe.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 12 de abril de 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário