Até
a pestana da tarde, o dia não trouxe novidade alguma. Quando acordei para um
sanduba de salame, a TV ainda estava ligada.
Falavam
da prisão de um motorista.
Supostamente,
ele trafegava sem cinto de segurança. E pelo código de trânsito do lugar, o
cidadão deveria estar protegido de impactos.
Passei
a mastigar com gosto.
Ao
que parece, o detido usava cinto. Foi a lâmpada da frente que o delatou: o fato
de um veículo dobrar à direita sem a devida sinalização consta das violações do
código vigente naquelas plagas.
Levantou-se
a primeira questão:
—
Uma vez determinada a detenção, por que o guarda não aplicou tão somente a
multa?
A
minha apatia enfiou-se goela abaixo, deixando um vãozinho pros meus perdigotos
comentaristas.
Uma
segunda dúvida surgiu:
—
Que poder tem um guardinha para mandar para o xilindró quem apenas jogou fora a
embalagem de chiclete?
Aumentei
o volume.
Disse
a comentarista:
—
As informações não batem. Segundo um ciclista, o carro quebrou à esquerda
quando o sinal era amarelo. Essa guinada irregular fez com que o rapaz caísse e
ralasse as duas rótulas.
Falou
uma terceira analista:
—
Não se usa mais “rótula”. Hoje a gente diz “patela”.
O
outro comentarista voltou à carga:
—
Deixe-me entender melhor a situação. Pelo que você contou, o relato desta suposta
vítima já a condena. Ela ralou as ‘patelas’, porque pedalava sem joelheira. Eu
entendi direito? Ele se autoacusou?
A
primeira comentarista retomou:
—
Ninguém aqui é leviano pra tirar ilações sobre o uso de joelheira. É fundamental
averiguar se o código de trânsito vigente estabelece a obrigatoriedade desse item
de segurança.
O
analista destacou:
—
É preciso averiguar se o ciclista está falando a verdade.
A
segunda comentarista disse:
—
Espera-se que as autoridades exijam laudo técnico que mostre onde o corpo
apresenta ferimento. E qual é a causa provável.
Para
o primeiro comentarista, ficou patente:
—
Se o infrator converteu à direita sem dar o alerta de conversão, então, o
automóvel não podia ter entrado na esquerda. Acho que nem a física quântica conceberia
tal aberração.
Riram.
E a escalada escalafobética desacelerou-se:
—
Se violaram o sinal ou jogaram o lixo pela janela...
—
Ou se um rapaz quase foi atropelado...
—
Temos que dizer ao público: estamos longe da verdade.
Falando
a quilômetros do incidente, um repórter disse que, segundo as suas apurações, o
nome do agente será mantido em sigilo.
—
Então, ninguém sabe se o nome do oficial é Belo?
A
transmissão caiu.
Especularam
que o Guarda Belo seria da Turma do Manda-Chuva. Falou-se que o nome do agente era
o mesmo de personagem do Urso do Cabelo Duro.
Urso
do Cabelo Duro!
E
a frase do dia foi dita sem falsa melancolia:
“Os
16 episódios duraram a minha infância inteira.”
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 16 de abril de 2026.
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