quinta-feira, 16 de abril de 2026

A frase do dia

 

A frase do dia

 

Até a pestana da tarde, o dia não trouxe novidade alguma. Quando acordei para um sanduba de salame, a TV ainda estava ligada.

Falavam da prisão de um motorista.

Supostamente, ele trafegava sem cinto de segurança. E pelo código de trânsito do lugar, o cidadão deveria estar protegido de impactos.

Passei a mastigar com gosto.

Ao que parece, o detido usava cinto. Foi a lâmpada da frente que o delatou: o fato de um veículo dobrar à direita sem a devida sinalização consta das violações do código vigente naquelas plagas.

Levantou-se a primeira questão:

— Uma vez determinada a detenção, por que o guarda não aplicou tão somente a multa?

A minha apatia enfiou-se goela abaixo, deixando um vãozinho pros meus perdigotos comentaristas.

Uma segunda dúvida surgiu:

— Que poder tem um guardinha para mandar para o xilindró quem apenas jogou fora a embalagem de chiclete?

Aumentei o volume.

Disse a comentarista:

— As informações não batem. Segundo um ciclista, o carro quebrou à esquerda quando o sinal era amarelo. Essa guinada irregular fez com que o rapaz caísse e ralasse as duas rótulas.

Falou uma terceira analista:

— Não se usa mais “rótula”. Hoje a gente diz “patela”.

O outro comentarista voltou à carga:

— Deixe-me entender melhor a situação. Pelo que você contou, o relato desta suposta vítima já a condena. Ela ralou as ‘patelas’, porque pedalava sem joelheira. Eu entendi direito? Ele se autoacusou?

A primeira comentarista retomou:

— Ninguém aqui é leviano pra tirar ilações sobre o uso de joelheira. É fundamental averiguar se o código de trânsito vigente estabelece a obrigatoriedade desse item de segurança.

O analista destacou:

— É preciso averiguar se o ciclista está falando a verdade.

A segunda comentarista disse:

— Espera-se que as autoridades exijam laudo técnico que mostre onde o corpo apresenta ferimento. E qual é a causa provável.

Para o primeiro comentarista, ficou patente:

— Se o infrator converteu à direita sem dar o alerta de conversão, então, o automóvel não podia ter entrado na esquerda. Acho que nem a física quântica conceberia tal aberração.

Riram. E a escalada escalafobética desacelerou-se:

— Se violaram o sinal ou jogaram o lixo pela janela...

— Ou se um rapaz quase foi atropelado...

— Temos que dizer ao público: estamos longe da verdade.

Falando a quilômetros do incidente, um repórter disse que, segundo as suas apurações, o nome do agente será mantido em sigilo.

— Então, ninguém sabe se o nome do oficial é Belo?

A transmissão caiu.

Especularam que o Guarda Belo seria da Turma do Manda-Chuva. Falou-se que o nome do agente era o mesmo de personagem do Urso do Cabelo Duro.

Urso do Cabelo Duro!

E a frase do dia foi dita sem falsa melancolia:

“Os 16 episódios duraram a minha infância inteira.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de abril de 2026.

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