O
time dos sonhos
Sábado passado houve temporal. Nuvens
escuras fizeram o cerco. Raios sobre raios retumbavam: as portas do inferno serão
o aguaceiro tremendo. Choveu granizo, e isso durou uns dez minutos.
O sol voltou. O cheiro da chuva desapareceu.
As pessoas voltaram às ruas. As maritacas eram o sinal de que o fim do mundo
ficou para a próxima.
O problema é que, de vez em quando,
pedras e telhas têm um papo simplório: pro chão coberto de gelo virar vídeos
nas mãos de quem se extasia com eventos naturais, é preciso que, deitado na
cama, a noite seja vista como um monstro de milhões de olhinhos a tremeluzir.
— Lindo, mas dispendioso — asseverou-se
o prejudicado.
A carteira foi aberta. O dinheiro dava
para duas cervejas. Convinha que fosse bebê-las onde houvesse gente
bem-relacionada. Precisava de indicação de quem é bom como reparador de
telhado.
— Albertino. Porque ele vai pedindo o
material já prevendo o quanto ainda vai precisar pro serviço ficar pronto.
— Claro. O Albertino é econômico.
— E o telhado vai ficar tinindo em
quinze dias.
— No máximo!
— Então, sabendo que o gasto vai ser menor,
você não precisa ficar encabulado de querer nos pagar outra cerveja.
— A gente vai beber com você, porque
agora todo mundo sabe que não há malícia alguma da sua parte.
O camarada pagou. E foi bebendo tanto
que a sua carteira tomou a iniciativa de ser pragmática: o cofre do banco se
sujeitou a arreganhar-se com o “abre-te, sésamo” dito em língua de pau d’água.
Por volta das sete e meia do dia
seguinte, bateram palmas.
— Meu amigo, vim fazer a medição do
telhado.
A confirmar que era mesmo o homem certo
para fazer o trabalho, o Albertino nem fez mesuras com o boné.
Ele subiu. Olhou as telhas esburacadas.
— Você reparou que nem tirei a trena do
bolso?
O camarada nem respondeu.
— Você está com um problemão. Tem cupim
na estrutura. As vigas vão ter de ser trocadas. Os caibros também. As ripas já
deviam de ter sido queimadas.
Albertino coçou a cabeça. O boné fez o
bailado que, sem papas na língua, o coração traduziu como inevitável o
“abre-te, sésamo”.
— Preciso que você faça o serviço,
Albertino.
E os sete dias viraram quinze. E a
quinzena tornou-se um mês. E a turma do bar assegurava que o Albertino não
desperdiçava material e sempre fazia o melhor.
— Não tem obra do Albertino que mereça
reclamação.
— Se o Albertino fosse problemático, ele
estaria aqui, bebendo com a gente. Mas não! Ele sabe das suas prioridades.
Foi aí que aquela foto foi mostrada: em
pé, atrás das três crianças agachadas, Albertino abraçava uma mulher.
— Meu amigo, não pense que eu falar com
sinceridade é papo de bêbado. O Albertino é o marido que minha irmã nem podia
sonhar que o céu colocaria no caminho dela. E eu, meu bom amigo, nunca tive de ficar
chateado com a Doralice, porque ela nunca mais teve de me negar uma cervejinha.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de abril de 2026.
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