terça-feira, 21 de abril de 2026

O time dos sonhos

 

O time dos sonhos

 

Sábado passado houve temporal. Nuvens escuras fizeram o cerco. Raios sobre raios retumbavam: as portas do inferno serão o aguaceiro tremendo. Choveu granizo, e isso durou uns dez minutos.

O sol voltou. O cheiro da chuva desapareceu. As pessoas voltaram às ruas. As maritacas eram o sinal de que o fim do mundo ficou para a próxima.

O problema é que, de vez em quando, pedras e telhas têm um papo simplório: pro chão coberto de gelo virar vídeos nas mãos de quem se extasia com eventos naturais, é preciso que, deitado na cama, a noite seja vista como um monstro de milhões de olhinhos a tremeluzir.

— Lindo, mas dispendioso — asseverou-se o prejudicado.

A carteira foi aberta. O dinheiro dava para duas cervejas. Convinha que fosse bebê-las onde houvesse gente bem-relacionada. Precisava de indicação de quem é bom como reparador de telhado.

— Albertino. Porque ele vai pedindo o material já prevendo o quanto ainda vai precisar pro serviço ficar pronto.

— Claro. O Albertino é econômico.

— E o telhado vai ficar tinindo em quinze dias.

— No máximo!

— Então, sabendo que o gasto vai ser menor, você não precisa ficar encabulado de querer nos pagar outra cerveja.

— A gente vai beber com você, porque agora todo mundo sabe que não há malícia alguma da sua parte.

O camarada pagou. E foi bebendo tanto que a sua carteira tomou a iniciativa de ser pragmática: o cofre do banco se sujeitou a arreganhar-se com o “abre-te, sésamo” dito em língua de pau d’água.

Por volta das sete e meia do dia seguinte, bateram palmas.

— Meu amigo, vim fazer a medição do telhado.

A confirmar que era mesmo o homem certo para fazer o trabalho, o Albertino nem fez mesuras com o boné.

Ele subiu. Olhou as telhas esburacadas.

— Você reparou que nem tirei a trena do bolso?

O camarada nem respondeu.

— Você está com um problemão. Tem cupim na estrutura. As vigas vão ter de ser trocadas. Os caibros também. As ripas já deviam de ter sido queimadas.

Albertino coçou a cabeça. O boné fez o bailado que, sem papas na língua, o coração traduziu como inevitável o “abre-te, sésamo”.

— Preciso que você faça o serviço, Albertino.

E os sete dias viraram quinze. E a quinzena tornou-se um mês. E a turma do bar assegurava que o Albertino não desperdiçava material e sempre fazia o melhor.

— Não tem obra do Albertino que mereça reclamação.

— Se o Albertino fosse problemático, ele estaria aqui, bebendo com a gente. Mas não! Ele sabe das suas prioridades.

Foi aí que aquela foto foi mostrada: em pé, atrás das três crianças agachadas, Albertino abraçava uma mulher.

— Meu amigo, não pense que eu falar com sinceridade é papo de bêbado. O Albertino é o marido que minha irmã nem podia sonhar que o céu colocaria no caminho dela. E eu, meu bom amigo, nunca tive de ficar chateado com a Doralice, porque ela nunca mais teve de me negar uma cervejinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de abril de 2026.

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