Pediram
a minha opinião sobre o que a Maricota teria feito. Falaram que ela teria sido
vista conversando com um pastor. Criticavam-na pelo despudorado flerte com o
Esdras, sobrinho do pastor Samuel. Juravam que, à vista do povo, na fila de
pesar banana e batata, a cinquentona estava aos muxoxos com um rapazote de
trinta anos.
Não
faço questão de saber o que a tia Maricota faz com a banana que ela compra, com
quem ela toma sopa de batata, não ligo que me contem, bem como pouco me importo
com quem vem me contar que a minha tia não comprou nem banana nem batata.
Não
pergunto o que a minha tia Maricota comprou, teria comprado ou desejaria que
lhe vendessem sem assuntarem por quais razões ela nutria desejos pelo que paga
em dinheiro quando adquire o que tantos queriam também.
Meus
dedos pensaram por mim...
Papai
me ensinou que trapos são úteis quando formam uma colcha, e jogá-los fora seria
burrice. Tem também que a beleza pode vir de uns pedacinhos de pano já
surrados, já naquele estado bom para cobrir um cão quando faz frio.
Mamãe,
por sua vez, me educou para a discrição. É vulgar espalhar que a colcha não estaria
em cima da cama sem as minhas mãos. Ter vídeo com o Bidu dormindo aquecido é só
pra receber joinhas.
E
eu também não deveria ter dito que a Maricota nunca postou fotos de torta de
banana.
Dizem
que certos joinhas têm importância. Asseguram que somos responsáveis pela pouca
repercussão do que deixamos de aprovar. A sociedade precisa saber o que aprovamos.
A curtida é necessária para que mais gente saiba que não nos envergonha clicar positivamente.
Houve
gente que fez graça.
Sugeriu-se
que eu não fui convidado para a torta de banana na casa da minha tia. Jurou-se
que nem era eu o fotógrafo.
Se
a pessoa não aparece em foto alguma, a lógica tem que apontar o óbvio. Sem
constrangimento: gente que entra em foto sem revelar a sua presença só pode ser
vampiro.
Em
minha defesa, comentei numa postagem:
—
Vampiro não tira foto porque duvidariam que o seu belo rostinho sequer foi
manipulado por quaisquer aplicativos.
Uma
vez que ficou descartada a conjectura de que eu nem saiba como usar muitos dos
recursos disponíveis no meu celular, alguém não deixou passar:
Quando
o vampiro não morre com estaca cravada no coração, uma bala de prata dá jeito
no monstro.
Maricota
postou:
Eclesiástico
7, 19: Humilha profundamente o teu
espírito: porque a vingança da carne do ímpio, será o fogo e o bicho.
Veio
o corretivo: Nem para citar a Bíblia direito! Todo mundo sabe que o versículo
exato é: Humilhe-se profundamente, porque o castigo do injusto é fogo e vermes.
Veio
o corretivo do corretivo: Se é pra corrigir, a verdade tem que corrigir. E a
versão certa é: Humilha profundamente o teu espírito, pois o fogo e o verme são
o castigo da carne do ímpio.
Como
comentário a cada mensagem, tia Maricota colocou a foto de uma fatia da sua torta
de banana.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 19 de abril de 2026.
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