Nua
e crua
Você indo pela calçada quando mais à
frente vai caminhando uma figura cujo jeitão lembra muito um amigo seu. Sem
pensar, você chama pelo nome. Na dela, a pessoa vai indo.
Como o barulho está alto, o sujeito não escutou.
Só por curiosidade, ele teria virado.
Você grita o nome. Espera. A pessoa não
olha.
Não é possível que aquele velho amigo tenha
ficado surdo desde a última vez que se falaram. Está fazendo o quê... Duas
décadas?
De novo, você diz o nome. Finalmente, ele
se vira.
Teria sido melhor se continuasse indo em
frente.
Você para, olha pra trás. Quem estaria
fazendo tanto estardalhaço? Não tem ninguém. Agindo feito criança, só você.
Seu amigo fez plástica. E daí?
Descobrir que o cara que fez a primeira
comunhão junto com você foi capaz de uma peça dessas... Que o amigo fez
mudanças no rosto sem nem mandar pelo zap uma foto com a nova cara...
Ele poderia ter pedido o seu número.
Como fica a transparência entre pessoas
que são amigas?
E agora isso! Dar com outra pessoa sorrindo
em quem você jamais iria pensar que pudesse ter um sorrisinho assim esquisito.
Quanta deselegância. Quanta falta de apreço.
Só que você também sorriu. Amarelo, mas
sorriu.
Pensando bem, coloque-se no lugar desse
que vai andando como se nada de anormal estivesse acontecendo.
O indivíduo mais indicado a prestar
conta de ter torrado uma fortuna na transformação radical da própria aparência
é ele.
Viver não dá folga a quem se esforça?
Você sabe que não é fácil acordar cedo todo
santo dia.
Você paga caro pelo pão que nem o diabo
amassa para você.
Isso de negar a confiança de mandar o
zap com a cara nova, chega a ser um ato de traição. Depois a espuma do cão é
sua.
Você vai dormir com a barriga roncando,
e ronca também.
Você sabe que nem todo mundo está pronto
para encarar o espelho quando mais ninguém está olhando.
Deixar as cortinas fechadas não é o
mesmo que nem telefonar. E o sujeito nem para enviar o link da vaquinha.
Você não quer causar constrangimentos.
Você precisa da luz do sol.
As dores do outro? A sua mão arma um
soquinho...
Você quer ser a janela.
Você, caramba, é essa janela!
Como chave-mestra que escancara portas e
portões, você bate nos ombros desse velho amigo com a carne da cara toda
esticadona.
Ele não te reconhece.
Com uma cara que é só sorriso, você:
— Tem horas?
Ibiúna, dia 14 de abril de 2026.
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