Desde
aquele jogo
Conheço aquele sujeito há muito tempo.
Por baixo, temos convivido há trinta anos. Fomos colegas de escola, íamos à missa
aos domingos, tomávamos sauna no clube que éramos sócios, até dei seu nome a um
chihuahua que eu tive.
Meu cão morreu que nem lembro quando; ultimamente
o camarada me encontra quando não quero papo, quero pílula pra dormir.
Outro dia, a criatura achou de apostar
na lotérica que fica em frente do bar onde eu bebia. Não escondi a cerveja, ele
guardou a carteira.
— Que surpresa, Marcondes!
— Quanto tempo, Aristides!
— Tá pensando em ir nadar com tubarões
em Aruba?
— Tô precisando pegar sol nem que seja no
Gonzaguinha.
O avatar da boa fortuna tem a comichão
de gastar o que não deve, suando pra não ser enforcado pelos juros do cartão.
Em outras palavras, perde quem o acha filando breja a dois passos de uma
lotérica.
Nos esbarramos na fila da Mega acumulada.
Essa fora a última vez, no último sábado de março de 2020; guardei a data, pois
só o comércio essencial não teve que fechar no início da Covid-19.
Depois do nosso pileque, os boatos sobre
o paradeiro do Aristides pipocaram. Que ele foi o único ganhador da Mega,
aquilo pegou, virou epidemia. Ele sumiu, mas eram autênticas as fotos numa
cidadezinha francesa, isso viralizou que nem rastilho de pólvora.
Imaginá-lo comendo escargot? Se
arranhasse francês... Projetá-lo num iate na Côte d’Azur? Se soubesse onde
Cannes fica...
Sobre a quina que ganhou, o boboca garganteou.
Vieram parentes, amigos, parentes dos amigos, todos com problemas que só o
dinheiro para saná-los. Por suas mágicas de santo, cuja santidade era medida
pelos zeros debitados à filantropia, o ídolo teve a aura evaporada.
Ao nos abraçarmos, na semana passada,
obtive a comprovação da suspeita, que santo de carne e osso adora abraços quando
um devoto lhe paga a cerveja.
A festa pagã rolava sem traumas, mas
algo rompeu o lacre e a arca dos segredos deixou escapar um fantasma.
Eis que outra vez alcancei a iluminação:
bêbado que desconheça a força mental dos próprios alagadiços pantanosos é lenda.
Como não lhe conviria reprimir o metano
que pulsava na sua mente, Aristides contou como tudo começou.
Num dia qualquer da sua infância, ele
entrou na sala pisando firme. Para trazer à tona o que vislumbrara enquanto
observava um mosquito sendo devorado por uma aranha, ele trazia uma tesourinha
sem ponta, uma caneta e uma folha de papel.
Aristides se esquecera da régua, correu
pegá-la.
Ele mediu, riscou retas, cortou
quadradinhos, numerou-os de um a sessenta.
O menino pegou o chapéu de palha que o
pai usava nas pescarias, jogou os papeizinhos dobrados na boca da copa do
chapéu, sacudiu-o como se garimpasse e tirou seis pepitas.
Sem olhar pra trás, encantado, foi à
lotérica e apostou.
Sozinho, riu da fraqueza transcendental
que o fez captar as falsas dezenas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de abril de 2024.