terça-feira, 30 de abril de 2024

Desde aquele jogo

 

Desde aquele jogo

 

Conheço aquele sujeito há muito tempo. Por baixo, temos convivido há trinta anos. Fomos colegas de escola, íamos à missa aos domingos, tomávamos sauna no clube que éramos sócios, até dei seu nome a um chihuahua que eu tive.

Meu cão morreu que nem lembro quando; ultimamente o camarada me encontra quando não quero papo, quero pílula pra dormir.

Outro dia, a criatura achou de apostar na lotérica que fica em frente do bar onde eu bebia. Não escondi a cerveja, ele guardou a carteira.

— Que surpresa, Marcondes!

— Quanto tempo, Aristides!

— Tá pensando em ir nadar com tubarões em Aruba?

— Tô precisando pegar sol nem que seja no Gonzaguinha.

O avatar da boa fortuna tem a comichão de gastar o que não deve, suando pra não ser enforcado pelos juros do cartão. Em outras palavras, perde quem o acha filando breja a dois passos de uma lotérica.

Nos esbarramos na fila da Mega acumulada. Essa fora a última vez, no último sábado de março de 2020; guardei a data, pois só o comércio essencial não teve que fechar no início da Covid-19.

Depois do nosso pileque, os boatos sobre o paradeiro do Aristides pipocaram. Que ele foi o único ganhador da Mega, aquilo pegou, virou epidemia. Ele sumiu, mas eram autênticas as fotos numa cidadezinha francesa, isso viralizou que nem rastilho de pólvora.

Imaginá-lo comendo escargot? Se arranhasse francês... Projetá-lo num iate na Côte d’Azur? Se soubesse onde Cannes fica...

Sobre a quina que ganhou, o boboca garganteou. Vieram parentes, amigos, parentes dos amigos, todos com problemas que só o dinheiro para saná-los. Por suas mágicas de santo, cuja santidade era medida pelos zeros debitados à filantropia, o ídolo teve a aura evaporada.

Ao nos abraçarmos, na semana passada, obtive a comprovação da suspeita, que santo de carne e osso adora abraços quando um devoto lhe paga a cerveja.

A festa pagã rolava sem traumas, mas algo rompeu o lacre e a arca dos segredos deixou escapar um fantasma.

Eis que outra vez alcancei a iluminação: bêbado que desconheça a força mental dos próprios alagadiços pantanosos é lenda.

Como não lhe conviria reprimir o metano que pulsava na sua mente, Aristides contou como tudo começou.

Num dia qualquer da sua infância, ele entrou na sala pisando firme. Para trazer à tona o que vislumbrara enquanto observava um mosquito sendo devorado por uma aranha, ele trazia uma tesourinha sem ponta, uma caneta e uma folha de papel.

Aristides se esquecera da régua, correu pegá-la.

Ele mediu, riscou retas, cortou quadradinhos, numerou-os de um a sessenta.

O menino pegou o chapéu de palha que o pai usava nas pescarias, jogou os papeizinhos dobrados na boca da copa do chapéu, sacudiu-o como se garimpasse e tirou seis pepitas.

Sem olhar pra trás, encantado, foi à lotérica e apostou.

Sozinho, riu da fraqueza transcendental que o fez captar as falsas dezenas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de abril de 2024.

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