A
foto do aniversário
Quando penso que terei um banho de sol
no quintal, que nada. Há isso e aquilo para reparar, limpar, reparar melhor.
Tenho as unhas dos pés para cortar. Tenho e-mails pra responder, e para nem
abrir, muitos. Há papéis de bala e um palito de dente à espera de que o
cinzeiro seja limpo. Por que mantenho um cinzeiro se não fumo nem fumantes vêm
ao meu quarto? Ainda que o sol continue esplêndido, limpo o cinzeiro, batendo-o
na borda da lixeira ao lado da escrivaninha.
Fumar eu não fumo, todavia escrevo.
E junto papéis, cartões, fichas e
papeizinhos, todos juntados porque neles rabisquei. E tenho garranchos a
decifrar. Vejo uns; rasgo os sem futuro. Leio outros, e há os salváveis. Salvo
o seguinte:
A foto registra um pai sorrindo pra
câmera, ao lado da menina que está no colo da mãe, ambas sorridentes. No bolo
sobre a mesa há uma vela acesa, pois a criança de colo completa um ano.
Mesmo batida, é com tal cena que faço a
ciranda rodar. Para não a deixar abafada pela banalidade, reescrevo-a.
Como legenda à fotografia da menina de
colo, Adamastor comenta que é feliz porque tem uma família que o completa, pois
sua felicidade vem da felicidade da esposa e dos seus filhos, da menina mais
velha, do menino do meio e da sorridente que faz um ano.
Releio o que está escrito. Formulo
ideias, descarto muitas. O início reescrito pode ser aproveitado. Aproveito-o,
e o retomo:
Sob a foto publicada na sua página,
Adamastor comenta que a festa é porque a sua filhinha faz um ano.
No mesmo minuto, Adalgisa, a irmã cinco
anos mais velha que ele, dá os parabéns à aniversariante, deseja que ela
brinque até cansar e, cansada, deixe a casa em paz, pra que todos durmam em
paz.
Em paz, Adamastor marca a leitura com um
like.
Um minuto depois do comentário de
Adalgisa, Maria Eduarda, feliz pela felicidade do tio, comenta a foto: que
criança linda é a Ana Maria, que Deus lhe conserve a saúde do sorriso encantador,
que a vida traga mais alegrias que tristezas, que tudo ocorre no instante em
que precisa acontecer, pois Ele quer o melhor para cada um de nós.
Deus sabe, sim, o que é bom para cada um.
Adamastor, sua menina trilhará o caminho de tijolos amarelos da felicidade. Ela
viverá dias de liberdade, sem acabar morta por bandidos, que não viverão no
mesmo mundo que nós.
A mensagem foi apagada dois minutos
depois de publicada. Ela foi postada por Sérgio, o cunhado mais triste de
Adamastor e pai de Maria Antônia, a falecida irmã de Maria Eduarda.
Sérgio republica a mensagem escrita há
minutos, com o acréscimo: Adamastor, a Ana Maria conhecerá a glória de viver cem
anos!
Altair, irmão caçula de Adamastor, pede
que sejam publicadas mais fotos, aquelas nas quais a felizarda do dia apareça
com a boca suja da cobertura do bolo, alguma em que esteja gritando de tanta
alegria, uma que seja na qual você sorri, uma em que você deseje sorrir.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de abril de 2024.
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