Ascendente
Minha amada Madalena tem muito amor por
mim. Tanto ama a esse pateta que os nossos amigos qualificam-na uma santa, cuja
santidade brota, segundo eles e eu próprio, da paciência claramente delimitada
pelo que sente por mim, o seu idiotazinho.
Madalena minha querida quase não se
irrita comigo, ainda que não a entenda pelas coisas mais ordinárias que me são
pedidas, como ser eu a pessoa que precisa ir comprar pão antes de nos sentarmos
para o café da manhã.
A minha muito amada Madalena sabe que
questões filosóficas que não compreendo me concentram no irresolúvel que é
pensar a vida, o que irremediavelmente me distrai das tarefas cotidianas, como
lavar as mãos depois de pagar a padaria com as notas carregadas de bactérias
pelos muitos anos em circulação.
Lavo as mãos porque a respeito.
Obedeço-a porque ela sabe o que seja o melhor para mim, e infecções costumam
dar na gente quando a nossa mente está obcecada com a validade moral do que
escolhemos para nós, que somos fiéis servidores de quem muito nos ama.
Madalena nunca duvida de que sirvo para
muita coisa.
Se lavo as mãos, enxugo-as na toalha da
mesa ou ela não acharia razão de esculachar-me. Se respondo ao esculacho, ela
não só levanta a voz, bate com o indicador onde fica o terceiro olho.
Se o meu cálculo for preciso, o toque
nunca erra do ponto certo em minha testa, que é o cume do triângulo equilátero
projetado por mim a partir das extremidades internas das sobrancelhas.
Eu mesmo disse à Madalena que o universo
se comunica com cada uma das pessoas do planeta através desse orifício
espiritual. A energia penetra na epiderme, flui pela carne das fossas nasais e
exalamos. É privilégio humano nós atuarmos como esse veículo.
Minha adorável Madalena sabe como lidar
comigo. Mesmo quando fico encarando a página de um livro por cinco minutos,
mesmo que eu nem pisque, ela torna concreto o livro, fechando-o por mim.
Só quem ama com paixão sabe o quão
significativo é tirar das mãos da pessoa amada um objeto cujo encanto seja por
demais inebriante, pois o amor precisa abalar a mente hipnotizada que nem mais se
dá a perceber já submissa, então paralisada.
Há quarenta e nove anos Madalena e eu celebramos
o nosso amor com um jantar. Este ano comemoramos as nossas bodas de ouro com
este jantar no mesmo restaurante.
E nos conhecemos à saída do Satyricon
do Fellini. E se o pipoqueiro servisse garapa, nós também a tomaríamos.
Nos entendemos, porque não nos entendíamos
com isso de querer pipoca e garapa após assistirmos àquela fita que muito desafinava
com nossa realidade: sem carteira assinada, ela era ascensorista no edifício em
cujo topo funciona o restaurante onde jantamos; me envaidecia ser o anônimo
responsável pelo horóscopo.
Ao fim e ao cabo, a Madalena que se
casou comigo é a mesma que me faz canalizar o poder dos astros ao brindar com
espumante.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de abril de 2024.
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