terça-feira, 16 de abril de 2024

Ascendente

 

Ascendente

 

Minha amada Madalena tem muito amor por mim. Tanto ama a esse pateta que os nossos amigos qualificam-na uma santa, cuja santidade brota, segundo eles e eu próprio, da paciência claramente delimitada pelo que sente por mim, o seu idiotazinho.

Madalena minha querida quase não se irrita comigo, ainda que não a entenda pelas coisas mais ordinárias que me são pedidas, como ser eu a pessoa que precisa ir comprar pão antes de nos sentarmos para o café da manhã.

A minha muito amada Madalena sabe que questões filosóficas que não compreendo me concentram no irresolúvel que é pensar a vida, o que irremediavelmente me distrai das tarefas cotidianas, como lavar as mãos depois de pagar a padaria com as notas carregadas de bactérias pelos muitos anos em circulação.

Lavo as mãos porque a respeito. Obedeço-a porque ela sabe o que seja o melhor para mim, e infecções costumam dar na gente quando a nossa mente está obcecada com a validade moral do que escolhemos para nós, que somos fiéis servidores de quem muito nos ama.

Madalena nunca duvida de que sirvo para muita coisa.

Se lavo as mãos, enxugo-as na toalha da mesa ou ela não acharia razão de esculachar-me. Se respondo ao esculacho, ela não só levanta a voz, bate com o indicador onde fica o terceiro olho.

Se o meu cálculo for preciso, o toque nunca erra do ponto certo em minha testa, que é o cume do triângulo equilátero projetado por mim a partir das extremidades internas das sobrancelhas.

Eu mesmo disse à Madalena que o universo se comunica com cada uma das pessoas do planeta através desse orifício espiritual. A energia penetra na epiderme, flui pela carne das fossas nasais e exalamos. É privilégio humano nós atuarmos como esse veículo.

Minha adorável Madalena sabe como lidar comigo. Mesmo quando fico encarando a página de um livro por cinco minutos, mesmo que eu nem pisque, ela torna concreto o livro, fechando-o por mim.

Só quem ama com paixão sabe o quão significativo é tirar das mãos da pessoa amada um objeto cujo encanto seja por demais inebriante, pois o amor precisa abalar a mente hipnotizada que nem mais se dá a perceber já submissa, então paralisada.

Há quarenta e nove anos Madalena e eu celebramos o nosso amor com um jantar. Este ano comemoramos as nossas bodas de ouro com este jantar no mesmo restaurante.

E nos conhecemos à saída do Satyricon do Fellini. E se o pipoqueiro servisse garapa, nós também a tomaríamos.

Nos entendemos, porque não nos entendíamos com isso de querer pipoca e garapa após assistirmos àquela fita que muito desafinava com nossa realidade: sem carteira assinada, ela era ascensorista no edifício em cujo topo funciona o restaurante onde jantamos; me envaidecia ser o anônimo responsável pelo horóscopo.

Ao fim e ao cabo, a Madalena que se casou comigo é a mesma que me faz canalizar o poder dos astros ao brindar com espumante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de abril de 2024.

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