quinta-feira, 11 de abril de 2024

Sem exagero

 

Sem exagero

 

Como o universo faz piada, isso não me interessa explicar, mas rio adoidado quando sou pego por compreensão espontânea, e gargalho que nem palhaço se a tal da ‘dissonância cognitiva’ me tira do sério.

Ir da seriedade ao paroxismo é um caminho curto a quem nota que o telefone soa diferente quando certa pessoa liga.

Não é neura minha, o cosmos fala comigo assim como o meu corpo entrega o mal-estar quando cruzo os braços a quem me contraria.

Tocando nesse tom, não atendo. Quero-me preservado de notícias preocupantes. Ainda que desinformado, tenho preocupações que nem essa providente surdez impede-me de captar o que não desejo.

Dizem os analistas que desejo bom é desejo interdito.

Tal pessoa me ligou ontem, não atendi nenhuma das três vezes. Se a ouvisse, perderia o sono. Vem essa ânsia de querer-me sob controle, mas um convite para jogar truco me desnortearia.

Optei por capotar, pois sonífero não sela os meus tímpanos, prega-me à cama. Compreendo: desejo bom é desejo inconsciente.

De todo jeito, se tivesse atendido, enfrentaria um pedaço de costela que fosse, pois não faço desfeita. Como carne vermelha estraga o meu humor, me amaldiçoaria pela fraqueza. E sou tão fraco que a espadilha reduzir-me-ia a um estômago embolado. Ridículo, patético e abismado, eu pediria ajuda a sal grosso e cerveja.

De todo modo, não ouvi nada depois da terceira chamada.

Há pouco, ela ligou mais uma vez. E mais uma vez, não a atendi.

Ainda que a vida não me obrigue a só fazer o que me apraz, almocei e fui dar aquela cochilada no sofá.

Dizem que notícias ruins chegam logo, tal pessoa não ter me ligado mais, então, foi sinal de que a novidade era alvissareira.

Por suspeitar da ignorância, eu liguei.

Sou exigente, só subscrevo o seguinte dito porque acredito que seja uma verdade incontestável: perdoe a si mesmo para que o seu perdão alcance quem precisa ser perdoado.

Perdoo-me por ter sido a criança que fui no meu tempo de criança. Apesar de ter feito meu estilingue, nunca matei passarinho. Apesar de ter entrado em rio, ainda hoje não aprendi a nadar. Ignoro-me covarde, pois são ferozes os cães que latem assim que me veem. Também me quero perdoado pelo abuso de refrigerante entre as refeições. Estendo o perdão a quem me tem censurado, pois vocês sabem o bem que me fazem, não apenas aquele que imaginam.

Ao telefonar, queria lhe contar que no sábado passado tive vontade de comer feijoada. Eu fiquei só na vontade, porque o restaurante onde tem a melhor feijoada estava fechado.

À espera que você atendesse, lembrei que, sem explicação alguma, a iguaria seguia sendo negada à clientela.

Atendendo, você saberia que o mais estranho era o aviso na porta: fechado para almoço.

Cáspite!

É impossível ter gente que resista àquela feijoada, pois o tal acepipe é inigualável, e isso continua irrefutável mesmo à meia-noite.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de abril de 2024.

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