Sem
exagero
Como o universo faz piada, isso não me
interessa explicar, mas rio adoidado quando sou pego por compreensão
espontânea, e gargalho que nem palhaço se a tal da ‘dissonância cognitiva’ me
tira do sério.
Ir da seriedade ao paroxismo é um
caminho curto a quem nota que o telefone soa diferente quando certa pessoa liga.
Não é neura minha, o cosmos fala comigo
assim como o meu corpo entrega o mal-estar quando cruzo os braços a quem me
contraria.
Tocando nesse tom, não atendo. Quero-me
preservado de notícias preocupantes. Ainda que desinformado, tenho preocupações
que nem essa providente surdez impede-me de captar o que não desejo.
Dizem os analistas que desejo bom é
desejo interdito.
Tal pessoa me ligou ontem, não atendi
nenhuma das três vezes. Se a ouvisse, perderia o sono. Vem essa ânsia de
querer-me sob controle, mas um convite para jogar truco me desnortearia.
Optei por capotar, pois sonífero não sela
os meus tímpanos, prega-me à cama. Compreendo: desejo bom é desejo inconsciente.
De todo jeito, se tivesse atendido,
enfrentaria um pedaço de costela que fosse, pois não faço desfeita. Como carne
vermelha estraga o meu humor, me amaldiçoaria pela fraqueza. E sou tão fraco
que a espadilha reduzir-me-ia a um estômago embolado. Ridículo, patético e abismado,
eu pediria ajuda a sal grosso e cerveja.
De todo modo, não ouvi nada depois da
terceira chamada.
Há pouco, ela ligou mais uma vez. E mais
uma vez, não a atendi.
Ainda que a vida não me obrigue a só
fazer o que me apraz, almocei e fui dar aquela cochilada no sofá.
Dizem que notícias ruins chegam logo,
tal pessoa não ter me ligado mais, então, foi sinal de que a novidade era alvissareira.
Por suspeitar da ignorância, eu liguei.
Sou exigente, só subscrevo o seguinte
dito porque acredito que seja uma verdade incontestável: perdoe a si mesmo para
que o seu perdão alcance quem precisa ser perdoado.
Perdoo-me por ter sido a criança que fui
no meu tempo de criança. Apesar de ter feito meu estilingue, nunca matei
passarinho. Apesar de ter entrado em rio, ainda hoje não aprendi a nadar. Ignoro-me
covarde, pois são ferozes os cães que latem assim que me veem. Também me quero
perdoado pelo abuso de refrigerante entre as refeições. Estendo o perdão a quem
me tem censurado, pois vocês sabem o bem que me fazem, não apenas aquele que
imaginam.
Ao telefonar, queria lhe contar que no
sábado passado tive vontade de comer feijoada. Eu fiquei só na vontade, porque o
restaurante onde tem a melhor feijoada estava fechado.
À espera que você atendesse, lembrei que,
sem explicação alguma, a iguaria seguia sendo negada à clientela.
Atendendo, você saberia que o mais estranho
era o aviso na porta: fechado para almoço.
Cáspite!
É impossível ter gente que resista
àquela feijoada, pois o tal acepipe é inigualável, e isso continua irrefutável mesmo
à meia-noite.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de abril de 2024.
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