A
construção
A construção começará com um homem
descascando uma laranja. Nessa construção, o descascador não será imbecil, será
um sonhador. O sonho imediato será tirar a casca sem que o corte seja
interrompido. Terá tornado em realidade o seu desejo se conseguir cortá-la sem
que a lâmina deixe de tocar a pele da laranja. Este será o trabalho, revestir ações
corriqueiras com leveza. Atento e zeloso, o sonhador será poeta, será o poeta das
banalidades leves.
Depois de descascar a fruta, a ideia é
espremer o sumo num copo. Quer espremer a laranja sem que nenhuma gota caia
fora do copo.
Em seguida, beberá do suco. Todo ele
será bebido sem imaginar o que se passa lá fora. Será difícil controlar-se
porque a sua mente é um cachorro irredutível, um bicho indomesticável, um
animal.
O animal que descasca a laranja teme que
se corte, mas não para. A faca são seus dentes. A caminhada é dolorosa porque ataca
o mato. Os galhos são desbastados pelo gume do medo, porque teme ferir-se. Não
quer sangrar, teme que o encontrem. Ocasionalmente, fere o rosto porque a sua
mente já projeta um mar mais à frente.
Ele não se lembra de alguma vez ter
entrado no mar. Nadar dá-lhe medo porque poderá afogar-se. Debater-se será
tirar a faca da laranja, será interromper o corte. Porque o mar na mente é
cachorro indômito, cujas ondas arranham, mordem, destroçam.
Assombrado pelo naufrágio, o poeta não
se vê como espuma. Gota alguma de sangue lamberá a areia. Cardumes comê-lo-ão. Camarões
e lagostas vão alimentar-se do que restar. De modo algum haverá traço de sua
passagem. O mar não lhe dará sepultura.
O sangue do poeta gela. A múmia descasca
a laranja, pois enfrenta o medo, quer-se à areia. A mente projeta o encontro do
náufrago com o andarilho. A mente não petrificada confunde este com aquele.
Tornado um, o sonhador poetiza a
jornada. Como sobrevive ao fogo que o gela, o vagabundo que pisa a areia
sabe-se a mar e mata.
Bebe de si, bebe-se, bebe do suor que o
lustra.
A pele brilha, mas os pés não são raízes.
O poeta vê uma passarela ligando mar e mata. A praia não será a sepultura. A
brisa não o iludirá. Pra ir da mata ao mar sem afundar na areia, precisa se concentrar.
Ao cortar a casca da laranja, é preciso atentar-se concentrado.
O poeta sonha que não se corta, que não
sangra, que os tubarões não deixarão o oceano pra dizimá-lo. Os tubarões
trabalharão a palha, trançá-la-ão. A passarela será bela porque o sonhador a
utilizará.
Quando houver domingo, o construtor de
belezas poderá mergulhar no mar sem trazer na pele grãos de areia e ciscos do
mato.
Quando for sábado, sem que lhe falte
fôlego, o reparador de sonhos subirá numa palmeira para avistar o oceano.
Uma vez descascada, poderá chupá-la. Até
o bagaço, há de chupá-la. Pra que reste feito semente, a laranja terá de ser
chupada.
Então o poeta verá a sua terra, terá a
sua terra devastada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de abril de 2024.
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