domingo, 7 de abril de 2024

A construção

 

A construção

 

A construção começará com um homem descascando uma laranja. Nessa construção, o descascador não será imbecil, será um sonhador. O sonho imediato será tirar a casca sem que o corte seja interrompido. Terá tornado em realidade o seu desejo se conseguir cortá-la sem que a lâmina deixe de tocar a pele da laranja. Este será o trabalho, revestir ações corriqueiras com leveza. Atento e zeloso, o sonhador será poeta, será o poeta das banalidades leves.

Depois de descascar a fruta, a ideia é espremer o sumo num copo. Quer espremer a laranja sem que nenhuma gota caia fora do copo.

Em seguida, beberá do suco. Todo ele será bebido sem imaginar o que se passa lá fora. Será difícil controlar-se porque a sua mente é um cachorro irredutível, um bicho indomesticável, um animal.

O animal que descasca a laranja teme que se corte, mas não para. A faca são seus dentes. A caminhada é dolorosa porque ataca o mato. Os galhos são desbastados pelo gume do medo, porque teme ferir-se. Não quer sangrar, teme que o encontrem. Ocasionalmente, fere o rosto porque a sua mente já projeta um mar mais à frente.

Ele não se lembra de alguma vez ter entrado no mar. Nadar dá-lhe medo porque poderá afogar-se. Debater-se será tirar a faca da laranja, será interromper o corte. Porque o mar na mente é cachorro indômito, cujas ondas arranham, mordem, destroçam.

Assombrado pelo naufrágio, o poeta não se vê como espuma. Gota alguma de sangue lamberá a areia. Cardumes comê-lo-ão. Camarões e lagostas vão alimentar-se do que restar. De modo algum haverá traço de sua passagem. O mar não lhe dará sepultura.

O sangue do poeta gela. A múmia descasca a laranja, pois enfrenta o medo, quer-se à areia. A mente projeta o encontro do náufrago com o andarilho. A mente não petrificada confunde este com aquele.

Tornado um, o sonhador poetiza a jornada. Como sobrevive ao fogo que o gela, o vagabundo que pisa a areia sabe-se a mar e mata.

Bebe de si, bebe-se, bebe do suor que o lustra.

A pele brilha, mas os pés não são raízes. O poeta vê uma passarela ligando mar e mata. A praia não será a sepultura. A brisa não o iludirá. Pra ir da mata ao mar sem afundar na areia, precisa se concentrar. Ao cortar a casca da laranja, é preciso atentar-se concentrado.

O poeta sonha que não se corta, que não sangra, que os tubarões não deixarão o oceano pra dizimá-lo. Os tubarões trabalharão a palha, trançá-la-ão. A passarela será bela porque o sonhador a utilizará.

Quando houver domingo, o construtor de belezas poderá mergulhar no mar sem trazer na pele grãos de areia e ciscos do mato.

Quando for sábado, sem que lhe falte fôlego, o reparador de sonhos subirá numa palmeira para avistar o oceano.

Uma vez descascada, poderá chupá-la. Até o bagaço, há de chupá-la. Pra que reste feito semente, a laranja terá de ser chupada.

Então o poeta verá a sua terra, terá a sua terra devastada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de abril de 2024.

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