quinta-feira, 28 de março de 2024

Mãos limpas

 

Mãos limpas

 

Embora o cuco esteja parado, os números continuam agindo. Caso os ponteiros indicassem outra hora qualquer, e não meia-noite e meia, talvez as circunstâncias fossem semelhantes, mas o frio seria menor. Terá que haver sol e cortinas balançando discretamente para que o dia seja propício à multiplicação de ideias. E ideias que sacudam a cachola desde a alvorada, ou antes até, ainda durante os sonhos.

Talvez a alma acomode-se melhor na carne aquecida pelos afagos solares, já os afluxos lunares não descartam uma agitação. Empenhar-se em trocar tanto dia pela noite quanto a noite pelo dia é comprometer-se, consciente e inconscientemente, a escutar-se em tique-taque.

O tempo é a pele em comunicação com o cosmo?

Não é à toa que uma dorzinha de cabeça surja pulsante, pois uma ideia instigante seduz de tal modo que, excedendo a influência natural, a lua e o sol agitam o sangue.

Há pessoas cujos sonhos afinam o sangue. Em raríssimas pessoas, o sonho agita o caldo cerebral, havendo tal efervescência espiritual que a boca profetiza.

A língua da pessoa que profetiza não seca fácil. Muita gente celebra as palavras proféticas, tanto celebram que as registram e as publicam, pois o dinheiro arrecadado com as vendas é motivo de júbilo.

Se a inspiração não vem, martele-se o dedo. Quem martela o dedo chega a ver estrelas, e ter aquela dor latejante, que não é pra qualquer um, é para ambiciosos. E defensores de ambição gananciosa, porque a pessoa que suporta a dor tem que aprender a sublimá-la.

Uma vez, e é claro que houve muitas vezes, martelei o polegar, isso ensina que palavrões não eliminam a dor. Com dor, cuidei das tarefas, fiz contas, li o meu Drummond. Há mágoa que não pulsa um dia inteiro, até omelete eu pude cortar quando bateu a fome.

Dificuldade maior eu tive ao lavar as mãos.

Porém é preciso chegar a isso: usar as próprias mãos para livrá-las da sujeira. Lavar-se não apesar da dor, mas porque dói. Apontar o que dói é banalizar a condição e banalizar-se é menosprezar-se. Ainda que não compreenda, a pessoa aprenda a cultivar a dignidade de sofrer em silêncio. Todavia sofra enquanto for preciso, ou restará presa à dor que não cessa. Mas sentir que o instante passa é profícuo.

Lavei-me, uma vez que havia feito o que tinha para fazer nesse dia: arranquei os matinhos dos xaxins, limpei os ralos do quintal e queimei a carta que eu não escrevi porque tenho cega a canhota.

Com mãos prenhes de emoções contraditórias, um tanto trêmulas, peguei do lápis para hospedar o que desejava escrito. E vi que as mãos realmente precisavam de uma boa esfregada, daquelas que deixam a pele vermelha. Essas mãos muito bem lavadas, com esfoladinhas aqui e ali, transmitem o perfume do sabonete líquido às palavras. Ah! Sim! Sentimentos perfumados inebriam.

Muito embora lavar as mãos seja salutar, sou mais sujá-las.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de março de 2024.

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