sexta-feira, 5 de abril de 2024

Jogo rápido

 

Jogo rápido

 

Se eu fosse o cara chato que dizem, teria arredondado pra duzentos degraus. Só que a escalada do térreo ao quinto andar foi calma, afinal a convalescente sabe que esperneio sem motivo. Quando interrompem minha água de coco, dou chilique. Não esperneei pela saliva acre, mas me vi forçado a uma paradinha. Duzentos degraus, só isso?

Subindo, fui matutando quais os assuntos deixarei de abordar. Não falarei do céu azul, uma vez que o quarto tem janela. Não me exaltarei pela selvageria dos cavalos de um Porsche, o controle é remoto porque está à mão. Quase lá, assentei que o papo fluirá espontâneo.

Quem abre a porta é Marcelo, um ex-marido. Sentada na cama está Samira, a esposa. Pra nos beijarmos, a Bel que conheço desde menina abre os braços.

A acamada não sabe dizer quanto durou a cirurgia. Quererem saber qual a sua religião, a pergunta não tinha que ser respondida. Pede que eu veja o que foi extirpado, ele entrega o pote com as pedras. Segundo o médico, logo a dieta incluirá pizza. Os sorvetes voltarão a ser muitos e as noitadas hão de ser de delícias mil e a humanidade resplandecerá; se fosse um cara bacana, o doutor teria dito.

Tive medo de irritá-la. De desapontá-la, não tive. Ainda assim, não passei de um visitante de poucas palavras. Esse medo de contrariá-la quando ela pedia açúcar no mamão, foi isso o que me encalacrou. Pela inconveniência da aparição, foi o que me fez parar um instante durante a subida. Precisei parar porque eu preciso respirar melhor.

Não especularei sobre a rapinagem dos minérios de Essequibo pelo obsessivo ditador venezuelano. Não criticarei o ataque abominável do exército israelense contra o comboio de ajuda humanitária em Gaza. E não professarei adjetivos sobre pele feito capa às folhas que tratam da alma, os honoráveis de Harvard que sejam humanistas.

Transformado nesta carranca que escuta, sorrio.

Ela diz que fiz algo bom ao vir visitá-la. Ela diz que a presença dos amigos ajuda porque as horas passam voando. Embora lembrar-se do passado ajude, prefere envolver-se no dia a dia, que isso gerará novas lembranças.

Deus piedoso, aleluia! Que a Bel volte a sassaricar, logo, amém!

A caminho, sou parado. A moça tem caneta e prancheta. É para ser rápida a entrevista. Quantos quartos tem a minha casa. E quantas TVs, geladeiras, máquinas de lavar. Quantos celulares e fogões. Quanto eu ganho? Se a casa é própria nem é perguntado nem se a deixaria usar o banheiro em caso de urgente necessidade.

Respondi, e não me arrependo de tê-las respondido. Eu poderia ter acrescentado uns dois celulares, mas o contracheque comprovaria que tenho só uma boca. Eu deveria ter dito que ter Porsche não é um sonho meu. Paparazzis brigarem por uma foto evidencia o quão míopes eles são, uma vez que não sou roqueiro nem astro das telas.

Graça mesmo é um sorriso não ser o meme do momento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de abril de 2024.


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