quinta-feira, 25 de abril de 2024

As boas intenções

 

As boas intenções

 

Repare bem, mas ao reparar, tente disfarçar. Não entregue de cara o que pensa. Faça com que acreditem que não tem tanto interesse no que inegavelmente a motiva a mascarar-se. Olhe e sinta. Procure não transparecer a ansiedade. Ansiosos caem ao primeiro passo, nem bem abrem a boca para afetar indiferença. O que valoriza é ter compaixão, faça ver que se controla ao dar-se em compaixão. Como o tamanho da dose acarreta o efeito, não se empolgue. Condoa-se sem humilhação, dê a ver que tem compostura, que raciocina, que não se precipita nem escancara o pasmo de se envolver, comiserar-se, compreender.

Compreenda e seja compreensivo, embora a pessoa esteja morta, você não. Deixe ver que mantém os pés no chão, ainda que as nuvens sejam leves e ligeiras, são elas que barram a luminosidade excessiva. Demonstre-se adaptado ao sol do meio-dia, que o seu olhar traduz-se como nuvens. Embora a pessoa esteja viva, mantenha-se apática.

Apiede-se, note o olhar carregado de lirismo da pessoa que espera. Ela aguarda que aclare o porquê da desolação que magoa, espera que se coloque na pele de quem sofre. Solidária, revele-se outra pessoa a sofrer por amor. Fraterna, mostre suportar-se covarde.

Embora seja uma pessoa movida a trivialidades, seja complacente, sorria, ponha no rosto a cara amiga de quem entende o sofrimento de quem ama. Mesmo que o amor por vezes seja impiedoso, sorria.

Quando convém que a lição seja passada pela carne que transpira, torne-se nuvens. A quem ama seja o olho d’água, que a sede aplacada aquiete o coração aos pulos. Aja como se não invejasse quem ama em tal grau e intensidade, de trazer o coração pulsando a mil. Aja como se não amasse, não buscasse consolo nesse amor invejado. Faça ver que convém se acalmar, entediar-se, dosar o amor que desconsola.

Porque o tédio cicatriza, não apaga o sorriso magoado, cuide-se.

Diante de quem ama sem pudor de revelar-se inconsolável, sorria, demonstre saber que o amor pode ser curado pelo entediante, pelo dia a dia que não conhece píncaros nem fossas. Porque o ardor da pessoa morta em vida quer a melhor saída pro que não tem solução. Porque a solução talvez seja a porta às costas, quiçá a mais próxima.

Endireite-se, mostre o quanto compreende, que se irmana à pessoa que sofre. Seja lírico, diga palavras que tranquilizem. Lírica, ela anseia que o amor não a consuma, seja água à alma que arde. Amorosa, seja a mão mais serena a segurar as mãos que tremem.

A pessoa deseja, não a afronte. Quando quer refrescar a garganta, ela não deseja o gole d’água. Se se recorda do balanço, não lhe aponte o sangue nos joelhos. Na falta de ar, passe-lhe um café. Se a cachola desespera da paixão inconsolável, leia um poema.

Para que a pessoa possa amparar-se no invisível, pelo indizível do que ama, sinta que se retirar à própria miséria é um sinal de amor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de abril de 2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário