As
boas intenções
Repare bem, mas ao reparar, tente
disfarçar. Não entregue de cara o que pensa. Faça com que acreditem que não tem
tanto interesse no que inegavelmente a motiva a mascarar-se. Olhe e sinta. Procure
não transparecer a ansiedade. Ansiosos caem ao primeiro passo, nem bem abrem a
boca para afetar indiferença. O que valoriza é ter compaixão, faça ver que se
controla ao dar-se em compaixão. Como o tamanho da dose acarreta o efeito, não
se empolgue. Condoa-se sem humilhação, dê a ver que tem compostura, que raciocina,
que não se precipita nem escancara o pasmo de se envolver, comiserar-se,
compreender.
Compreenda e seja compreensivo, embora a
pessoa esteja morta, você não. Deixe ver que mantém os pés no chão, ainda que
as nuvens sejam leves e ligeiras, são elas que barram a luminosidade excessiva.
Demonstre-se adaptado ao sol do meio-dia, que o seu olhar traduz-se como
nuvens. Embora a pessoa esteja viva, mantenha-se apática.
Apiede-se, note o olhar carregado de
lirismo da pessoa que espera. Ela aguarda que aclare o porquê da desolação que
magoa, espera que se coloque na pele de quem sofre. Solidária, revele-se outra
pessoa a sofrer por amor. Fraterna, mostre suportar-se covarde.
Embora seja uma pessoa movida a
trivialidades, seja complacente, sorria, ponha no rosto a cara amiga de quem
entende o sofrimento de quem ama. Mesmo que o amor por vezes seja impiedoso, sorria.
Quando convém que a lição seja passada
pela carne que transpira, torne-se nuvens. A quem ama seja o olho d’água, que a
sede aplacada aquiete o coração aos pulos. Aja como se não invejasse quem ama
em tal grau e intensidade, de trazer o coração pulsando a mil. Aja como se não
amasse, não buscasse consolo nesse amor invejado. Faça ver que convém se acalmar,
entediar-se, dosar o amor que desconsola.
Porque o tédio cicatriza, não apaga o
sorriso magoado, cuide-se.
Diante de quem ama sem pudor de
revelar-se inconsolável, sorria, demonstre saber que o amor pode ser curado
pelo entediante, pelo dia a dia que não conhece píncaros nem fossas. Porque o
ardor da pessoa morta em vida quer a melhor saída pro que não tem solução. Porque
a solução talvez seja a porta às costas, quiçá a mais próxima.
Endireite-se, mostre o quanto compreende,
que se irmana à pessoa que sofre. Seja lírico, diga palavras que tranquilizem.
Lírica, ela anseia que o amor não a consuma, seja água à alma que arde.
Amorosa, seja a mão mais serena a segurar as mãos que tremem.
A pessoa deseja, não a afronte. Quando
quer refrescar a garganta, ela não deseja o gole d’água. Se se recorda do
balanço, não lhe aponte o sangue nos joelhos. Na falta de ar, passe-lhe um café.
Se a cachola desespera da paixão inconsolável, leia um poema.
Para que a pessoa possa amparar-se no invisível,
pelo indizível do que ama, sinta que se retirar à própria miséria é um sinal de
amor.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de abril de 2024.
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