domingo, 14 de abril de 2024

A semana

 

A semana

 

No sábado, eu estava na fila do açougue quando um desconhecido não chegou chamando o açougueiro pelo nome, chegou dando tapas no balcão, chegou dizendo que não tinha a manhã toda para ficar numa fila, pois deveriam ter vergonha de fazer um senhor de sessenta anos ficar esperando que cortassem o quilo de carne que pedira há mais de dez minutos, que iria reclamar, iria pôr no Face o nome do açougueiro, que denunciaria o abuso com um freguês antigo, pois era um desplante vergonhoso.

Desplantados ficamos nós, as pessoas que usamos da maquininha para sermos atendidos conforme à chegada.

Ainda bem, a sexta-feira foi diferente.

No mesmo supermercado, na fila do pão, as pessoas postavam-se uma atrás da outra, todas cumprimentando antes de pedir e após ser atendidas, ou seja, era aquela rotina que dispensa uso de senha.

Como se todo mundo se comportasse por modos urbanos, a manhã fluía tranquila até chegarem aquele homem e aquela mulher.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Você é que tem essa mania de distorcer tudo o que eu falo. Você adora ouvir o que não digo. Se ouvisse, não estaria implicando comigo na frente de todo mundo.

— Se você não disse o que disse, então o xarope sou eu.

— Pelo amor de Deus, Carlos Alberto. Pare com isso, porque estou cansada disso, com o senhor apelando mais uma vez pra esse recurso batido que é a insinuação de que eu sou doida.

— Eu é que não banco o maluco, Zefinha.

— Deus! Vê se me ouve, meu amor. O que eu mais quero é ter uma horinha sem discussão boba. Pra que esse circo todo?

— Cale a boca!

Cobrindo as orelhas com as mãozinhas em concha, a menina disse à mulher que estava incomodada com o bate-boca:

— Quero chocolate, mamãe.

Sem afetação, a mãe e a filha saíram de cena.

Não foi porque compartilharam que eu assisti ao vídeo. Eu só fiquei interessado em assisti-lo pela revolta na rede. A repercussão é grande porque o funcionário que o gravou foi despedido.

Embora a maioria foque na coragem da pessoa que postou a briga, há uns poucos que a criticam pela invasão de privacidade.

Para os mais intransigentes, o empregado não tinha nada de trocar o que deveria estar fazendo pela bisbilhotice. Em outras palavras, a lei protege o gerente pela demissão desse folgado.

É domingo, agora me ocorre: ninguém comentou o comportamento de mãe e filha, que escolheram o melhor para si.

Não vou afirmar que elas foram ao setor de chocolates e bombons, suponho que testemunhar aquela discussão não era uma coisa muito agradável para mãe e filha fazerem.

No caso, volto ao sábado, àquele açougue.

Depois de ter visto o vídeo e absorvido a verve dos comentaristas, elegante é terminar a crônica com esta jura: na briga pública pretérita, eu apontara a câmera para quem gravava, pois me rogara o direito de ser o Godard do celular, mas, porque o pusera comendo pipoca, o meu narrador fora econômico, ou emperraria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de abril de 2024.

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