O
meu número
De pronto, é bom que você saiba que o
título da crônica não guarda referências aos tamanhos de calçado, roupa ou ego.
Agradeço ao texto pela introdução do tópico
ego logo no início, pois a sua dimensão será mínima, visível o suficiente
para que seja notada a discrição necessária à fluidez do que se conta.
Das tantas personas catalogadas em
manuais de psicologia, a que se revela é a que entra como ‘escada’ em esquetes
cômicos. Para que a piada tenha graça, Dedé e Didi precisam ser complementares.
Nesta história, o narrador, personagem
emblemática, diferencia-se pela boa-fé. Sem timidez ardilosa, ele atua em
segundo plano.
Assim, ainda que não a profira, estou
seguro da minha gratidão pela jovem que me pergunta se quero batata extra ou
sundae.
Formada no ensino médio há dois anos,
ela fará dezenove anos em novembro. Não há pressão para que estude Farmácia,
mas a dona da casa onde mora, a avó, é leitora entusiasmada de bulas e adoraria
vê-la usando do jaleco personalizado para autorizar pílulas às insônias e
drágeas a súbitos achaques. Ela é compreensiva, entende que isso de apelar à
chantagem emocional é coisa de vó.
Assim como o amor que irradia é vasto, o
terreno da casa é enorme, tem árvores. Como frutas atraem passarinhos, o dia
todo tem cantoria no quintal. De noite, uma coruja costuma aparecer quando não
chove. Se piado de coruja anuncia desgraças, bom mesmo é escutar bem-te-vi e
joão-de-barro.
Na jabuticabeira, a casinha do
joão-de-barro faz tempo que está ali. Ela era menina quando viu aquilo. A avó diz
que não deve tocar de jeito algum ou o joão-de-barro se manda de mala e cuia, vai
construir a sua casinha em outro lugar, no abacateiro do vizinho.
Ei, vovó, amar não é dizer amém o tempo
todo.
A jovem diz que eu devo conhecer a sua
avó. Ela é muito conhecida na cidade. Todo mundo a chama de Véia do Troco.
A neta não sabe quem deu o apelido. É
lógico que ele pegaria, pois a sua avó nunca anda sem troco. Ela sempre tem
troco pro ônibus, pro mercado, pros remédios. Quando as moedas estão para
faltar, recorre ao banco. Pede que lhe arrumem moedas de cinco, dez, vinte e
cinco e cinquenta centavos, e de um real também, é óbvio. Não esquece de pedir que
troquem o dinheiro em papel, quer todas as notas, as de dois, cinco, de dez, vinte
e cinquenta. Tem mais, sua avó não sai da agência sem que a atendam de acordo
com o solicitado.
Uma vez tentaram assaltá-la na saída do
banco, mas o ladrãozinho apanhou tanto que nunca mais bandido algum tentou novamente.
A jovem diz que a sua avó me conhece.
Tem boa memória a pessoa que não se
esquece de nada ou a que não deixa de lembrar-se quando precisa?
Como prova de que a sua avó não é
mentirosa, a jovem mostra-me um caderninho em que o meu nome e o meu número de
telefone estão anotados.
— Moça, perdoe-me pela cabeça que falha,
mas o fixo de casa foi cancelado há duas décadas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de abril de 2024.
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