Passeio
pelo raso
Pessoas amigas, aquelas festivamente
próximas, sabem que o meu peito abriga um pirata oitenta porcento fanfarrão. As
íntimas me acham na enseada em que, fundeado, flutuo ao léu da brisa. Um
porcento de mim, nessa clareira onde gota d’água é oceano, são extraordinárias
as amadas que, por palavras, imagens e silêncio, afetam minha bússola, desnorteando-me.
Por temer naufrágios, saio para respirar,
não para tomar sol.
Respiro, logo sou simpático a quem venha
bater papo. Por conta da fome que não sinto, sendo pego comendo churro, preciso
de um tempo para, na conversa, eu não ser tão indigesto.
Às vezes as ironias azedam; ou arroto,
facilmente distraído.
Seduzido, sentado no banco de frente pro
coreto, chapinho na beira do mar, escuto as aves marinhas, vejo surfistas curtindo
as ondas, de vez em quando uma onda traz a espuma lamber meus pés, nem assim desisto
do prazer de lagartear ao sol. Ainda que o sol narcotize, sendo esse sol às
três, respiro enquanto mastigo.
Não surfo nem mergulho, não me quero
engasgado pelo churro que eu como. A imaginação me diz que tenho os pés
enfiados num riacho, aquele riachinho que não me apavora, embora corra além da
barraca de churros, não deixo de gostar do sol, desta praça sem areia.
O riacho existe, corre nos fundos do
terreno onde fica a minha casa. Tal riacho não me faz aguar a boca, o churro
faz. Lambo os lábios, me delicio com a mente ao senti-la aberta, arejada,
iluminada.
A cachola digere o que tanto lhe apraz.
Sou a maré que me embala ao sabor das vontades.
Não vim iludido.
Tendo achado, já pela manhã ao tomar
café, que hoje poderia ser um dia de churros depois do almoço, me entusiasmei.
Quando eu saísse para pagar alguma
conta, ou resolvesse comprar o que nem está faltando. Uma vez resolvido, aceito
que vou ao churro mais próximo. Nem abrirei o armário da despensa, pois nem
precisam faltar o arroz, o pó de café ou o que seja que realmente esteja faltando,
vou ao churro sem nem mesmo querer ir ao supermercado, irei apenas para não me
ludibriar, que saí de casa somente pelos churros.
Vou ao supermercado porque preciso de
trocados. No momento de pagar a moça dos churros, quero dar o valor exato. Com
isso, ganharei um sorriso. Porque espontâneo, será um belo sorriso. Me
satisfaço que o sorriso da moça me leve a pensar que sou um cara bacana. Uma
vez que ela me considere um bom sujeito, eu também sorrirei.
É tudo uma questão de organizar-se e
agir segundo o planejado, aí churros não assoreiam o pensamento no instante de reforçar
que o sol brilha gostoso, aí nenhum arroto será conveniente quando a conversa
cansar, aí a pessoa voltará para casa pensando mal, mas a tarde será mais que
um encontro maçante.
Como só churro não basta, politicamente
educado é falar de boca cheia sobre a deliciosa e espetacularmente caprichada
esfiha assada em forno à lenha.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de abril de 2024.
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