terça-feira, 26 de março de 2024

Cuca fresca

 

Cuca fresca

 

Gritam, “olha o caminho”. Falam e acham que são objetivas as suas falas. Qualquer tentativa de veicular o que pretendem dizer com o grito é ato de perfídia. Em essência, o tradutor apresente-se, escale os vãos das palavras. Seja denunciante de quem trabalha pelo óbvio captado, ou pouco adiantaria o discurso aprumar-se na sinceridade do ouvinte. Por conferir aos contraditórios a falsidade, ao leal é imperativo que a lógica prevaleça. A ordem tácita, ‘sai da frente’, condiciona o evidente: ignore, sofra as consequências.

Voltemos ao berro. “Olha o caminho” indica que um ciclista precisa passar. As sinapses não estão vagarosas. A consciência trabalha essa frustração, de escutar como convém. O veloz prevê dificuldades. Quer evitar um acidente. Não quer sair como culpado. Acertará quem obstrui a passagem ou cairá pela freada abrupta ou só irá parar muitos metros adiante. É preciso dar-se as condições de escolher. À pessoa que não para de pensar nos próprios erros não agrada o papel de réu.

Em “olha o caminho” fique implícito “filho da cuca”.

Esmiuçemos o brado. “Filho da cuca” virá tarde. Depois de tombo, impacto, freada brusca, probabilidade da batida. Ainda assim o mundo não tomará conhecimento desse atropelamento. Nem as pessoas que normalmente prestam socorro saberão qual vítima tem razão.

Do rapaz ouviríamos, “vou perder o dia”. Da atropelada ouviríamos, “está doendo pra chuchu”. A acompanhante da senhorinha falaria, “que rapaz sem juízo!”

Ao acolhermos essa linha, e por nosso humanismo, incluiríamos um socorrista que se limitará a trazer a maca.

A médica da ambulância examinará pés, pernas, joelhos, as coxas. Apalpará braços. Verificará as mãos, os pulsos e os cotovelos. Sempre anunciando o que fará, ela eliminará qualquer fratura no pescoço.

Para não se ver incluído no imbróglio, mesmo afastado do telefone do ponto, o taxista acenderá o cigarro, tragá-lo-á sem pressa alguma, e, temeroso de balbuciar qualquer banalidade urbana, nem se arriscará a formular: “está quente, hein?”

Fixemos a atenção sobre “filho da cuca”.

Pratiquemos nossa humanidade. Apaguemos da ideia a senhorinha a orar, a pedir que a soltem da maca, a usar um colar cervical, chorosa. Silenciemos a sirene. Suprimamos o corpo de socorristas.

Escutemos o que nos diz este “filho da cuca!”

Quando a gente é atingida pelo pasmo, subitamente o corpo dói. A alma dói. Gemer é uma arma. Defenda-se. Suar, tremer e gemer, tudo é dor, a mente dói. Pelas dores que sente e pelas dores que imagina, a gente sofre. Pelas mágoas que precisam de cura, basta de aflição.

“Filha da cuca!”, ela grita o que grita à guria de patins por causa do susto. Embora saiba ser uma dama, a bem-educada e bem-apessoada torna a bradar à pequerrucha, “sua filha de uma cuca!”

Essa dona não perde a classe porque sempre tem razão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de março de 2024.

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