Cuca
fresca
Gritam, “olha o caminho”. Falam e acham que
são objetivas as suas falas. Qualquer tentativa de veicular o que pretendem
dizer com o grito é ato de perfídia. Em essência, o tradutor apresente-se,
escale os vãos das palavras. Seja denunciante de quem trabalha pelo óbvio captado,
ou pouco adiantaria o discurso aprumar-se na sinceridade do ouvinte. Por conferir
aos contraditórios a falsidade, ao leal é imperativo que a lógica prevaleça. A
ordem tácita, ‘sai da frente’, condiciona o evidente: ignore, sofra as consequências.
Voltemos ao berro. “Olha o caminho”
indica que um ciclista precisa passar. As sinapses não estão vagarosas. A consciência
trabalha essa frustração, de escutar como convém. O veloz prevê dificuldades. Quer
evitar um acidente. Não quer sair como culpado. Acertará quem obstrui a
passagem ou cairá pela freada abrupta ou só irá parar muitos metros adiante. É
preciso dar-se as condições de escolher. À pessoa que não para de pensar nos
próprios erros não agrada o papel de réu.
Em “olha o caminho” fique implícito
“filho da cuca”.
Esmiuçemos o brado. “Filho da cuca” virá
tarde. Depois de tombo, impacto, freada brusca, probabilidade da batida. Ainda
assim o mundo não tomará conhecimento desse atropelamento. Nem as pessoas que normalmente
prestam socorro saberão qual vítima tem razão.
Do rapaz ouviríamos, “vou perder o dia”.
Da atropelada ouviríamos, “está doendo pra chuchu”. A acompanhante da senhorinha
falaria, “que rapaz sem juízo!”
Ao acolhermos essa linha, e por nosso
humanismo, incluiríamos um socorrista que se limitará a trazer a maca.
A médica da ambulância examinará pés,
pernas, joelhos, as coxas. Apalpará braços. Verificará as mãos, os pulsos e os
cotovelos. Sempre anunciando o que fará, ela eliminará qualquer fratura no
pescoço.
Para não se ver incluído no imbróglio, mesmo
afastado do telefone do ponto, o taxista acenderá o cigarro, tragá-lo-á sem
pressa alguma, e, temeroso de balbuciar qualquer banalidade urbana, nem se arriscará
a formular: “está quente, hein?”
Fixemos a atenção sobre “filho da cuca”.
Pratiquemos nossa humanidade. Apaguemos
da ideia a senhorinha a orar, a pedir que a soltem da maca, a usar um colar
cervical, chorosa. Silenciemos a sirene. Suprimamos o corpo de socorristas.
Escutemos o que nos diz este “filho da
cuca!”
Quando a gente é atingida pelo pasmo,
subitamente o corpo dói. A alma dói. Gemer é uma arma. Defenda-se. Suar, tremer
e gemer, tudo é dor, a mente dói. Pelas dores que sente e pelas dores que
imagina, a gente sofre. Pelas mágoas que precisam de cura, basta de aflição.
“Filha da cuca!”, ela grita o que grita
à guria de patins por causa do susto. Embora saiba ser uma dama, a bem-educada
e bem-apessoada torna a bradar à pequerrucha, “sua filha de uma cuca!”
Essa dona não perde a classe porque
sempre tem razão.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de março de 2024.
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