Migalhas
Um pouco, só um pouquinho, me vi dando uma
força à varanda pra que não fosse vista ao deus-dará. A princípio nem me ative
ao esforço que seria varrer, fui chutando a baratinha até a escada. Eu deveria
ter recuado do impulso, mas emendei uma bicuda. Tive uma distensão, só pode ser
isso. Pelos repuxos na perna, boa coisa fez a morta em sumir da minha frente.
Depois desse apuro de fazer uma
benfeitoria sem trair a vadiagem, estou em vagabundagem domingueira, tô largado
na rede.
Mané late. Num instante, ele late que
late, e forte. O manhoso altera o latido para que eu o entenda, que ele quer aquela
voltinha.
— Vamos, já entendi. Seja compreensivo,
Mané.
Manco pelo bairro, mas não saí pra sossegar
a cachola. Está fixa a ideia de que a energia mental interfere no
condicionamento físico, pois eu posso mais do que me contentar em alisar a
barriga.
Segundo a veterinária, o meu pug e eu
precisamos andar uma vez por semana, um em companhia do outro. Entretanto,
andar como quem caminha, dando à passada o ritmo de quem se exercita porque
precisa. Pessoa consciente do bem que faz para si mesma, desdobro o bem à
sociedade. Perder a pança, os demais podem até me desafiar.
Não considero a caminhadinha dominical
um desafio. Mentalizo que descubro o dia novo em mais outro, que as descobertas
são revolução cotidiana, são novidades extraordinárias que aprendo a vivenciar.
Para o bem maior que a convivência
empática há de produzir? Ao menos por uma hora, que zanzemos sem zanga.
Mas o Mané produz fezes. Recolho os
produtos; a sacolinha vai pra lixeira. Isso que dá sorte pisá-las no passeio, isso
é balela, pois resulta fedorenta a sola do tênis lambuzada dos restos. Lixeira
é arca de ouro a varejeiras; xô!; com as alças, dou um nó na boca.
Olha-me o cãozinho, que o meu olhar não
o fulmine. Quero crer que me apresente tolerante o bastante para que o Mané
enxergue em mim a pessoa que dissemina a pressuposta camaradagem de tutor.
— Mané, não abane o rabo porque me acha
um vadio. Aceitaria ser vadio se não saísse da rede, não limpasse a varanda,
não puxasse da perna. Se vim de carona, vim porque sei o meu papel no seu
teatrinho. E dou função em público, pois sei tirar proveito da boa imagem que me
prontifico a passar.
Mané e eu paramos. Comi noventa e nove
porcento do pastel, meu companheirinho lambeu-se das migalhas.
De repente, o cão coça a orelha com a
pata.
— Não seja cínico, Mané!
Seu Rodrigues, a orelha direita está do
lado direito do corpo, o que não significa que o cãozinho insinue
conservadorismo, mau-caratismo, direitismo atávico. É saudável não tripudiar
sobre o cão ter nascido pro ócio. É positivo gozar de lucidez, pois ‘fundamentar’
não é ‘justificar’, e ‘entender’ é radicalmente menos fraternal que
‘compreender’.
— Quando me dá na telha, sou ocioso. Tenho
muita ociosidade pra ilustrar o careca que eu sou, Mané.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de abril de 2024.
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