sexta-feira, 19 de abril de 2024

Migalhas

 

Migalhas

 

Um pouco, só um pouquinho, me vi dando uma força à varanda pra que não fosse vista ao deus-dará. A princípio nem me ative ao esforço que seria varrer, fui chutando a baratinha até a escada. Eu deveria ter recuado do impulso, mas emendei uma bicuda. Tive uma distensão, só pode ser isso. Pelos repuxos na perna, boa coisa fez a morta em sumir da minha frente.

Depois desse apuro de fazer uma benfeitoria sem trair a vadiagem, estou em vagabundagem domingueira, tô largado na rede.

Mané late. Num instante, ele late que late, e forte. O manhoso altera o latido para que eu o entenda, que ele quer aquela voltinha.

— Vamos, já entendi. Seja compreensivo, Mané.

Manco pelo bairro, mas não saí pra sossegar a cachola. Está fixa a ideia de que a energia mental interfere no condicionamento físico, pois eu posso mais do que me contentar em alisar a barriga.

Segundo a veterinária, o meu pug e eu precisamos andar uma vez por semana, um em companhia do outro. Entretanto, andar como quem caminha, dando à passada o ritmo de quem se exercita porque precisa. Pessoa consciente do bem que faz para si mesma, desdobro o bem à sociedade. Perder a pança, os demais podem até me desafiar.

Não considero a caminhadinha dominical um desafio. Mentalizo que descubro o dia novo em mais outro, que as descobertas são revolução cotidiana, são novidades extraordinárias que aprendo a vivenciar.

Para o bem maior que a convivência empática há de produzir? Ao menos por uma hora, que zanzemos sem zanga.

Mas o Mané produz fezes. Recolho os produtos; a sacolinha vai pra lixeira. Isso que dá sorte pisá-las no passeio, isso é balela, pois resulta fedorenta a sola do tênis lambuzada dos restos. Lixeira é arca de ouro a varejeiras; xô!; com as alças, dou um nó na boca.

Olha-me o cãozinho, que o meu olhar não o fulmine. Quero crer que me apresente tolerante o bastante para que o Mané enxergue em mim a pessoa que dissemina a pressuposta camaradagem de tutor.

— Mané, não abane o rabo porque me acha um vadio. Aceitaria ser vadio se não saísse da rede, não limpasse a varanda, não puxasse da perna. Se vim de carona, vim porque sei o meu papel no seu teatrinho. E dou função em público, pois sei tirar proveito da boa imagem que me prontifico a passar.

Mané e eu paramos. Comi noventa e nove porcento do pastel, meu companheirinho lambeu-se das migalhas.

De repente, o cão coça a orelha com a pata.

— Não seja cínico, Mané!

Seu Rodrigues, a orelha direita está do lado direito do corpo, o que não significa que o cãozinho insinue conservadorismo, mau-caratismo, direitismo atávico. É saudável não tripudiar sobre o cão ter nascido pro ócio. É positivo gozar de lucidez, pois ‘fundamentar’ não é ‘justificar’, e ‘entender’ é radicalmente menos fraternal que ‘compreender’.

— Quando me dá na telha, sou ocioso. Tenho muita ociosidade pra ilustrar o careca que eu sou, Mané.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de abril de 2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário