domingo, 31 de março de 2024

Uma folga a menos

 

Uma folga a menos

 

No melhor da festa, cortaram o som, negaram bebida, trancaram o banheiro, devolveram os celulares, bateram a porta atrás do último que foi posto para fora. O forrobodó durou o quanto quiseram, e tchauzinho, pois, já domingo, o sol entrava em cartaz.

Aos domingos, depois da missa das dez, Dona Cremilda vem pôr a prosa em dia. Quando desconverso, ela não pestaneja. Provavelmente surda às palavras carbonárias do pároco, seu teste sobre o estado do humor são as cosquinhas na carapaça: se este bicho só franzir a testa, estou natural. Ela nota que minha testa franzida é dissimulação, porque o mel do meu sorriso não vem da boca, deito-o com os olhos.

Poético. Contudo, por me conhecer há anos, Dona Cremilda ignora a minha lábia e, direta, aborda o que lhe é importante.

Começa pela saúde: se melhorei da tendinite, se estou tomando os remédios, se quero companhia pra ir ao médico, se marquei a consulta, se eu ainda tenho anotado o telefone da clínica.

Pra coisa certa ser feita, ela pega meu telefone, salva o número da clínica e agenda o alarme para nove horas do dia seguinte.

Muito me apraz a sua presença. Não há domingo que não venha. A cada vez, embora não a afete, peço que não se preocupe, pois os seus cuidados com os outros vai envelhecê-la mais rápido.

Porque vai almoçar na casa de um primo, ela abreviará a visita.

— Que coincidência! O meu primo também completa 60 anos neste 31 de Março. Bem no dia que comemoramos a derrota dos comunistas que pretendiam escravizar a nossa gente.

— Mas, o golpe não foi...

— Cabeçudo, não discuto com gente que não ouve.

Não, ela não sabe quem é Elio Gaspari. O presente ela já comprou, O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota.

Não sou de tergiversar, mas abro exceção à Dona Cremilda.

Depois de três anos de amizade, não gosto de espezinhá-la só para vê-la bufando. Favorece-a ter semancol. Controlo o sarcasmo. Quando meu fígado está prestes a apoderar-se da minha boca, ela conta piada. Infame ou engraçada, tanto faz, pois recolho os meus caninos.

Ontem, entretanto, mostrei-os ao Honório.

Aos sábados, antes do almoço, quero relaxar. Ou escrevo pouco ou nem começo a escrever. Se sobram as palavras, me interrompo.

Deito no gramado. Nem sei por quanto tempo fico vendo as abelhas voejando. Me divirto. E faço as abelhinhas abusarem, ficarem doidonas com o pólen a mais que o habitual.

Todavia, veio o Honório falar o que tinha pra falar.

Que à porta do bar, um bebum vestido de verde e rosa gritou:

— Olha a mangueeeira, geeente!

O enterro passava. Houve irritação. Os mais irritados rezaram com paixão. Um dos carregadores do caixão deu com um pé na mangueira que cruzava a rua. Com o caixão indo ao chão, foi aquela comoção.

— Bem que eu avisei; arrematou o pinguço.

Sem pigarro nem soluço, sério no sarro, eu disse:

— Honório, de coração! És o finório da contação!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de março de 2024.

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