domingo, 21 de abril de 2024

Retrato do cronista como cão danado

 

Retrato do cronista como cão danado

 

Ainda que os cientistas não tenham instrumentos para calcular com que regularidade dá-se a sua ocorrência, no norte ocidental do Oceano Atlântico, a figura recorrente do Triângulo das Bermudas tem vértices fincados em Miami, Porto Rico e nas Bermudas.

Bermudas é topônimo forte, que ilumina a busca nos mapas-múndi, além de qualificar como cafona o visitante desembarcar no território de terno ou tailleur.

A 6.492 km do marco oficial colocado no parque Albuoy’s Point, em Hamilton, na Grande Bermuda, o sumidouro a que consigo chegar sem morrer tentando é o cruzamento à esquerda de casa.

Às segundas, após o trabalho, no boteco menos agitado, na euforia de regurgitar abobrinhas, assim que o meu cérebro começa a fundir o avesso no direito, o sumo é dar no pé, daí, eu sumo.

Se eu tenho que me ausentar de corpo presente, bêbado ou sóbrio, eu murcho na presença de quem vive de chateação. Ainda com sol, os chatos amolam porque eu estou descalço; ao me pegarem de bermuda na madrugada, os estridentes rejubilam-se, estarrecidos. Temperantes ou ébrios, tais aporrinhadores são cambada desmancha-prazeres.

Segundona de garoa fininha, com a batota de boêmios no batente, o ambiente está preparado pra receber os chatos mais chatos que todo mundo rechaça. Porque aparecem, faça-se a graça de outra rodada; a eles não havendo copos lavados nem banquetas livres.

Com três deles à mesa, isolados no fundo, não conversam, opinam; sentenciam, não debatem; ainda que não tenham razão, são coerentes o tempo todo; carentes de ser ouvidos por toda gente, discursam.

Nós seguimos iguais. Ao jogarmos conversa fora, bebermos cerveja e beliscarmos salaminho, sem ambição de sermos odientos, mofamos de quem corta nossa prosa mansa.

A TV concentra. E criticamos as linhas míopes do VAR; saudamos o Dulcídio Wanderley Boschilia, lembramos Romualdo Arppi Filho, mas não fazemos menção ao Armando Marques; com extrema simpatia, de Santos e Portuguesa, os penalizados campeões do Paulistão ‘73, não rimos de ambos, e, apesar de terem acatado o decidido pela FPF, não os menoscabamos.

Saem os três do fundo; faço o mesmo, mas digo boa-noite.

Não sei que bicho me pegou. O quarto roda, a cama roda, a cabeça roda. Enrolo a língua ao falar não sei que bicho me mordeu. Babo que molho a fronha, viro o travesseiro, livro-me dele, e rodo sem parar.

Babar ou salivar?

Tomo uma ducha, a minha ducha rápida vira banho. Sento no box, sinto estar numa banheira. Ficarei sentado até que abra os olhos sem ter vertigem, sem ânsia, sem querer ligar pro amigo mais amigo pra lhe dizer, não vi quando batizaram a minha cerveja. A ele não confessarei que poderia ter visto os paspalhos como cães do inferno, que eles não eram três, são um. Com antirrábica em quatro doses, doravante serei eu o Cérbero, nem agulha vai passar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de abril de 2024.


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