O
terceiro pio
Lá vem outra fábula com duas corujas
discutindo sobre a liberdade de expressão nas redes sociais quando uma terceira
acredita piamente que a solução é não ter conta em plataformas digitais, uma
vez que no boteco da esquina ninguém tem obrigação de assinar contrato de uso
nem precisa pedir amendoim para falar o que pensa.
Penso. Só não estou seguro de que penso
por fidelidade a mim ou ao que anseiam ouvir os meus semelhantes. No entanto,
penso e digo: de olhos vendados, não vou atirar ovos em terceiros.
Para que não haja dúvidas, especulo mais
um bocadinho.
Entre gente amiga, eu vou fundo, radicalizo,
extrapolo, tento tirar a paciência, levanto a voz, mas é um jogo, é somente um
jeito de testar os limites da amizade, do amor, da inconveniência ou
conveniência de desafinar os coros, quaisquer, os básicos e os ácidos.
Entre estranhos, quando o meu bem-estar
fica por um fio, por uma palavrinha a mais, trato de explorar o que me irrita, eu
sondo o que me desassossega, esmiuço o que não me alivia, ainda que os ovos deixem
de ser comestíveis, pisoteio-os.
Para que a fábula não retorne ao papo
como se uma jararaca viesse fazer picadinho daquelas corujas, já ébrias de
prosseguir tendo razão em tudo que falam, imagino-me na pele da personagem do
Christopher Walken no filme Na hora da zona morta, porque, depois de
cinco anos em coma, ela acorda podendo prever o futuro.
Não antevejo o que ocorrerá no próximo instante.
Há duas pessoas falando do campeonato
inglês. Cada uma faz sua aposta de qual será o campeão.
Com a Premier League perto do fim, queria
ter um cartão de crédito internacional. Como não tenho, estou impedido de
apostar. Deixarei de ganhar dinheiro com o clube que levantar o troféu.
Pelo que dizem, a disputa está quente.
Há três times em condições de chegar ao posto mais alto da tabela. Pelo que
entendo, o pódio vai estar completo: ouro para o campeão e prata para o vice.
— Ganhará o Liverpool porque gosto muito
dos Beatles.
— Ganhará o Arsenal porque tem um Jesus
brasileiro no elenco.
Penso, e gosto de pensar que futebol é
diversão. Ainda que os vinte e dois jogadores não consigam ignorar a equipe de
arbitragem, muito me entretém assistir a uma partida bem disputada.
Com gols, bolas na trave, cabeçadas
certeiras, defesas milagrosas, marcação cerrada, brechas surgidas por toques de
gênio, um amarelo ou outro por conta de empurra-empurra, um 0X0 que não deixa a
gente sentada, o 1X0 emocionante até o último escanteio, algumas goleadas surpreendentes.
Que mais eu posso pedir?
As duas pessoas me levam a debicar: esta
é a última temporada do Jürgen Klopp como técnico do Liverpool, torço que
vença; já o Arsenal não ganha um título há vinte anos, está na hora de vencer;
o Guardiola faz história à frente do Manchester City, quero que os citizens
vençam pela quarta vez seguida, feito inédito.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de abril de 2024.
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