terça-feira, 9 de abril de 2024

O terceiro pio

 

O terceiro pio

 

Lá vem outra fábula com duas corujas discutindo sobre a liberdade de expressão nas redes sociais quando uma terceira acredita piamente que a solução é não ter conta em plataformas digitais, uma vez que no boteco da esquina ninguém tem obrigação de assinar contrato de uso nem precisa pedir amendoim para falar o que pensa.

Penso. Só não estou seguro de que penso por fidelidade a mim ou ao que anseiam ouvir os meus semelhantes. No entanto, penso e digo: de olhos vendados, não vou atirar ovos em terceiros.

Para que não haja dúvidas, especulo mais um bocadinho.

Entre gente amiga, eu vou fundo, radicalizo, extrapolo, tento tirar a paciência, levanto a voz, mas é um jogo, é somente um jeito de testar os limites da amizade, do amor, da inconveniência ou conveniência de desafinar os coros, quaisquer, os básicos e os ácidos.

Entre estranhos, quando o meu bem-estar fica por um fio, por uma palavrinha a mais, trato de explorar o que me irrita, eu sondo o que me desassossega, esmiuço o que não me alivia, ainda que os ovos deixem de ser comestíveis, pisoteio-os.

Para que a fábula não retorne ao papo como se uma jararaca viesse fazer picadinho daquelas corujas, já ébrias de prosseguir tendo razão em tudo que falam, imagino-me na pele da personagem do Christopher Walken no filme Na hora da zona morta, porque, depois de cinco anos em coma, ela acorda podendo prever o futuro.

Não antevejo o que ocorrerá no próximo instante.

Há duas pessoas falando do campeonato inglês. Cada uma faz sua aposta de qual será o campeão.

Com a Premier League perto do fim, queria ter um cartão de crédito internacional. Como não tenho, estou impedido de apostar. Deixarei de ganhar dinheiro com o clube que levantar o troféu.

Pelo que dizem, a disputa está quente. Há três times em condições de chegar ao posto mais alto da tabela. Pelo que entendo, o pódio vai estar completo: ouro para o campeão e prata para o vice.

— Ganhará o Liverpool porque gosto muito dos Beatles.

— Ganhará o Arsenal porque tem um Jesus brasileiro no elenco.

Penso, e gosto de pensar que futebol é diversão. Ainda que os vinte e dois jogadores não consigam ignorar a equipe de arbitragem, muito me entretém assistir a uma partida bem disputada.

Com gols, bolas na trave, cabeçadas certeiras, defesas milagrosas, marcação cerrada, brechas surgidas por toques de gênio, um amarelo ou outro por conta de empurra-empurra, um 0X0 que não deixa a gente sentada, o 1X0 emocionante até o último escanteio, algumas goleadas surpreendentes.

Que mais eu posso pedir?

As duas pessoas me levam a debicar: esta é a última temporada do Jürgen Klopp como técnico do Liverpool, torço que vença; já o Arsenal não ganha um título há vinte anos, está na hora de vencer; o Guardiola faz história à frente do Manchester City, quero que os citizens vençam pela quarta vez seguida, feito inédito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de abril de 2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário