terça-feira, 30 de junho de 2020

Cronicamente humana


Cronicamente humana

Por amor à humanidade, quem poderia muito bem estar narrando a crônica está meio inquieto, andando pausadamente, disposto a não despertar a curiosidade dos passantes. Pois é, a pessoa que poderia estar narrando está numa esquina movimentada da avenida, ali, num lugar estratégico, bem na entrada daquela galeria em que se vendem camisetas com os mais quentes slogans políticos do momento e há aquele restaurante cujo chopinho vem com um colarinho densamente saboroso. Sim, sim, o ponto é deveras relevante para observações de campo, porque todo tipo de gente não para de passar. Ou seja: basta um pouco de paciência, olho clínico para a coisa e, voilà, obtém-se o registro do que realmente interessa. Por isso, pelo amor ao próximo e à bisbilhotice mundana, quem fica se ocupando com a fisionomia dos transeuntes não faz caso de contar.
Em vez desta prosa que pisca à amiga leitora e ao amigo leitor, a pessoa dedica-se a acreditar que está oculta atrás do recato da sua presença. Contudo, as demais que se veem obrigadas a desviar não resmungam nem gastam saliva com impropérios ou zombarias.
Elas procuram evitar quaisquer tipos de choque, o frontal quando desatentas ou os esbarrões, uma vez que a pessoa que deveria estar mais esperta fica viajando por um universo paralelo.
Aparentemente, pois a pessoa solta um palavrão assim que ouve alguém questionando a razão dos ônibus lotados em plena crise do corona, como se houvesse um quê de loucura coletiva em insistir em ganhar dinheiro para o pão com queijo de cada dia.
Pensando melhor, mesmo o pão de queijo que está comendo tem o sabor indigesto de algo bom feito na hora errada. A pessoa que não está narrando quer doar o saquinho inteiro, comendo só aquele que já tinha dado uma boa mordida. Afinal, é preciso ter consciência.
Assim, certa de ter passado a agir para o benefício da sociedade em geral, ela acende um cigarro e senta-se para fumar sem pressa. De pernas cruzadas, pigarreando de vez em quando, cuidando limpar umas sujeirinhas embaixo das unhas, passa a escutar o que a fila da lotérica anda comentando.
Alguém reclama, com o ardor dos inconformados, que uma vizinha que vende bolo caseiro no portão lá do shopping vem recebendo sem atraso a parcela emergencial do governo e ela nada de ver pingar um tostão na conta, mesmo tendo feito o cadastro com dois nomes, o de solteira e o de casada.
A pessoa que não está narrando, por uma solidariedade exemplar, acha legítima a indignação da mulher que critica a incompetência do governo que nem para ajudar quem mais precisa faz isso direito, na rapidez com que a fome vem comendo os estômagos do país.
Precisa ter atitude.
Mesmo que pensem que está sendo espertalhona, a pessoa que gostaria de estar narrando escreve num pedaço de papelão:
OUÇO AS SUAS DORES.
E uma meninota corre ser a primeira.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de junho de 2020.

domingo, 28 de junho de 2020

A coisa certa


A coisa certa

Peraí, quer dizer que você faz uma coisa de cada vez? Age assim pra não gerar confusão? Pra dar conta do pouco tempo que tem? Ou quer acreditar que consegue manter-se sóbrio?
Um momento. Respire, pense.
Eis o ponto no qual há duas ações simultâneas: pensa enquanto respira. Acrescente-se: envelhece. Vive numa embolada só. No ritmo que você dita a si. Além do pensamento, da organização das ideias e do entendimento consciente. Para que haja consenso em aceitar que pensa, age ao pensar e põe em palavras.
Atos, palavras e pensamentos, até no dissenso.
Nesse ínterim, ocorre-lhe:
“Sabe aquele ambiente do tipo confronto eterno num cubículo sem saída? Haja peleja, haja resistência. Daí alguém sucumbe, entrega de bandeja. O outro não vence, ele tripudia. Sem vitória a ser celebrada. Sem conquista a ser comemorada. Há o peso tacanho da submissão imposta. Não há bravura nem coragem. Prepondera o ato autoritário, vil, humilhante. O oco do osso, o sombrio do fechado, o ar que some, que asfixia, e extermina. Então, que haja a retratação, uma vez que o horizonte revela-se o confronto moral num poço sem justiça”.
Foi para ficar embriagado, não de palavras ou de sensações, com a cerveja? Em plena quarentena? Voltar do boteco neste estado? Pra ficar falando nada com nada, um palavrório estúpido?
E aqueles livros que sempre esteve a fim de ler? Por que não os ler agora?
Primeiro: A Peste, de Albert Camus. As circunstâncias já bastam. Se está vivendo a clausura por recomendação científica, a sanidade pede não cavar mais funda a caverna onde pressente o enfarto.
Não lerá.
Porque sente o coração na boca, a veia tensa do pescoço, a nuca dura. É preferível não riscar o fósforo. Acender a vela para quê? Para deixar menor o cárcere; pra consumir rapidamente o ar que resta.
É lógico: fica difícil ler O Doente Imaginário, de Molière.
Enfim, como estátua viva que faz da cadeira cativa seu pedestal, o narciso pouco dado aos zumnidos da família correu chorar da própria desgraça. Não queria expor a barba rala aos escrutínios da tia metida à modista, mas, sem máscara pra ir bebericando sua cervejinha, até agradece quando notam o cavanhaque grisalho que tem cultivado no isolamento. Lá pelas tantas, chupando caroço de azeitona, passa-lhe pela cabeça o xeque-mate: será que vírus roda ou vomita?
Bebendo... Bebendo... Babando.
É melhor voltar. Não adianta ficar onde não querem que fique.
E já está até vendo que vão contar tudo. Como falam. Falam pra caramba! Será possível?
Eis as duas brincando no cercadinho. A menina pega do chocalho para bater na testa da outra. Não são gêmeas, parecem. Há diferença de meses entre elas. Trocam tapas, puxam cabelo, abrem o berreiro. Alguém ri da briguinha. Lilith com Eva, dizem ao fundo.
Será que disseram isso mesmo?
Como tombo não é pirueta, vai direto pro chuveiro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de junho de 2020.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O sabor do tempo


O sabor do tempo

Na mão esquerda uma laranja, vistosa de tão apetitosa; na outra, tão cheia de dentes que dá medo, uma faca. A quem o veja naquela pose talvez ocorra que esteja pensando na morte da bezerra. E que bezerra será essa que possa ter a cara à vista de quem lê?
O homem retirado da previsibilidade, posto que suspende o tempo ao gerar o vácuo do instante, de pergunta sem resposta, ele está se questionando: haverá jogo mais fútil do que, ao ver-se constrangido a dizer o que nem pensa, acabar ridicularizado por atender a vontade alheia ao presente?
O homem que se descobre submisso à tamanha inquietude que o paralisa, ó doce ilusão, assegura-se íntegro ao afigurar-se o pensador com a faca e a laranja nas mãos.
Sim, um coração como o dele, de homem que se revela parado a sustentar o gesto de abandonar-se aos próprios devaneios, ele pulsa a criança implicante quando há tentativas de cerceamento.
Sim, o homem alimenta-se da infância que traz dentro do peito, na bufada a contragosto, na arrebentação do ar para fora, que o suspiro vem com a pujança de menino contrafeito.
Este sentimento rebelde acorda-o para o mundo desconhecido, de inexperiente afeito aos sustos do aprendizado, de quem surpreso ao desvendar viva dentro de si outra pessoa.
A pessoa que se permite estar consigo mais do que um segundo nem liga manejar a lâmina a favor, no corte preciso, para que a casca retirada libere o desfrute do sumo da laranja, como sobremesa sutil.
Quer a satisfação do fruto maduro, a felicidade de fruta colhida na plenitude. Sem a pressa a qualquer preço, que azeda de ácido.
No abismo do desamparo, feito pedra no tênis, a realidade dispara a imagem que incomoda: o fogão. De fato, aquilo está imundo.
A pessoa que resiste teve mesmo que aprender por si a ser dona do próprio nariz, do tempo que pode dar a si, da laranja e da faca nas suas mãos, porque o mundo vai em frente, então, que siga, prossiga e vá como lhe aprouver.
As veredas de sua mente estão respirando pelo corpo tenso, com o mistério do reconhecimento do mesmo ser que tivera cabeleira de menino, dentes de leite, joelhos sem cicatrizes, miopia em dicionário, e a alegria de poder diferenciar a lima do limão.
Outra vez, interpondo-se como formiga cortando barata morta, tem a imundície do fogão a primazia do nojo. E enojado, suspira. O ombro prevê o esforço de esfregar o desengordurante com a buchinha e, por necessidade, pedir o reforço da palha de aço. E tasca mais a química do sapólio, da água sanitária, numa trabalheira do cão.
Mas, além disto?
Já que o tempo não para, o homem entrega os pontos, aceita que ficar corroendo-se não vai impedir o desenlace, o que vem.
Entre a humilhação do agrado que motiva o desprezo e a firmeza na integridade que preservará a dignidade, o homem chupa a laranja com bagaço e tudo.
Tudo? É certo que as sementes dão gosto de futuro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de junho de 2020.








terça-feira, 23 de junho de 2020

Mensagem expressa


Mensagem expressa

Ótimo! Levantara antes das seis. Leu os jornais de ontem que não tivera tempo. Tomou o desjejum. E, como quem sabe o que tem pela frente, cuida do dia.
Faz o trajeto de sempre. Sobe em direção à praia. Engraçado que a topografia da cidade contradiz as expressões do cotidiano: todinha plana, como subir?
Sem mais, vai pela rua onde fica o prédio, dobra à direita, dobra à esquerda, mais outra quebra à direita, e chega ao supermercado.
Pega o pão, integral na promoção. Queria ter forças, mas os olhos alcançam o descontinho do refrigerante de cola, mas dois? Retoma a lista, e escolhe a alface mimosa, e seleciona tomates quase maduros, e, inebriando-se, cheira laranjas, peras e maçãs.
Feita a compra, refaz o percurso, em sentido inverso.
Somando tudo: ida e volta; espera na fila do caixa; três palavras, à porta do edifício, com o zelador; higienização do que trouxe; livrar-se das roupas; banho tomado: trinta e três minutos.
O resumo do dia, conforme narra ao telefone.
O que o nosso bom informante não diz? Enfim, lupa não é para ler melhor o que se põe invisível a olho nu? Topamos o desafio?
Então, o cronista foi às compras, cumpriu o propósito de fazê-las e sentou-se sossegado, com um suspirozinho de dever realizado sem a afobação dos ansiosos.
No entanto...
No entanto, a boca que nada esconde nem se lembra de relatar que topou com uma pessoa conhecida na esquina do mercado.
E ela estava entregando a um rapaz malabarista de semáforo uma quentinha do restaurante onde eventualmente se esbarravam antes da Covid-19 impedi-los de tal socialização.
Mais ainda, a alma boa gentil que oferece comida estava sorrindo, como se pandemia não houvesse, como quem ama o próximo sobre todas as desgraças deste mundo.
O que o narrador da crônica também não quis falar é que a cidadã veio sorrindo, de braços abertos, louca, muito louca, sem a máscara da resignação e sem o gel da prudência. Evidentemente, motivada a compartilhar o sentimento de bem-estar, apesar do corona. Doida, tão doida, que se sentia livre o bastante para contaminá-lo com aquela alegria ávida de viver.
Foi portanto, à vista disso, que o fraterno mas nem tanto recuou; o fez num sobressalto, assim convicto de manter-se longe o suficiente para demonstrar a sua resoluta desconfiança da terapia do abraço.
Poxa, o sujeito é bacana, tenta ser útil como pode, mas deve fazer o que recomenda o senso científico do painel da moça da TV.
Logo, ao contar as novidades, melhor nem tocar no assunto. Para que botar mais medo em quem já tem o seu quinhão, de gente lúcida com leve hipocondria.
Concluindo: com o seu pijama amarelo candidamente pendurado no varal, o careca detalhista nem menciona a loja apinhada de caras terrificadas, uma vez que aqueles vinte e sete graus do solstício estão anunciando um dos mais tórridos invernos do século 21.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de junho de 2020.

domingo, 21 de junho de 2020

Dia de sol


Dia de sol

O domingo amanhece com aquele céu azul, umas nuvens tímidas a salpicar o horizonte. Como crônica antiga caprichada na emoção de sentimentos à tona, a página disposta feito espaço livre ao poético na veia da escrita. Daí que esta combinação do azul com o branco leve a pensar que: sim, é possível que o mundo continue encantador.
Entretanto, nem só de encantamentos vive-se.
O chato da vida pode estar em ficar pensando sobre o que fazer, quando, na verdade, em algumas circunstâncias nem dá tempo para isso. Ou vai ou racha, sem as finuras de meio-tom. Não há abafa que silencie nos olhos o grito de quem já está à beira da loucura.
De tanto pensar, pensar, pensar? A restrição impõe-se como ideia fixa: cérebro trabalhando. O confinamento dita o ritmo do tempo que a cabeça preenche com falta de humor. O isolamento, portanto, é uma condenação a rotinas impensadas. O réu nega as suas culpas, pois os seus erros não passam de enganos. E ninguém em sã consciência vê-se como digno disso que o mundo está propondo. Dor, sofrimento, desconforto, o futuro preso a indefinições. Daí que o presente travou, feito página que, nos dias de internet discada, rodava, rodava aquele:
CARREGANDO...
Ficasse nisso, a manhã engasgaria. Mas as maritacas gracejaram; os casais se amaram; os corredores voltaram do calçadão; e o ar do apê foi ganhando os timbres de frango no forno, molho no macarrão e embriaguez do satisfeito.
Então, sem dar trela de si, o oxigênio vai circulando de norte a sul, da cabeça aos pés. Pondo-se a degustar o disco inteiro, Até Sangrar da Áurea Martins, toma-se de surpresa. A cada verso, achando bem esquisito que “o mundo inteiro fez-se tão tristonho”, que o seu "retrato fica às vezes tão sisudo, porque não compreende tudo”, como se a vida estivesse dizendo “que ficou para impedir que a loucura fizesse de mim um molambo qualquer”, que “há de ver cheio de horror que no fundo do seu peito existe um sonho desfeito”, que “vive uma vida de louca, de sorriso na boca e uma lágrima no olhar”. E, por sinal, de olhos fechados.
O destino falando com ele, uma pessoa qualquer, com problemas e alegrias de gente comum, cuja mortalidade zanza pelo fio invisível que suspende o instante, numa perplexidade que angustia?
A sua mente solta do nada: volte à vida, tire o pijama!
Pijama? Como não tem nenhum, vai ter que comprar um.
E os pelos das pernas ficam eriçados, só de pensar em ir atrás de um pijama novo, bonito, colorido. E de que cor? Nem vem com a ideia de vermelho que isso é coisa de esquerdopata; nem verde-amarelo, que é para minions trogloditas.
Faça a escolha consciente.
O algodão menos traumatizante, a estampa floral mais calmante e o tamanho justo para o físico da criatura que é.
O bicho que, no presente segundo, cochila. Sim, existe coisa mais importante do que vestir um pijama: tirar uma pestana no sofá.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de junho de 2020.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

A próxima crônica


A próxima crônica

Muito me engano por acreditar no que faço?
Como resposta, retomo as palavras que estão num texto que se afogou numa entrelinha qualquer: “Por não ter o que dizer, digo. Não me preocupo com a mensagem a passar, escrevo. Ponho no papel o que o texto vai propondo. Feito, debruço-me sobre o escrito”.
Mas, como a cachola tem mais coelhos que os olhos possam ver, retomo o fôlego, recupero os sentidos e trato de me retratar, pois isso talvez me ajude a pensar com vagar, pondo na reflexão o cuidado de alisar as rugas, puxando o fio que se enovela com facilidade, dando o simples como bem acabado. Possivelmente acabado, no instante em que o ponto surge como limite definidor do que tinha que ser dito.
Não escrevo para me sentir bem, eu escrevo. Não me sinto bem depois de escrito? Até posso me sentir bem, mas não a princípio. Não escrevo porque acredito estar fazendo um bem, nem confio assim no que escrevo. Volto a dizer, escrevo. Entre escrever e acreditar, então, borbulham a autoestima, a autoconfiança e a vaidade.
Das três, preciso confiar em mim o bastante para estar atento ao que o texto quer dizer, independentemente de minhas crenças, de me afiançar depositário fidedigno de que possa estar agindo em nome de um bem a ser feito. Como se minha palavra fosse mesmo uma fonte confiável o suficiente para assegurar a validade da mensagem que o texto aparentemente quer transmitir a quem lê.
O texto diz o que tem para ser dito como precisa que seja dito.
Em outras palavras, as minhas habilidades e competências, como escritor e de escritor que lê o próprio escrito, podem e precisam estar a serviço da escuta do que o texto diz. Não posso nem preciso fazer com que o escrito diga o que quero ouvir. Meu trabalho é possibilitar que o texto tenha voz própria, que a linguagem torne-se esta voz, que as palavras digam o que nem acredito poder dizê-las enquanto estou escrevendo. Afinal, o texto vai deixando-se dizer; e, depois de escrito, torna-se outro, dizendo o que tem para dizer a quem o lê.
Não sou quem faz, estou no que faço. Estou a fazer-me. Enquanto faço, faço-me. Mas, ao fim e ao cabo, não estou inteiramente aí. Não como abreviação de mim, pois não sou o que fiz de mim enquanto ia fazendo. A fabricar-me com ideias, palavras, atribuindo valores, tendo umas certezas, voláteis e significativas.
A escrita do escrito diz que o escritor existe enquanto escreve.
Nem ontem nem amanhã, no ato.
Pondo-me à disposição do que ando compondo.
Nada menos que o processo, o movimento, este ir-se que não se percebe, passando pelo que não se vê, e vai seguindo pelo que não se sentia até então. Do inaudito pelo interdito, o inédito. O trânsito, o transe, a transmutação. O inventar-se como quem sonha, o sonhar-se como quem deseja, o desejar-se como quem se inventa.
De novo, e de novo. Não para que chegue, mas para que venha.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de junho de 2020.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Com pirações



Com pirações

Onde o pirado tem razão?
No coração, quando quebra o gelo. No colchão, ao tirar onda. No chão, lambendo lentilhas. No pirão, tascando pimenta.
Precisemos a nossa teoria para prosseguir respirando.
Como quem trepa pelo arco-íris: passemos pelos pastos de ouro; batamos no touro que o touro é de vidro; fujamos do louro que o louro é tingido; esperemos que suba o fumo da quimera, que a queimemos vinte, cinquenta, cem ou mil, num ódio, fogo que nem se nota.
Com estátua fingindo-se de morta, abusemos. Rindo na cara dura. Passemos dos limites. Afinal, memes não desmentem os fatos.
Que felicidade termos impunidades. Gozemos exercitá-las.
Sem nojo, tratemos de calçar nossos inimigos com botas, botinas, coturnos, sapatos e sapatilhas, porque a lama pegajosa não está nos pés que querem andar o mundo, está na língua de quem deplora.
Com motivo de sobra? Seus 80 anos em abril.
Coisa boa.
A luta de classes castra só os marxistas comunistas de uma figa, passando por sobre trotskistas, humoristas e tantos vigaristas santos. Portanto, endireitemos a coluna, avancemos na contramão, vigiemos quem por nós nos vigia. Façamos nossa a vingança a quem nos quer enfurnados, virtuosamente refinados.
Façamos o instante. Chega de ficarmos no escuro da sala. Sim, já reparamos que os outros é que matam. Assim, vivamos com alegria, uma vez que contentamentos anulam o isolamento.
Rasguemos o filó às moscas da malária, dengue. Sem amarelar.
Deixaremos que uns moleques, atrás de lentes de araque, grudem suas melecas nas nossas cadeiras? Deixaremos que a brisa do mar nos envergue como caniços ao luar?
Basta. Chega de servir cafezinho a quem pede adoçante.
Viva. Queremos agora aquela xícara de café quentinho, acabado de passar, fumegando de bom, reconfortante. Façamos por gosto que a beberagem atice-nos a correr ruas, praças, praias e quiosques.
Bebamos num gole. Bebamos de uma vez por todas.
Lutemos pelo luto na hora certa. Vaguemos pelo lado raso da lua. Gritemos por silêncio quando o mundo estiver berrando.
Urinemos na flor do cacto. Odoremos por ofício. Espinhemos.
Debaixo do cimento que assenta o pedestal do ilustre apedrejado, há pegadas de lobos, lascas de unha de jaguatirica, fiapos de túnica de pessoas mortas. Como o peso da realidade cobre o que se ignora, o realismo túrgido bem dramatiza o que não se sabe.
Se o láudano é ladainha, o cantochão é cantoria.
Desliguemos as TVs. Silenciemos os rádios. Rasguemos jornais.
Com o mordomo atento ao dono, mesmo morcegando de sono?
Toquemos a mesma nota, até que ela vire a tônica. Que o mantra congele o mocinho no papel de anjinho. Que o canto retire o manto a quem quer o frio. Azarões, deixemos de mugir como galãs.
Cadê a graça? Quem ri desde o começo, desmanda.
Patologicamente armados com o riso, entremos de cara na torta:
Coringa na cabeça!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de junho de 2020.







domingo, 14 de junho de 2020

Hora da faxina


Hora da faxina

Comecemos pelo homem de quatro, entregue à banalíssima tarefa de esfregar o chão que fica debaixo do fogão. Como cozinhar com os fogareiros imundos, gordurosos, repugnantes?
Dispensemos acompanhá-lo.
Entremos pela imagem bucólica, nostálgica, amorosamente pueril: a criança petrificada pela câmera, que o fotógrafo das muitas famílias ibiunenses mantinha a postos: por tripé profissional, lente correta e a luz alfabetizada pelos dois guarda-chuvas pintados de prata.
Reparemos na postura do menino.
Com o cabelinho escorrido da esquerda para a direita; com os pés no ar, porque o corpo está apoiado numa trave de madeira, como se o objeto replicasse os bancos de igreja.
Para que sujar a calça de tergal naquela pose, não fora o bastante ter obedecido ao senta-levanta da missa dominical?
Admitamos, todavia: há semelhança com um confessionário. Com o padre para lá da treliça, e o pecador a elencar, de joelhos, as ações vexatórias, deveras merecedoras de divinas correções.
Uma vez que o preto e o branco do registro não escondem os idos de 1974, ano da primeira comunhão do referido pirralho, realcemos o terço envolvendo o livrinho a catequizá-lo para as castidades futuras, conforme às boas-novas da performance do padrão.
Se houvesse aprendido que o probo não peca, diríamos mínima a probabilidade de ato tão infame posto em outra foto da personagem enfocada: novamente ajoelhada, a perpetrar aquele sorrisão de quem gargalha, blasfema, em desrespeito que dá engulhos só de admiti-lo, já passados doze anos, tempo da maturação de um Chivas original.
Enfatizaríamos que a dita cuja pessoa andava abjurada por Minas, nalguma igreja histórica, diabolicamente nada contrita, como a dizer a quem pesque sua mensagem: sei bem com quantos escravos o ouro rococó mantém-se de pé para embasbacar os fariseus.
Aviso: o narrador dá fé que não subscreve tal pensamento.
Continuemos, portanto.
Havemos de concluir o passeio por umas fotos retiradas ao museu do tempo com o acaso do flagrante capturado, em junho de 2020, por Nuno Ferreira Santos, jornalista do Público, o qual dá-nos a ler que: a estampa ostenta o vigário que empunha a Cruz-sem-Cristo mais três curumins: um, em pé, junto à perna direita; outro, igualmente em pé, à esquerda; o terceiro, o que motiva a pô-lo em palavras, o avesso ao paralelo da simetria ao Vieira possesso, o rubro da pedra que acorda, o que bate no palco Trindade Coelho, ele é.
À vista disso, imbuída de veementes aviões, coléricos caminhões e amazônicos fogões, esta crônica denuncia que apenas aquecendo a Terra para que leviatânicas águas recubram a Candelária do Rio.
Assim, faz-se escandaloso o adiamento de mergulhar a escadaria ou haverá quem finque o pé em não reconhecer a beleza civilizatória, turística formosa de um coral, este bem natural.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de junho de 2020.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ensaio ao vivo


Ensaio ao vivo

Quando o palco continua ocupado por uma noite que não acaba, o sonho pede outro fôlego.
As esferas do mundo vão girando à vontade, lá delas, cuja lógica foge ao entendimento da pessoa que observa a rua. Da sacada, onde se imagina protegido de febres, fezes e garras, dali o olhar insone, de escandalizada miopia, vê o imprevisível jorrar do nada. Fosse mesmo útil, pagaria pelo passível da obediência ao calendário que a folhinha mantém domesticada, iria dirigido pelo fluxo.
Por contaminação doentia, por conta desta planetária calamidade sanitária, vai a desconsiderar que portas servem a entradas e saídas. Se jura o que sabe, barganha o que pode; assim, com sua cidadania presa aos rodopios da vertigem, saca que tipo de franquia devota às agências, e pena.
Em outras palavras, o animal acuado padece de tanta angústia, do iminente adiado mais um tanto, da falta de ar que desespera. Afinal, o elástico, uma vez submetido ao ímpeto que o estressa na medida do suportável, desajusta-se, perde a plasticidade, acaba distendido.
Menos controlável, o vento não sopra. As águas do dia correm no meio-fio, movidas por regras desconhecidas, imemoriais, de origem caótica. Pouco compreensível com as leis da natureza, mostra-se.
Assim, de umbigo lavado, unhas cortadas, tomando ar, vendo sua rotina tomada de outras normalidades, a mente da pessoa precisa de um tempo. Nem que seja só por um segundo, uma coisinha besta que nem mosca percebe atraente, merecedora do azul de suas picadas.
A perda do equilíbrio entra pelo passivo de um incômodo maior do que o rendimento da esperança, aí, quando a memória destila algum sentido. É neste trecho, neste ponto em que o dinheiro: compra o que pode; venda o que deve; apaga o que tolera; ascende o que aceita; e o que oferece, segrega; o que precisa, segreda; o que toca, silencia. Há repasses que atormentam, alucinam, transfiguram.
Agastada, por haver-se no quinhão dos vencidos, busca saber-se: será cínica a pessoa que só admite a hipocrisia ao renegar os vícios enquanto os pratica?
O corpo que sente o senso está lembrado que a manhã de ontem teve outra levada. Tinha sol. As máquinas mudaram o chão com novo piso: asfaltaram-no, alisaram-no, compactaram-no.
No bemol da terça às três, dá tônica o sustenido.
Do outro lado da rua, na varanda com plantas e cadeira de praia, ali está o homem. Debruçado sobre o mundo, avesso a burburinhos, arrisca-se. E senhor de si, inspira pelo violão.
O mundo, o violão que não se escuta. A vida, o trânsito que ignora o olvido. A música, o coração aberto ao trágico. A dor, osso que tira o não do nylon.
E cá, serve-se o pinhão do café. À mesa, pai e mãe, avôs e avós, parentes de parte a parte, amigas, amigos. E há lugar a quem trouxe leite, açúcar e os analgésicos. Mortos, vivos e feridos.
Quando o instante inventa, soa feito agora.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de junho de 2020.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Um autêntico cântico


Um autêntico cântico

Ora, quer maior prova de vida do que um grito?
Ora, como quem grita a toda hora perde audiência, é razoável ter cativos na plateia somente os imbecis, ou os péssimos de ouvido.
Ora, quem grita no momento oportuno cavalga bem o cavalo que o carrega. E quando observado de perto, exibindo a beleza dos seus músculos, trota; e farejando um obstáculo que exija cálculo, quando submetido a forças que o querem testar, salta; e campeia, entretanto, quando se vê nos prados selvagens das vontades muito aguçadas.
Ora, quando o ar pesa um bocado, os braços não podem entregar o osso, uma vez que é preciso levar o mundo nas costas.
Ora, o sacrifício pede uma mãozinha, pois, pelo pouco que sabem da faca e do fogo, o cordeiro, a cabra e a galinha não temem nada as manipulações dos adestrados com ar vidrado, de transtornado.
Ora, há pessoas que adaptam o ar que controlam, há quem possa adaptar-se ao ar que consome, e tem gente obrigada à adaptação ao ar que a aniquila.
Ora, honestamente, medo algum angustia, só padece quem sofre, diz a boca cheia de dentes, com o seu hálito de hortelã.
Ora, há quem diga que o circo precisa seguir funcionando a pleno vapor, que sobe do pântano, arde nas narinas e irrita os olhos, e que atordoa, desfalece e mata.
Ora, que se avente a hipótese de uma ideia vingar antes do parto, que a prática corte pela raiz o pensamento contrário aos fatos, que os eventos contem outra história, gentil a quem gargalha enquanto crava na caveira o punhal de destrezas, crenças e privilégios, feito regalo.
Ora, se for mesmo para abrir o jogo, que a verdade venha em uma bula, passe pela lupa dos prestidigitadores e converta infiéis e ímpios; embora os bobos, sempre eles, continuem a brincar com malabares, até que a boca ganhe uma nova costura, a mão nem precise mais de pinos e a grade enquadre o sol, instituindo o inferno aos condenados.
Ora, pra manter o prestígio de galo que faz a alvorada cantar a luz de sua glória esplendorosa, é preciso aquecer as cordas vocais com o ardor da iluminação tântrica de quem está a ponto de explodir.
Ora, como quem vive gritando fica sem voz, nesse ritmo em que a coisa toda está indo, vamos entrar bem antes da curva, precipitando a banguela do morro, uma vez que a subida anda puxada para quem tem dificuldades respiratórias desde o ventre.
Ora, enquanto for possível, melhor cuidar da garganta pra quando o instante decisivo vier, ou se ouvirá um miadinho trágico.
Ora, o ar envenenado que nos empesteia a todos, o ar viciado que nos confina entre os muros, o ar asfixiante que nos isola de nós, arf!, é melhor abrir janelas e buracos no paredão pra desfrutar da brisa do mar que ainda sopra.
Ora, como quem grita muito torra o saco, não falte entusiasmo pra não queimar o filme do grito neuroticamente assombroso.
Como gritar da sacada do apê parece coisa de criança, oremos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de junho de 2020.

domingo, 7 de junho de 2020

Prova de vida


Prova de vida

Acordou como outra pessoa. Leve, sem a espinha cobrando uma postura mais educada. Marota, sorridente, desconfiando ter dado com o sentido da vida. Feito uma hortênsia a difundir o perfume peculiar, não de begônias ou madrepérolas. Afinal, cada planta tem tempo de sobra pra seguir curtindo a eternidade da sua condição.
A genética aclara muita coisa, menos a razão de não ter as raízes regadas. Certamente, um dromedário pode rodar um deserto bíblico, de oásis em oásis, sem afundar em duna fofa. Todavia, por natureza, hortênsias e camelos têm distintos encantos.
Conforme se vê, a tônica meio que confunde. E a realidade insiste com estripulias de circo, fumaças erráticas, pouco cômicas. E toda a encenação por causa das olheiras que sumiram.
Metendo fundo a pá, mexendo lá dentro, sobe o vento do susto.
De exuberância contente, de joão-de-barro que bagunça a aurora com a sua disposição de cantar além do poste, da serra do prédio em construção, da escavadeira que abocanha um naco da terra. Cheira o beija-flor esperto, e matraca.
Risonho corpo cúbico, de valorizada hipocrisia, pacífica, de rotina estruturada. Na cara, contudo, a cidadã politicamente brejeira. Natural que acordasse renovada, tão outra, uma vez que fica toda arrepiada só de negar que chegou a pensar em apresentar-se ausente às suas semelhantes, as que, da maneira que pode, opta por apoiar. Põe-se a ouvir as pessoas ajoelhadas e a escutá-las, comovidas.
Andarilha de apê, vai e vem, e acaba com tontura.
Fora as formigas assanhadas no sorvete derretido, tinha que se ver com aquele fogão imundo, a pia cheia de pratos, a frigideira com uma crosta de gordura do contrafilé. E passa um dedo, gosta do alho queimado, mesmo que venha junto a graxa passada, lambe; repete o processo, o muxoxo diz que aprecia.
De fato, preocupada em andar da porta do quarto até a da sala, da vista sobre a rua ao silêncio nas escadas, acha que o prédio anseia pelo desfecho, pela definição do imbróglio com o corona. E intui que parar levará à purga de perder o direito de manter os pés descalços, pois temerá pela saúde.
Mora num apartamento de paredes nuas, de um bege extenuado. Queria pintar de branco para viver num ambiente em que as energias positivas contrariassem a descarga com problema, vazando. Bastaria espalhar fotos, e adeus tristeza.
Muito espera quem descansa. Descansado permanece quem adia mais um pouco o que não quer fazer. Isso irrita. E se por acaso venha a precisar da energia gasta em apressar as coisas?
Sob o sino dos ventos, a um passo do quarto e da cozinha, senta. Pressente-se apta a cuidar. Nem que sofra. Nem que atordoe, estafe, destoe ― doa-se.
Repaginando-se, irrompendo das pátinas que a apatia impõe, raro mármore que respira, flor de ossos do deserto, comprovando que é o sonho que compõe acordada a Pessoa do Futuro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de junho de 2020.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

E sem mais delongas


E sem mais delongas

Compras da semana. Sim, o jeito é voltar ao esquema anterior aos dias de confinamento. Pois o período quinzenal acabou por mostrar a incapacidade de administrar a vida doméstica com a praticidade dos ajuizados. Teve desperdícios, de verduras murchas e frutas mofadas. Por imperícia na armazenagem.
A razão anda escalafobética.
Talvez outro travesseiro permita um sono menos frustrante. Que saudade das horas uniformemente percorridas. Sem exagero, faz jus a sete dias de cinco horas ininterruptas de sono por noite. A troca tem prioridade. Por um mais baixo, um propício ao racional.
Sim, é preciso entender que a falta de sono dá nós.
As confusões comem a manhã num piscar de pálpebras. Os olhos não piscam, lacrimejam. E uma vez ressecados, umedecem-se por si. Pode ser pela tela do telefone enfiada na cara. O nariz está normal, o ar fluindo para dentro. O problema está em ficar o tempo todo. Só não se sabe o quanto, pois não se cronometra a satisfação, desfruta-se.
Os nervos vão ao limite. A nuca anda dolorida, picota o sono. Pior quando acorda, vira ver o relógio, desliza pelo sofá quando lê jornais. A cabeça tenta acertar-se. Não caminha e não corre, voa. Haja goles de café. As pernas cruzam-se, descruzam-se. O gás acabou. A água faltou. Tem gente que não falta, e faz o gesto que acolhe. Da pessoa que menos se cobra, dela vem a amizade. O aliviado larga o celular; arruma o tal travesseiro. Soluciona, opta por minorar a dor.
Faz bem. Com o pensamento à deriva, o foco é não se afogar.
O coração no peito, protegido pela caixa torácica. Mas há choques que abalam tronco e membros, mais ainda a cabeça. A mente respira o mundo pelas retinas. A consciência nem saliva; os dentes trituram o misto frio. O cioso do corpo engole aquele almoço.
Inspira. A rede de neurônios sustenta a oxigenação da carne que tem fome. Havendo sopro, há fogo.
Serpejante, o tempo nutre-se do corpo. Que vai no embalo.
A rádio ambiente está de volta. Embalagens gritam as marcas de suas qualidades. Uma imagem vale pelo ícone que projeta. Se fosse a TV, bastaria um botão pra correr fantasmas, vampiros, pastéis pras trevas da origem. Ao distraído do mundo, exilado de si, o labirinto de simulacros opaca-lhe o cérebro. Bobeia um instante, pega o bacon.
Os carrinhos encontram-se. Por mímica, resolve-se. O medo torna estressante ir por entre as gôndolas. A ansiedade tira a paciência. A respiração vai a um grau de pouca tolerância. Saindo pelas narinas, o ar mais quente embaça os óculos. Sobe um tanto a máscara sobre o nariz. Tem a lista por fazer, perturba-se.
Hora de parar, pagar e ir-se.
O carrinho que impedia agora pede passagem. Tem a máscara na testa. O sorrisinho. Que vá. A admissão de alguma coisa.
Todo mundo dá muito o que pensar.
Mas: o que dizer a quem não compreende que há perguntas que começam pela resposta?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 04 de junho de 2020.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Ciranda em tom menor


Ciranda em tom menor

Ficaríamos miseráveis invocando normas de segurança sanitária, justo com a jovem dos seus quinze anos com sua bebê de um aninho talvez. A filhota quer a mamãe pra si: joga um palito de batata frita no chão da lanchonete e ri. Como a travessa atira gostoso outros mais, divertindo-se a conquistar reprimendas tão fraternais.
Façamos a gentileza de mencionar o homem que finge observar a cena, mas seu olhar vê um nada daquele carinho todo. O senhor tem problemas, umas dívidas para consigo, tantas jornadas por cumprir. É sua a série de fracassos: no trabalho; no casamento; na cama que só atrapalha encaixar os números na planilha; no holerite minguado que dispara a psoríase pelas pernas conjugais. Deixemos que fale por ele o pedaço do beirute suspenso, entre o prato e a boca.
Focalizemos na garçonete que solta muxoxos. Ao que parece, são tantas as fotos que a cativam. Ajamos com probidade, ela realmente está radiante. Sim, quando o amor vigora, quando a pessoa ama, as razões pra dissabores continuam no lugar de sempre: ao alcance das lamúrias, disponível ao rancor que enruga a testa.
No entanto...
Em caso de pânico, escolhamos tomar do amor a dose certa.
Se não cura, alivia. Tornemos leve o coração que pulsa. O sorriso comprova o ponto de vista: o amor transforma o fraco em forte; o forte em pulsão; a pulsão em energia; tal energia que está tingida de loiro que a chapinha fez alisado, com as pontas azuladas que o boné não esconde. Assim, sigamos pela beleza que irradia algo de bom.
Boníssimo, enfatizemos a camaradagem. Torçamos pela faxineira, pela atendente que chama a faxineira, pela mãe que pede desculpas pela filhinha que pratica o amor como arremesso de batata.
Ah! A nossa confiança, a nossa fé, a nossa luz no fim do túnel.
Sim, admitamos: o vírus poderia ter derrubado quem passou pelos meses da travessia sem abraço ou precisou do consolo de uma noite de chá frio com biscoitos murchos. Mesmo ouvindo muitas decepções misturadas com superações, é recomendável portar-se com respeito. Toleremos os crocodilos que lamentam, mas estejamos do lado dos que guardam a decência dos tristes que puxam do fundo do peito um suspiro sofrido, profundamente doloroso, tão sufocante. E solidários, escutemos esse coração que bate, bate, bate, e vai batendo.
Vivamos. Convivamos.
Há pardais piando de fio em fio. Há vira-latas ladrando pros pneus que passam. Há tetras fazendo bolhas no aquário das salas escuras. Há ônibus em cujo ventre a mocidade cai no sono tão logo entra uma senhorinha com sacolas. Há um dentista limando a cárie do canino do porteiro que baba por gomas. E tem ainda a adolescente esgoelando no banho, certa de que seu entusiasmo entrará pelos fones do moço que rebola, bola, bola, ao ritmo do funk da poderosa viralizada.
Assim bailam as máscaras nas cirandas do ânimo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de junho de 2020.

domingo, 31 de maio de 2020

Peixe é


Peixe é

Trouxe a nova careca da cabeça velha quarar ao sol do meio-dia de maio, quando ali na esquina, no buraco drenado por uma trama de canos ligada ao motor ativo 24 horas, depara-se com aquilo.
Aquilo se mexe na água suja, amarronzada e lamacenta. Agita-se na poça, emporcalhando-se, sem nenhum sinal de que uma ajuda se faz precisa. O que se alegra no lodo da terra é um cão?
Leitor do mundo, já calculando as suposições que virão a seguir: a metáfora do ser caído na lama diz do sentimento que está represado pela situação do confinamento; o bicho enfiado na poça sinaliza para as perturbações que o isolamento provoca; a farra animal ratifica que as asneiras que saltam aos olhos brincam com as dores do mundo.
Para entender o que a cena parece transmitir, imagine-se que um cão divertindo-se numa poça d’água barrenta em mais um sábado de quarentena queira realmente externar alguma lógica ética, ou a visão ficará nisso que se vê: evento fortuito nada atroz, sem a pretensão de traduzir o mal-estar, a incerteza na raiz de moléstias inquietantes.
Leitor da vida, movido talvez por uma empatia maior que a razão, topa o jogo, aposta que há mesmo alguma mensagem de fundo. Que o acaso, folgazão, beija a calva como uma brisa boa.
Do nada, assim sem freio, a memória inventa de levar a mente do cão que nada por nadar para um domingo de desvendamentos antes do Tri. Sopra para um dia, em 68 ou 69, quando o sujeito não ostenta franja que obstrua os olhinhos faceiros dos cinco ou seis anos.
Atento àquele olhar que tudo quer descobrir, o brusco feito vento serve para içar algo das águas que escondem seres nas entranhas do seu mistério. Olhar que dispara perguntas diante dos achados.
Tão logo a vara enverga e a linha estica, saltita os verdes campos da beira, chapinha uns passos a mais na fralda da Itupararanga, eis que o atarantado foca o choque que sente no grito da constatação de que aquele peixe é mesmo muito esquisito.
Dado o alerta de quem vê pela primeira vez um treco sem nome, observa-o no ar, um bicho agitado. Sabendo que aquilo não é peixe, é um caranguejo, a irmã vem correndo, rindo, chamando-o de besta. Poxa... Logo ele, o menor, o caçulinha?
Caracoles!
Que espécie de coisa o caranguejo é? Por que não tem escamas como as tilápias, os lambaris e os carás? Pra que serve o alicate que tem na pata? E a couraça de osso cheia de pernas? Será aranha que mora no rio? O que será que ele é?
O troço que não late nem morde, tendo suas patas desenroscadas da linha com a minhoca ainda no anzol, anda de lado, e ligeiro. A seu modo elegante, some-se no açude onde vive.
Nas circunstâncias deste outono pandemizado, sorri a criança que se lembra de si no homem que acha graça do menino que ganha da vida um presente que o transcende.
Cáspite!
Estralando de novo a cada surpresa, o poeta flagra o caranguejo no cão que o imprevisto oferece de bandeja.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de maio de 2020.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Irremediável esperança


Irremediável esperança

Apesar do barulhão, espia a rua que logo estará novinha em folha. Trazem, em pó, a brita escura; assentam-na com maquinário pesado, pra dar trânsito a automóveis computadorizados.
Na varanda empoeirada, a boa alma não boceja nem espreguiça, recolhe do outono a brisa da manhã. Mais outra manhã.
De friozinho bom pro café que toma sozinha. De preferência, em pé, escorada no quadril que avisa que a pia tem solidez. De concreto, a incerteza. Do pouco que imagina, muito padece.
Vai um homem, ressabiado, canário de bico engaiolado. Vem uma mulher, cansada, andorinha de asas recolhidas. Como nem vem nem vai, a confinada janela. E toma café, afeita a umas tristezas.
Sim, a isolada preocupa-se. Quer a praia de volta, o calçadão pra caminhada, o torresmo na esquina, o papo na tarde. Quer-se a beijos e abraços com quem ama. Sim, pede o armistício.
Que o chão tenha sua órbita. Que a mecânica do sistema vá pelo cosmos. Que a galáxia siga uma maravilha. Sem culpa, só precisa do seu espaço pra degustação do café.
Àquela hora e naquele lugar, como a urgência que faz o cão rodar às pernas do dono em busca do centro do mundo, para defecar e sair de perto. Naquele instante e àquele lado, o homem usa a areia da rua em obras pra cobrir os dejetos do bichinho agitado.
Irmanada ao latido irrequieto, com a sua caneca por beber.
A caneca laqueada, em cuja lateral há um dragão desenhado com esmero, rico em detalhes, com as chamas pretas de linhas pintadas, ondas milimetricamente paralelas, o requinte de um pincel dominado, praticante de uma técnica rigorosa. Um presente.
A pessoa que pode tomar o seu café com a pose de quem domina a si mesma nem valoriza o realismo daquele dragão monocromático. Todavia, não consegue segurar-se, sofre medos e aflições. Dá a vida àquela engrenagem que nem liga pra felicidade da gente.
Pode curtir o café, mas não precisa mudar de jeito algum. Porque não vai ter vírus que a impeça de comover-se com os invisibilizados, suprimidos da visão, os que sonham com bolinhos de chuva na fome escancarada. Pois não faz cara de paisagem, isso não.
A cara. Eis um aprumo pra esta prosa toda.
E lá vem a mascarada do pandemônio. E não há jardins da mente, esse paraíso artificial, que tirem do mundo a dignidade que caminha o seu pedaço debaixo de pano branco. E lá vai o epicentro da comédia, um ser de mãos atadas, sobretudo calejadas, na tragédia que tanto o quer desumanizado.
A máscara não protege o rosto do estrume coberto de progresso. Não há disfarce que esconda o mofo das laranjas estocadas. Que as pessoas andam, ainda que humilhadas e ultrajadas; rumam por seu norte, recusando-se outro cálice de fel ao desdém.
Numa lógica cruel, a roda desaba a caneca, trinca, solta lascas. E acabar assim? Mesmo nestes dias abissais, de assombrações, há de haver um leito para apreciadores de café.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de maio de 2020.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Feijão no prato


Feijão no prato

Depois de uma noite daquelas em que a barata fica presa na teia sob a cama, quando não há nada a fazer a não ser virar Franz Kafka, a fera tranca-se na jaula.
A criança tentando processar o espanto de despertar no meio da noite, de pijama molhado. A infância mordendo o travesseiro, a sua nuca suando o bafo do pesadelo. No colchão forrado de fungo, chora de condoído, o barro lambido pelas águas intempestivas. Absurda, a vida queima quando assopra, brinca porque fere.
Disparate!
E, por acaso, era domingo?
Era domingo, cavalo selvagem nas imensidões da ansiedade. Era domingo, à mesa, quatro cadeiras à disposição das expectativas. Era domingo de frango assado pelas convulsões da farsa. Era domingo, ainda que fosse, quisera largando de sê-lo. Embora não fosse mais que outro qualquer, retorcia-se sobre o domingo que era. Era mesmo demasiado aquele domingo, louco por uma matéria sensacional com o último faquir obeso do Circo das Maravilhas, em fantástica reprise.
Para lidar com esse demônio hospitaleiro, o domingo, antes que o feijão acabe queimado: basta baixar o fogo da panela. Pois é preciso manter a pizza do sábado, o chope da sexta, a corridinha na quinta, a consulta na terça, a tosse de segunda... Para gozar as esperanças de um caldinho de feijão.
A cultura que pergunta faz arte?
A arte não obriga ninguém a pensar o que não quer, ela convida ao diálogo com o que não se havia pensado. Possibilita a inclusão de visões de mundo que estavam de fora. Pede atenção ao que não se via, ao minúsculo e ao maiúsculo, a vetores de força. Mostra doloroso o equilíbrio efêmero, precário e ilusório. Propõe a diferença, o abrupto do diverso, o começo da conversa, e as rupturas do consenso. Nada como uma boa noite de insônia para aprofundar-se no risco de agir sem o polegar do positivo, do artístico, do bem-feito, do bonitinho de tão ordinário. Porque a arte pede ensaio, tentativa, e não o temor de errar. Faz-se pela dúvida que persiste como pergunta. Quem só sabe as respostas carece da cultura que educa pela arte.
Cadê tempo pro corpo com fome o tempo todo?
Diz um sujeito: “Alienado de mim é que não fico, porque, dentre as mil razões para não me apartar de mim, o meu café com pão faz-me estar em casa”.
Diz o retrato: “As palavras mexem com as pessoas, que passam a agir pelo que acreditam ter entendido do que se diz. Fica óbvio que a palavra existe porque, no uso, o sentido que vem à tona fecunda nas pessoas a certeza do poder que as palavras têm. Afinal, palavras são coisas humanas, feitas por pessoas, fabricadas para ajudar a intervir no mundo. Mas o evidente apaga esta sua origem, como ferramenta. Então, a palavra impõe uma carga semântica que despista quem não a domina ou não põe questão de fazê-la útil”.
O normal do tenso?
Condicionado à dor que sente, quando chinela na curva, o medo capota, ou mente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de maio de 2020.