Prova
de vida
Acordou como outra pessoa. Leve, sem a
espinha cobrando uma postura mais educada. Marota, sorridente, desconfiando ter
dado com o sentido da vida. Feito uma hortênsia a difundir o perfume peculiar,
não de begônias ou madrepérolas. Afinal, cada planta tem tempo de sobra pra
seguir curtindo a eternidade da sua condição.
A genética aclara muita coisa, menos a
razão de não ter as raízes regadas. Certamente, um dromedário pode rodar um
deserto bíblico, de oásis em oásis, sem afundar em duna fofa. Todavia, por
natureza, hortênsias e camelos têm distintos encantos.
Conforme se vê, a tônica meio que
confunde. E a realidade insiste com estripulias de circo, fumaças erráticas,
pouco cômicas. E toda a encenação por causa das olheiras que sumiram.
Metendo fundo a pá, mexendo lá dentro,
sobe o vento do susto.
De exuberância contente, de
joão-de-barro que bagunça a aurora com a sua disposição de cantar além do
poste, da serra do prédio em construção, da escavadeira que abocanha um naco da
terra. Cheira o beija-flor esperto, e matraca.
Risonho corpo cúbico, de valorizada
hipocrisia, pacífica, de rotina estruturada. Na cara, contudo, a cidadã politicamente
brejeira. Natural que acordasse renovada, tão outra, uma vez que fica toda
arrepiada só de negar que chegou a pensar em apresentar-se ausente às suas semelhantes,
as que, da maneira que pode, opta por apoiar. Põe-se a ouvir as pessoas
ajoelhadas e a escutá-las, comovidas.
Andarilha de apê, vai e vem, e acaba
com tontura.
Fora as formigas assanhadas no sorvete
derretido, tinha que se ver com aquele fogão imundo, a pia cheia de pratos, a
frigideira com uma crosta de gordura do contrafilé. E passa um dedo, gosta do
alho queimado, mesmo que venha junto a graxa passada, lambe; repete o processo,
o muxoxo diz que aprecia.
De fato, preocupada em andar da porta
do quarto até a da sala, da vista sobre a rua ao silêncio nas escadas, acha que
o prédio anseia pelo desfecho, pela definição do imbróglio com o corona. E
intui que parar levará à purga de perder o direito de manter os pés descalços, pois
temerá pela saúde.
Mora num apartamento de paredes nuas,
de um bege extenuado. Queria pintar de branco para viver num ambiente em que as
energias positivas contrariassem a descarga com problema, vazando. Bastaria
espalhar fotos, e adeus tristeza.
Muito espera quem descansa. Descansado
permanece quem adia mais um pouco o que não quer fazer. Isso irrita. E se por acaso
venha a precisar da energia gasta em apressar as coisas?
Sob o sino dos ventos, a um passo do quarto
e da cozinha, senta. Pressente-se apta a cuidar. Nem que sofra. Nem que atordoe,
estafe, destoe ― doa-se.
Repaginando-se, irrompendo das pátinas
que a apatia impõe, raro mármore que respira, flor de ossos do deserto, comprovando
que é o sonho que compõe acordada a Pessoa do Futuro.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 07 de junho de 2020.
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