Ciranda
em tom menor
Ficaríamos miseráveis invocando normas
de segurança sanitária, justo com a jovem dos seus quinze anos com sua bebê de um
aninho talvez. A filhota quer a mamãe pra si: joga um palito de batata frita no
chão da lanchonete e ri. Como a travessa atira gostoso outros mais, divertindo-se
a conquistar reprimendas tão fraternais.
Façamos a gentileza de mencionar o
homem que finge observar a cena, mas seu olhar vê um nada daquele carinho todo.
O senhor tem problemas, umas dívidas para consigo, tantas jornadas por cumprir.
É sua a série de fracassos: no trabalho; no casamento; na cama que só atrapalha
encaixar os números na planilha; no holerite minguado que dispara a psoríase pelas
pernas conjugais. Deixemos que fale por ele o pedaço do beirute suspenso, entre
o prato e a boca.
Focalizemos na garçonete que solta
muxoxos. Ao que parece, são tantas as fotos que a cativam. Ajamos com probidade,
ela realmente está radiante. Sim, quando o amor vigora, quando a pessoa ama, as
razões pra dissabores continuam no lugar de sempre: ao alcance das lamúrias,
disponível ao rancor que enruga a testa.
No entanto...
Em caso de pânico, escolhamos tomar do
amor a dose certa.
Se não cura, alivia. Tornemos leve o
coração que pulsa. O sorriso comprova o ponto de vista: o amor transforma o
fraco em forte; o forte em pulsão; a pulsão em energia; tal energia que está tingida
de loiro que a chapinha fez alisado, com as pontas azuladas que o boné não
esconde. Assim, sigamos pela beleza que irradia algo de bom.
Boníssimo, enfatizemos a camaradagem.
Torçamos pela faxineira, pela atendente que chama a faxineira, pela mãe que
pede desculpas pela filhinha que pratica o amor como arremesso de batata.
Ah! A nossa confiança, a nossa fé, a nossa
luz no fim do túnel.
Sim, admitamos: o vírus poderia ter
derrubado quem passou pelos meses da travessia sem abraço ou precisou do
consolo de uma noite de chá frio com biscoitos murchos. Mesmo ouvindo muitas decepções
misturadas com superações, é recomendável portar-se com respeito. Toleremos os
crocodilos que lamentam, mas estejamos do lado dos que guardam a decência dos tristes
que puxam do fundo do peito um suspiro sofrido, profundamente doloroso, tão sufocante.
E solidários, escutemos esse coração que bate, bate, bate, e vai batendo.
Vivamos. Convivamos.
Há pardais piando de fio em fio. Há vira-latas
ladrando pros pneus que passam. Há tetras fazendo bolhas no aquário das salas escuras.
Há ônibus em cujo ventre a mocidade cai no sono tão logo entra uma senhorinha com
sacolas. Há um dentista limando a cárie do canino do porteiro que baba por gomas.
E tem ainda a adolescente esgoelando no banho, certa de que seu entusiasmo entrará
pelos fones do moço que rebola, bola, bola, ao ritmo do funk da poderosa
viralizada.
Assim bailam as máscaras nas cirandas do
ânimo.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 02 de junho de 2020.
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