terça-feira, 2 de junho de 2020

Ciranda em tom menor


Ciranda em tom menor

Ficaríamos miseráveis invocando normas de segurança sanitária, justo com a jovem dos seus quinze anos com sua bebê de um aninho talvez. A filhota quer a mamãe pra si: joga um palito de batata frita no chão da lanchonete e ri. Como a travessa atira gostoso outros mais, divertindo-se a conquistar reprimendas tão fraternais.
Façamos a gentileza de mencionar o homem que finge observar a cena, mas seu olhar vê um nada daquele carinho todo. O senhor tem problemas, umas dívidas para consigo, tantas jornadas por cumprir. É sua a série de fracassos: no trabalho; no casamento; na cama que só atrapalha encaixar os números na planilha; no holerite minguado que dispara a psoríase pelas pernas conjugais. Deixemos que fale por ele o pedaço do beirute suspenso, entre o prato e a boca.
Focalizemos na garçonete que solta muxoxos. Ao que parece, são tantas as fotos que a cativam. Ajamos com probidade, ela realmente está radiante. Sim, quando o amor vigora, quando a pessoa ama, as razões pra dissabores continuam no lugar de sempre: ao alcance das lamúrias, disponível ao rancor que enruga a testa.
No entanto...
Em caso de pânico, escolhamos tomar do amor a dose certa.
Se não cura, alivia. Tornemos leve o coração que pulsa. O sorriso comprova o ponto de vista: o amor transforma o fraco em forte; o forte em pulsão; a pulsão em energia; tal energia que está tingida de loiro que a chapinha fez alisado, com as pontas azuladas que o boné não esconde. Assim, sigamos pela beleza que irradia algo de bom.
Boníssimo, enfatizemos a camaradagem. Torçamos pela faxineira, pela atendente que chama a faxineira, pela mãe que pede desculpas pela filhinha que pratica o amor como arremesso de batata.
Ah! A nossa confiança, a nossa fé, a nossa luz no fim do túnel.
Sim, admitamos: o vírus poderia ter derrubado quem passou pelos meses da travessia sem abraço ou precisou do consolo de uma noite de chá frio com biscoitos murchos. Mesmo ouvindo muitas decepções misturadas com superações, é recomendável portar-se com respeito. Toleremos os crocodilos que lamentam, mas estejamos do lado dos que guardam a decência dos tristes que puxam do fundo do peito um suspiro sofrido, profundamente doloroso, tão sufocante. E solidários, escutemos esse coração que bate, bate, bate, e vai batendo.
Vivamos. Convivamos.
Há pardais piando de fio em fio. Há vira-latas ladrando pros pneus que passam. Há tetras fazendo bolhas no aquário das salas escuras. Há ônibus em cujo ventre a mocidade cai no sono tão logo entra uma senhorinha com sacolas. Há um dentista limando a cárie do canino do porteiro que baba por gomas. E tem ainda a adolescente esgoelando no banho, certa de que seu entusiasmo entrará pelos fones do moço que rebola, bola, bola, ao ritmo do funk da poderosa viralizada.
Assim bailam as máscaras nas cirandas do ânimo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de junho de 2020.

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