domingo, 31 de maio de 2020

Peixe é


Peixe é

Trouxe a nova careca da cabeça velha quarar ao sol do meio-dia de maio, quando ali na esquina, no buraco drenado por uma trama de canos ligada ao motor ativo 24 horas, depara-se com aquilo.
Aquilo se mexe na água suja, amarronzada e lamacenta. Agita-se na poça, emporcalhando-se, sem nenhum sinal de que uma ajuda se faz precisa. O que se alegra no lodo da terra é um cão?
Leitor do mundo, já calculando as suposições que virão a seguir: a metáfora do ser caído na lama diz do sentimento que está represado pela situação do confinamento; o bicho enfiado na poça sinaliza para as perturbações que o isolamento provoca; a farra animal ratifica que as asneiras que saltam aos olhos brincam com as dores do mundo.
Para entender o que a cena parece transmitir, imagine-se que um cão divertindo-se numa poça d’água barrenta em mais um sábado de quarentena queira realmente externar alguma lógica ética, ou a visão ficará nisso que se vê: evento fortuito nada atroz, sem a pretensão de traduzir o mal-estar, a incerteza na raiz de moléstias inquietantes.
Leitor da vida, movido talvez por uma empatia maior que a razão, topa o jogo, aposta que há mesmo alguma mensagem de fundo. Que o acaso, folgazão, beija a calva como uma brisa boa.
Do nada, assim sem freio, a memória inventa de levar a mente do cão que nada por nadar para um domingo de desvendamentos antes do Tri. Sopra para um dia, em 68 ou 69, quando o sujeito não ostenta franja que obstrua os olhinhos faceiros dos cinco ou seis anos.
Atento àquele olhar que tudo quer descobrir, o brusco feito vento serve para içar algo das águas que escondem seres nas entranhas do seu mistério. Olhar que dispara perguntas diante dos achados.
Tão logo a vara enverga e a linha estica, saltita os verdes campos da beira, chapinha uns passos a mais na fralda da Itupararanga, eis que o atarantado foca o choque que sente no grito da constatação de que aquele peixe é mesmo muito esquisito.
Dado o alerta de quem vê pela primeira vez um treco sem nome, observa-o no ar, um bicho agitado. Sabendo que aquilo não é peixe, é um caranguejo, a irmã vem correndo, rindo, chamando-o de besta. Poxa... Logo ele, o menor, o caçulinha?
Caracoles!
Que espécie de coisa o caranguejo é? Por que não tem escamas como as tilápias, os lambaris e os carás? Pra que serve o alicate que tem na pata? E a couraça de osso cheia de pernas? Será aranha que mora no rio? O que será que ele é?
O troço que não late nem morde, tendo suas patas desenroscadas da linha com a minhoca ainda no anzol, anda de lado, e ligeiro. A seu modo elegante, some-se no açude onde vive.
Nas circunstâncias deste outono pandemizado, sorri a criança que se lembra de si no homem que acha graça do menino que ganha da vida um presente que o transcende.
Cáspite!
Estralando de novo a cada surpresa, o poeta flagra o caranguejo no cão que o imprevisto oferece de bandeja.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de maio de 2020.

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