terça-feira, 16 de junho de 2020

Com pirações



Com pirações

Onde o pirado tem razão?
No coração, quando quebra o gelo. No colchão, ao tirar onda. No chão, lambendo lentilhas. No pirão, tascando pimenta.
Precisemos a nossa teoria para prosseguir respirando.
Como quem trepa pelo arco-íris: passemos pelos pastos de ouro; batamos no touro que o touro é de vidro; fujamos do louro que o louro é tingido; esperemos que suba o fumo da quimera, que a queimemos vinte, cinquenta, cem ou mil, num ódio, fogo que nem se nota.
Com estátua fingindo-se de morta, abusemos. Rindo na cara dura. Passemos dos limites. Afinal, memes não desmentem os fatos.
Que felicidade termos impunidades. Gozemos exercitá-las.
Sem nojo, tratemos de calçar nossos inimigos com botas, botinas, coturnos, sapatos e sapatilhas, porque a lama pegajosa não está nos pés que querem andar o mundo, está na língua de quem deplora.
Com motivo de sobra? Seus 80 anos em abril.
Coisa boa.
A luta de classes castra só os marxistas comunistas de uma figa, passando por sobre trotskistas, humoristas e tantos vigaristas santos. Portanto, endireitemos a coluna, avancemos na contramão, vigiemos quem por nós nos vigia. Façamos nossa a vingança a quem nos quer enfurnados, virtuosamente refinados.
Façamos o instante. Chega de ficarmos no escuro da sala. Sim, já reparamos que os outros é que matam. Assim, vivamos com alegria, uma vez que contentamentos anulam o isolamento.
Rasguemos o filó às moscas da malária, dengue. Sem amarelar.
Deixaremos que uns moleques, atrás de lentes de araque, grudem suas melecas nas nossas cadeiras? Deixaremos que a brisa do mar nos envergue como caniços ao luar?
Basta. Chega de servir cafezinho a quem pede adoçante.
Viva. Queremos agora aquela xícara de café quentinho, acabado de passar, fumegando de bom, reconfortante. Façamos por gosto que a beberagem atice-nos a correr ruas, praças, praias e quiosques.
Bebamos num gole. Bebamos de uma vez por todas.
Lutemos pelo luto na hora certa. Vaguemos pelo lado raso da lua. Gritemos por silêncio quando o mundo estiver berrando.
Urinemos na flor do cacto. Odoremos por ofício. Espinhemos.
Debaixo do cimento que assenta o pedestal do ilustre apedrejado, há pegadas de lobos, lascas de unha de jaguatirica, fiapos de túnica de pessoas mortas. Como o peso da realidade cobre o que se ignora, o realismo túrgido bem dramatiza o que não se sabe.
Se o láudano é ladainha, o cantochão é cantoria.
Desliguemos as TVs. Silenciemos os rádios. Rasguemos jornais.
Com o mordomo atento ao dono, mesmo morcegando de sono?
Toquemos a mesma nota, até que ela vire a tônica. Que o mantra congele o mocinho no papel de anjinho. Que o canto retire o manto a quem quer o frio. Azarões, deixemos de mugir como galãs.
Cadê a graça? Quem ri desde o começo, desmanda.
Patologicamente armados com o riso, entremos de cara na torta:
Coringa na cabeça!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de junho de 2020.







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