Com
pirações
Onde o pirado tem razão?
No coração, quando quebra o gelo. No
colchão, ao tirar onda. No chão, lambendo lentilhas. No pirão, tascando
pimenta.
Precisemos a nossa teoria para
prosseguir respirando.
Como quem trepa pelo arco-íris:
passemos pelos pastos de ouro; batamos no touro que o touro é de vidro; fujamos
do louro que o louro é tingido; esperemos que suba o fumo da quimera, que a
queimemos vinte, cinquenta, cem ou mil, num ódio, fogo que nem se nota.
Com estátua fingindo-se de morta,
abusemos. Rindo na cara dura. Passemos dos limites. Afinal, memes não desmentem
os fatos.
Que felicidade termos impunidades.
Gozemos exercitá-las.
Sem nojo, tratemos de calçar nossos
inimigos com botas, botinas, coturnos, sapatos e sapatilhas, porque a lama
pegajosa não está nos pés que querem andar o mundo, está na língua de quem
deplora.
Com motivo de sobra? Seus 80 anos em
abril.
Coisa boa.
A luta de classes castra só os
marxistas comunistas de uma figa, passando por sobre trotskistas, humoristas e
tantos vigaristas santos. Portanto, endireitemos a coluna, avancemos na
contramão, vigiemos quem por nós nos vigia. Façamos nossa a vingança a quem nos
quer enfurnados, virtuosamente refinados.
Façamos o instante. Chega de ficarmos
no escuro da sala. Sim, já reparamos que os outros é que matam. Assim, vivamos
com alegria, uma vez que contentamentos anulam o isolamento.
Rasguemos o filó às moscas da malária,
dengue. Sem amarelar.
Deixaremos que uns moleques, atrás de
lentes de araque, grudem suas melecas nas nossas cadeiras? Deixaremos que a
brisa do mar nos envergue como caniços ao luar?
Basta. Chega de servir cafezinho a
quem pede adoçante.
Viva. Queremos agora aquela xícara de
café quentinho, acabado de passar, fumegando de bom, reconfortante. Façamos por
gosto que a beberagem atice-nos a correr ruas, praças, praias e quiosques.
Bebamos num gole. Bebamos de uma vez
por todas.
Lutemos pelo luto na hora certa.
Vaguemos pelo lado raso da lua. Gritemos por silêncio quando o mundo estiver
berrando.
Urinemos na flor do cacto. Odoremos
por ofício. Espinhemos.
Debaixo do cimento que assenta o
pedestal do ilustre apedrejado, há pegadas de lobos, lascas de unha de
jaguatirica, fiapos de túnica de pessoas mortas. Como o peso da realidade cobre
o que se ignora, o realismo túrgido bem dramatiza o que não se sabe.
Se o láudano é ladainha, o cantochão é
cantoria.
Desliguemos as TVs. Silenciemos os
rádios. Rasguemos jornais.
Com o mordomo atento ao dono, mesmo
morcegando de sono?
Toquemos a mesma nota, até que ela
vire a tônica. Que o mantra congele o mocinho no papel de anjinho. Que o canto
retire o manto a quem quer o frio. Azarões, deixemos de mugir como galãs.
Cadê a graça? Quem ri desde o começo,
desmanda.
Patologicamente armados com o riso,
entremos de cara na torta:
Coringa na cabeça!
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 16 de junho de 2020.
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