domingo, 21 de junho de 2020

Dia de sol


Dia de sol

O domingo amanhece com aquele céu azul, umas nuvens tímidas a salpicar o horizonte. Como crônica antiga caprichada na emoção de sentimentos à tona, a página disposta feito espaço livre ao poético na veia da escrita. Daí que esta combinação do azul com o branco leve a pensar que: sim, é possível que o mundo continue encantador.
Entretanto, nem só de encantamentos vive-se.
O chato da vida pode estar em ficar pensando sobre o que fazer, quando, na verdade, em algumas circunstâncias nem dá tempo para isso. Ou vai ou racha, sem as finuras de meio-tom. Não há abafa que silencie nos olhos o grito de quem já está à beira da loucura.
De tanto pensar, pensar, pensar? A restrição impõe-se como ideia fixa: cérebro trabalhando. O confinamento dita o ritmo do tempo que a cabeça preenche com falta de humor. O isolamento, portanto, é uma condenação a rotinas impensadas. O réu nega as suas culpas, pois os seus erros não passam de enganos. E ninguém em sã consciência vê-se como digno disso que o mundo está propondo. Dor, sofrimento, desconforto, o futuro preso a indefinições. Daí que o presente travou, feito página que, nos dias de internet discada, rodava, rodava aquele:
CARREGANDO...
Ficasse nisso, a manhã engasgaria. Mas as maritacas gracejaram; os casais se amaram; os corredores voltaram do calçadão; e o ar do apê foi ganhando os timbres de frango no forno, molho no macarrão e embriaguez do satisfeito.
Então, sem dar trela de si, o oxigênio vai circulando de norte a sul, da cabeça aos pés. Pondo-se a degustar o disco inteiro, Até Sangrar da Áurea Martins, toma-se de surpresa. A cada verso, achando bem esquisito que “o mundo inteiro fez-se tão tristonho”, que o seu "retrato fica às vezes tão sisudo, porque não compreende tudo”, como se a vida estivesse dizendo “que ficou para impedir que a loucura fizesse de mim um molambo qualquer”, que “há de ver cheio de horror que no fundo do seu peito existe um sonho desfeito”, que “vive uma vida de louca, de sorriso na boca e uma lágrima no olhar”. E, por sinal, de olhos fechados.
O destino falando com ele, uma pessoa qualquer, com problemas e alegrias de gente comum, cuja mortalidade zanza pelo fio invisível que suspende o instante, numa perplexidade que angustia?
A sua mente solta do nada: volte à vida, tire o pijama!
Pijama? Como não tem nenhum, vai ter que comprar um.
E os pelos das pernas ficam eriçados, só de pensar em ir atrás de um pijama novo, bonito, colorido. E de que cor? Nem vem com a ideia de vermelho que isso é coisa de esquerdopata; nem verde-amarelo, que é para minions trogloditas.
Faça a escolha consciente.
O algodão menos traumatizante, a estampa floral mais calmante e o tamanho justo para o físico da criatura que é.
O bicho que, no presente segundo, cochila. Sim, existe coisa mais importante do que vestir um pijama: tirar uma pestana no sofá.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de junho de 2020.

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