Dia
de sol
O domingo amanhece com aquele céu
azul, umas nuvens tímidas a salpicar o horizonte. Como crônica antiga
caprichada na emoção de sentimentos à tona, a página disposta feito espaço
livre ao poético na veia da escrita. Daí que esta combinação do azul com o
branco leve a pensar que: sim, é possível que o mundo continue encantador.
Entretanto, nem só de encantamentos
vive-se.
O chato da vida pode estar em ficar
pensando sobre o que fazer, quando, na verdade, em algumas circunstâncias nem
dá tempo para isso. Ou vai ou racha, sem as finuras de meio-tom. Não há abafa
que silencie nos olhos o grito de quem já está à beira da loucura.
De tanto pensar, pensar, pensar? A
restrição impõe-se como ideia fixa: cérebro trabalhando. O confinamento dita o
ritmo do tempo que a cabeça preenche com falta de humor. O isolamento, portanto,
é uma condenação a rotinas impensadas. O réu nega as suas culpas, pois os seus
erros não passam de enganos. E ninguém em sã consciência vê-se como digno disso
que o mundo está propondo. Dor, sofrimento, desconforto, o futuro preso a
indefinições. Daí que o presente travou, feito página que, nos dias de internet
discada, rodava, rodava aquele:
CARREGANDO...
Ficasse nisso, a manhã engasgaria. Mas
as maritacas gracejaram; os casais se amaram; os corredores voltaram do
calçadão; e o ar do apê foi ganhando os timbres de frango no forno, molho no
macarrão e embriaguez do satisfeito.
Então, sem dar trela de si, o oxigênio
vai circulando de norte a sul, da cabeça aos pés. Pondo-se a degustar o disco
inteiro, Até Sangrar da Áurea Martins, toma-se de surpresa. A cada verso, achando bem esquisito que “o mundo
inteiro fez-se tão tristonho”, que o seu "retrato fica às vezes tão sisudo,
porque não compreende tudo”, como se a vida estivesse dizendo “que ficou para
impedir que a loucura fizesse de mim um molambo qualquer”, que “há de ver cheio
de horror que no fundo do seu peito existe um sonho desfeito”, que “vive uma
vida de louca, de sorriso na boca e uma lágrima no olhar”. E, por sinal, de
olhos fechados.
O destino falando com ele, uma pessoa
qualquer, com problemas e alegrias de gente comum, cuja mortalidade zanza pelo
fio invisível que suspende o instante, numa perplexidade que angustia?
A sua mente solta do nada: volte à
vida, tire o pijama!
Pijama? Como não tem nenhum, vai ter que
comprar um.
E os pelos das pernas ficam eriçados,
só de pensar em ir atrás de um pijama novo, bonito, colorido. E de que cor? Nem
vem com a ideia de vermelho que isso é coisa de esquerdopata; nem
verde-amarelo, que é para minions trogloditas.
Faça a escolha consciente.
O algodão menos traumatizante, a
estampa floral mais calmante e o tamanho justo para o físico da criatura que é.
O bicho que, no presente segundo,
cochila. Sim, existe coisa mais importante do que vestir um pijama: tirar uma
pestana no sofá.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 21 de junho de 2020.
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