quinta-feira, 4 de junho de 2020

E sem mais delongas


E sem mais delongas

Compras da semana. Sim, o jeito é voltar ao esquema anterior aos dias de confinamento. Pois o período quinzenal acabou por mostrar a incapacidade de administrar a vida doméstica com a praticidade dos ajuizados. Teve desperdícios, de verduras murchas e frutas mofadas. Por imperícia na armazenagem.
A razão anda escalafobética.
Talvez outro travesseiro permita um sono menos frustrante. Que saudade das horas uniformemente percorridas. Sem exagero, faz jus a sete dias de cinco horas ininterruptas de sono por noite. A troca tem prioridade. Por um mais baixo, um propício ao racional.
Sim, é preciso entender que a falta de sono dá nós.
As confusões comem a manhã num piscar de pálpebras. Os olhos não piscam, lacrimejam. E uma vez ressecados, umedecem-se por si. Pode ser pela tela do telefone enfiada na cara. O nariz está normal, o ar fluindo para dentro. O problema está em ficar o tempo todo. Só não se sabe o quanto, pois não se cronometra a satisfação, desfruta-se.
Os nervos vão ao limite. A nuca anda dolorida, picota o sono. Pior quando acorda, vira ver o relógio, desliza pelo sofá quando lê jornais. A cabeça tenta acertar-se. Não caminha e não corre, voa. Haja goles de café. As pernas cruzam-se, descruzam-se. O gás acabou. A água faltou. Tem gente que não falta, e faz o gesto que acolhe. Da pessoa que menos se cobra, dela vem a amizade. O aliviado larga o celular; arruma o tal travesseiro. Soluciona, opta por minorar a dor.
Faz bem. Com o pensamento à deriva, o foco é não se afogar.
O coração no peito, protegido pela caixa torácica. Mas há choques que abalam tronco e membros, mais ainda a cabeça. A mente respira o mundo pelas retinas. A consciência nem saliva; os dentes trituram o misto frio. O cioso do corpo engole aquele almoço.
Inspira. A rede de neurônios sustenta a oxigenação da carne que tem fome. Havendo sopro, há fogo.
Serpejante, o tempo nutre-se do corpo. Que vai no embalo.
A rádio ambiente está de volta. Embalagens gritam as marcas de suas qualidades. Uma imagem vale pelo ícone que projeta. Se fosse a TV, bastaria um botão pra correr fantasmas, vampiros, pastéis pras trevas da origem. Ao distraído do mundo, exilado de si, o labirinto de simulacros opaca-lhe o cérebro. Bobeia um instante, pega o bacon.
Os carrinhos encontram-se. Por mímica, resolve-se. O medo torna estressante ir por entre as gôndolas. A ansiedade tira a paciência. A respiração vai a um grau de pouca tolerância. Saindo pelas narinas, o ar mais quente embaça os óculos. Sobe um tanto a máscara sobre o nariz. Tem a lista por fazer, perturba-se.
Hora de parar, pagar e ir-se.
O carrinho que impedia agora pede passagem. Tem a máscara na testa. O sorrisinho. Que vá. A admissão de alguma coisa.
Todo mundo dá muito o que pensar.
Mas: o que dizer a quem não compreende que há perguntas que começam pela resposta?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 04 de junho de 2020.

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