A
coisa certa
Peraí, quer dizer que você faz uma
coisa de cada vez? Age assim pra não gerar confusão? Pra dar conta do pouco
tempo que tem? Ou quer acreditar que consegue manter-se sóbrio?
Um momento. Respire, pense.
Eis o ponto no qual há duas ações simultâneas:
pensa enquanto respira. Acrescente-se: envelhece. Vive numa embolada só. No ritmo
que você dita a si. Além do pensamento, da organização das ideias e do
entendimento consciente. Para que haja consenso em aceitar que pensa, age ao
pensar e põe em palavras.
Atos, palavras e pensamentos, até no
dissenso.
Nesse ínterim, ocorre-lhe:
“Sabe aquele ambiente do tipo confronto eterno num cubículo sem saída?
Haja peleja, haja resistência. Daí alguém sucumbe, entrega de bandeja. O outro
não vence, ele tripudia. Sem vitória a ser celebrada. Sem conquista a ser
comemorada. Há o peso tacanho da submissão imposta. Não há bravura nem coragem.
Prepondera o ato autoritário, vil, humilhante. O oco do osso, o sombrio do
fechado, o ar que some, que asfixia, e extermina. Então, que haja a retratação,
uma vez que o horizonte revela-se o confronto
moral num poço sem justiça”.
Foi para ficar embriagado, não de
palavras ou de sensações, com a cerveja? Em plena quarentena? Voltar do boteco
neste estado? Pra ficar falando nada com nada, um palavrório estúpido?
E aqueles livros que sempre esteve a
fim de ler? Por que não os ler agora?
Primeiro: A Peste, de Albert Camus. As circunstâncias já bastam. Se está
vivendo a clausura por recomendação científica, a sanidade pede não cavar mais
funda a caverna onde pressente o enfarto.
Não lerá.
Porque sente o coração na boca, a
veia tensa do pescoço, a nuca dura. É preferível não riscar o fósforo. Acender
a vela para quê? Para deixar menor o cárcere; pra consumir rapidamente o ar que
resta.
É lógico: fica difícil ler O Doente Imaginário, de Molière.
Enfim, como estátua viva que faz da
cadeira cativa seu pedestal, o narciso pouco dado aos zumnidos da família correu
chorar da própria desgraça. Não queria expor a barba rala aos escrutínios da
tia metida à modista, mas, sem máscara pra ir bebericando sua cervejinha, até agradece
quando notam o cavanhaque grisalho que tem cultivado no isolamento. Lá pelas
tantas, chupando caroço de azeitona, passa-lhe pela cabeça o xeque-mate: será
que vírus roda ou vomita?
Bebendo... Bebendo... Babando.
É melhor voltar. Não adianta ficar
onde não querem que fique.
E já está até vendo que vão contar
tudo. Como falam. Falam pra caramba! Será possível?
Eis as duas brincando no cercadinho. A
menina pega do chocalho para bater na testa da outra. Não são gêmeas, parecem. Há
diferença de meses entre elas. Trocam tapas, puxam cabelo, abrem o berreiro. Alguém
ri da briguinha. Lilith com Eva, dizem ao fundo.
Será que disseram isso mesmo?
Como tombo não é pirueta, vai direto
pro chuveiro.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 28 de junho de 2020.
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