domingo, 28 de junho de 2020

A coisa certa


A coisa certa

Peraí, quer dizer que você faz uma coisa de cada vez? Age assim pra não gerar confusão? Pra dar conta do pouco tempo que tem? Ou quer acreditar que consegue manter-se sóbrio?
Um momento. Respire, pense.
Eis o ponto no qual há duas ações simultâneas: pensa enquanto respira. Acrescente-se: envelhece. Vive numa embolada só. No ritmo que você dita a si. Além do pensamento, da organização das ideias e do entendimento consciente. Para que haja consenso em aceitar que pensa, age ao pensar e põe em palavras.
Atos, palavras e pensamentos, até no dissenso.
Nesse ínterim, ocorre-lhe:
“Sabe aquele ambiente do tipo confronto eterno num cubículo sem saída? Haja peleja, haja resistência. Daí alguém sucumbe, entrega de bandeja. O outro não vence, ele tripudia. Sem vitória a ser celebrada. Sem conquista a ser comemorada. Há o peso tacanho da submissão imposta. Não há bravura nem coragem. Prepondera o ato autoritário, vil, humilhante. O oco do osso, o sombrio do fechado, o ar que some, que asfixia, e extermina. Então, que haja a retratação, uma vez que o horizonte revela-se o confronto moral num poço sem justiça”.
Foi para ficar embriagado, não de palavras ou de sensações, com a cerveja? Em plena quarentena? Voltar do boteco neste estado? Pra ficar falando nada com nada, um palavrório estúpido?
E aqueles livros que sempre esteve a fim de ler? Por que não os ler agora?
Primeiro: A Peste, de Albert Camus. As circunstâncias já bastam. Se está vivendo a clausura por recomendação científica, a sanidade pede não cavar mais funda a caverna onde pressente o enfarto.
Não lerá.
Porque sente o coração na boca, a veia tensa do pescoço, a nuca dura. É preferível não riscar o fósforo. Acender a vela para quê? Para deixar menor o cárcere; pra consumir rapidamente o ar que resta.
É lógico: fica difícil ler O Doente Imaginário, de Molière.
Enfim, como estátua viva que faz da cadeira cativa seu pedestal, o narciso pouco dado aos zumnidos da família correu chorar da própria desgraça. Não queria expor a barba rala aos escrutínios da tia metida à modista, mas, sem máscara pra ir bebericando sua cervejinha, até agradece quando notam o cavanhaque grisalho que tem cultivado no isolamento. Lá pelas tantas, chupando caroço de azeitona, passa-lhe pela cabeça o xeque-mate: será que vírus roda ou vomita?
Bebendo... Bebendo... Babando.
É melhor voltar. Não adianta ficar onde não querem que fique.
E já está até vendo que vão contar tudo. Como falam. Falam pra caramba! Será possível?
Eis as duas brincando no cercadinho. A menina pega do chocalho para bater na testa da outra. Não são gêmeas, parecem. Há diferença de meses entre elas. Trocam tapas, puxam cabelo, abrem o berreiro. Alguém ri da briguinha. Lilith com Eva, dizem ao fundo.
Será que disseram isso mesmo?
Como tombo não é pirueta, vai direto pro chuveiro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de junho de 2020.

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