terça-feira, 26 de maio de 2020

Feijão no prato


Feijão no prato

Depois de uma noite daquelas em que a barata fica presa na teia sob a cama, quando não há nada a fazer a não ser virar Franz Kafka, a fera tranca-se na jaula.
A criança tentando processar o espanto de despertar no meio da noite, de pijama molhado. A infância mordendo o travesseiro, a sua nuca suando o bafo do pesadelo. No colchão forrado de fungo, chora de condoído, o barro lambido pelas águas intempestivas. Absurda, a vida queima quando assopra, brinca porque fere.
Disparate!
E, por acaso, era domingo?
Era domingo, cavalo selvagem nas imensidões da ansiedade. Era domingo, à mesa, quatro cadeiras à disposição das expectativas. Era domingo de frango assado pelas convulsões da farsa. Era domingo, ainda que fosse, quisera largando de sê-lo. Embora não fosse mais que outro qualquer, retorcia-se sobre o domingo que era. Era mesmo demasiado aquele domingo, louco por uma matéria sensacional com o último faquir obeso do Circo das Maravilhas, em fantástica reprise.
Para lidar com esse demônio hospitaleiro, o domingo, antes que o feijão acabe queimado: basta baixar o fogo da panela. Pois é preciso manter a pizza do sábado, o chope da sexta, a corridinha na quinta, a consulta na terça, a tosse de segunda... Para gozar as esperanças de um caldinho de feijão.
A cultura que pergunta faz arte?
A arte não obriga ninguém a pensar o que não quer, ela convida ao diálogo com o que não se havia pensado. Possibilita a inclusão de visões de mundo que estavam de fora. Pede atenção ao que não se via, ao minúsculo e ao maiúsculo, a vetores de força. Mostra doloroso o equilíbrio efêmero, precário e ilusório. Propõe a diferença, o abrupto do diverso, o começo da conversa, e as rupturas do consenso. Nada como uma boa noite de insônia para aprofundar-se no risco de agir sem o polegar do positivo, do artístico, do bem-feito, do bonitinho de tão ordinário. Porque a arte pede ensaio, tentativa, e não o temor de errar. Faz-se pela dúvida que persiste como pergunta. Quem só sabe as respostas carece da cultura que educa pela arte.
Cadê tempo pro corpo com fome o tempo todo?
Diz um sujeito: “Alienado de mim é que não fico, porque, dentre as mil razões para não me apartar de mim, o meu café com pão faz-me estar em casa”.
Diz o retrato: “As palavras mexem com as pessoas, que passam a agir pelo que acreditam ter entendido do que se diz. Fica óbvio que a palavra existe porque, no uso, o sentido que vem à tona fecunda nas pessoas a certeza do poder que as palavras têm. Afinal, palavras são coisas humanas, feitas por pessoas, fabricadas para ajudar a intervir no mundo. Mas o evidente apaga esta sua origem, como ferramenta. Então, a palavra impõe uma carga semântica que despista quem não a domina ou não põe questão de fazê-la útil”.
O normal do tenso?
Condicionado à dor que sente, quando chinela na curva, o medo capota, ou mente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de maio de 2020.

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